Como fazer a orientação para a cooperação global

Os líderes globais devem se comprometer a moldar um novo contexto geopolítico

Børge Brende, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2021 | 03h00

A chegada das vacinas contra a covid-19 traz esperança de que o ataque do vírus desapareça em breve. De fato, enquanto muitas das vacinas estão demonstrando ser um milagre na sua eficácia, arriscam exacerbar fricções geopolíticas e linhas de rupturas preexistentes. Elas já foram comparadas a ativos militares no que diz respeito à sua capacidade de reforçar o poder e a influência de um país e existe a preocupação de que a desigualdade global cresça ainda mais, pois as economias em desenvolvimento não fazem parte da primeira rodada de distribuição e ficam restringidas na forma como respondem às crises econômicas.

O fato de os medicamentos inovadores serem vistos através de uma lente geopolítica competitiva não pode, infelizmente, ser uma surpresa. Assim como a economia global, a saúde pública tornou-se um espaço em que as divergências ultrapassaram a cooperação. Isso faz parte de uma maior erosão das estruturas de cooperação pós-guerra fria. Ao comentar a resposta global à pandemia do coronavírus, o secretário-geral da ONU, António Guterres, disse que o mundo “essencialmente falhou” no que toca à “cooperação, unidade e solidariedade”.

O problema é que a cooperação global não é um luxo, é o ingrediente necessário para a recuperação de hoje e a resiliência de amanhã. Nossos ambientes interligados de saúde pública, de economia globalizada e planetário único só podem ficar mais fortes quando as partes interessadas trabalham umas com as outras, e não umas contra as outras.

Então, podemos redefinir as posturas geopolíticas longe da concorrência e no sentido da cooperação? Felizmente, há sinais de que os líderes estão explorando acordos multilaterais, quer transatlânticos, transpacíficos ou sino-europeus.

Os líderes globais devem usar os primeiros dias do ano para se comprometer publicamente a moldar um novo contexto geopolítico, que promova a cooperação e as parcerias. Essa proposta – um apelo à afirmação do multilateralismo – pode soar como uma prescrição fraca, dado o âmbito que aflige o corpo geopolítico, mas o ponto é sua relativa facilidade de implementação. Ter líderes para articular a importância de trabalhar uns com os outros – num momento que tão claramente exige maior unidade – pode servir como um passo vital para reencaminhar o ritmo na direção certa.

Claro, a afirmação por si só não é suficiente. Os líderes devem também focar-se em identificar o que deve ser a cooperação. Já vimos antes a comunidade global desenvolver estruturas de cooperação construídas com um propósito. As linhas de swap cambial criadas pelos bancos centrais durante a crise financeira global e a atualização do G-20 no mesmo período são os exemplos mais proeminentes de líderes que elaboram estruturas de cooperação adequadas para a crise em questão.

Mas avançar em direção a uma maior colaboração hoje não significa necessariamente que precisamos de um roteiro fixo – um que possa rapidamente ficar dessincronizado com o contexto geopolítico dinâmico e em evolução. A ascensão contínua de novos intervenientes globais e a natureza multifacetada dos desafios requer uma bússola que possa continuar a orientar os líderes à medida que procuram reconstruir economias e sociedades em curto prazo e estão em melhor posição para enfrentar os desafios emergentes no futuro.

Essas são as conclusões do Grupo de Ação Global, que reuniu uns 25 líderes dos setores público e privado e que o Fórum Econômico Mundial convocou virtualmente em 2020 para lançar um conjunto de princípios que servem como bússola para o fortalecimento da parceria multilateral. Em particular, os princípios exigem dar prioridade à paz e à segurança, à equidade e à sustentabilidade, porque cada um deles avança com a cooperação global e é necessário para que esta avance. Por outro lado, a ausência destes – sob a forma de insegurança, desigualdade ou insustentabilidade – é uma causa da fratura global e provocada por ela.

Além disso, os princípios exigem maior colaboração público-privada, pois são necessários investimentos contínuos e sustentáveis em prioridades de educação, saúde e infraestruturas. Mais uma vez, abordar essas questões adequadamente só pode ser alcançado por meio de estruturas globais de cooperação, e cada um pode facilitar um futuro mais saudável e cooperativo.

O fato de esses princípios nascerem de diálogos contínuos não deve ser negligenciado. Embora as restrições de hoje tornem tudo mais desafiador, os líderes precisam encontrar maneiras seguras de se reunir e realizar conferências uns com os outros. Uma maior cooperação e mecanismos de assistência para o avanço das prioridades econômicas, ambientais e de segurança só podem ser alcançados e mantidos pela via do diálogo contínuo.

Em última análise, para sair da pandemia em posição mais forte que no início, e ser mais resiliente diante de potenciais desafios futuros, a direção em que temos de avançar é a de maior diálogo, coordenação e ação coletiva.

Este artigo faz parte da Agenda de Davos do Fórum Econômico Mundial (25 a 29 de janeiro de 2021).


PRESIDENTE DO FÓRUM ECONÔMICO MUNDIAL, É O RESPONSÁVEL PELA CONVOCAÇÃO DO GRUPO DE AÇÃO GLOBAL

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