Como foi que eles conseguiram

Roosevelt ‘picou’ o poder econômico concentrado e deu poder de polícia a eleitores contra eleitos

Fernão Lara Mesquita*, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2020 | 03h00

Todo mundo pergunta como foi que, partindo de uma situação em que “tudo estava dominado” pela corrupção, os americanos conseguiram virar o jogo.

O “Movimento Progressista” foi uma resposta aos problemas que se tornaram agudos depois da Guerra Civil (1861-1865), que em tudo fazem lembrar os do Brasil de hoje: urbanização desordenada com multiplicação de cortiços, favelas e violência urbana; exploração vil do trabalho; usurpação dos governos das cidades por máquinas políticas corruptas altamente profissionalizadas, financiadas por empresários de araque; corrida às fusões e consolidações de empresas de setores inteiros da economia, concentrando a riqueza e criando grupos gigantes com poder de corrupção ilimitado (os famigerados robber barons)...

Embora todos tivessem as mesmas queixas, até meados da década de 1890 dezenas de grupos reformistas ou de protesto separados por antagonismos em torno de minúcias programáticas e vaidades imensas batiam cabeças em cidades e Estados diferentes, sem força para mudar nada.

Quatro fatores, principalmente, concorreram para que somassem forças a partir da crise que levou ao pânico financeiro de 1893. A ação de todas as igrejas na crítica do estado de coisas e na pregação do social gospel, que associava a salvação individual também à “salvação social”, preparou o terreno. Mas foi a fundação da National Municipal League (NML), em 1894, amplamente financiada pelo empresariado que perdia com a corrupção, que profissionalizou a crítica do sistema e a busca de alternativas, pesquisando sistematicamente ao redor do mundo bons modelos de gestão das cidades, formando pessoal, prestando assessoria jurídica e legislativa e, principalmente, difundindo para o grande público as alternativas encontradas, municiando de argumentos e “estruturando em rede” os movimentos reformistas do país inteiro.

Também foi crucial o início de uma revolução no jornalismo americano, que evoluiu do sensacionalismo e do panfletarismo partidário para o jornalismo investigativo dos repórteres “revolvedores da sujeira” (muckrakers) da revista de Samuel McClure, que circulou entre 1893 e 1929 e expôs os intestinos da corrupção dos robber barons dos setores de petróleo, financeiro, do aço e outros, que constituíram monopólios maquiavélicos mancomunados com os donos das ferrovias e com políticos corruptos. Foram esses jornalistas, também, que pesquisaram e difundiram persistentemente nos EUA novos métodos de combate à corrupção, especialmente as ferramentas de democracia direta usadas na Suíça.

Os muckrakers e a NML deram a contribuição decisiva para a mobilização da opinião pública numa direção consistente apoiada numa espinha dorsal de sólido conhecimento.

O elemento sorte entrou, então, decisivamente em cena pela mão de Theodore Roosevelt. Vindo de fora dos currais tradicionais da política, ele foi o primeiro político do Ocidente a compreender a força do novo jornalismo nascente. Jogando “fechado” com os grandes repórteres daquela geração, começou como chefe de polícia de Nova York, foi eleito na sequência governador do Estado e logo se tornou herói nacional ao enfrentar a máfia que dominava a política local havia décadas e controlava nacionalmente o Partido Republicano. Traído, foi “esterilizado” numa candidatura à vice-presidência, num golpe dos velhos caciques corruptos dentro da convenção republicana. Mas com o assassinato do presidente McKinley antes da posse “TR”, aos 42 anos, carismático e orador brilhante, tornou-se, em 1901, o 26.º e o mais moço de todos os presidentes dos Estados Unidos, servindo até 1909.

Sua primeira providência foi reviver o Sherman Antitrust Act de 1890, engavetado pelos antecessores, regulamentar a operação das ferrovias e instituir a preservação de um grau mínimo de concorrência em cada setor em benefício do consumidor como limite legal da disputa por mercados. Ao mesmo tempo, atacou forte as bases do “caciquismo” que viciava a política, implantando eleições primárias diretas, eleição direta de senadores (antes indicados pelos Legislativos estaduais) e os direitos de recall, iniciativa e referendo popular dos atos dos Legislativos e Executivos estaduais e municipais.

Essas medidas vieram de encontro aos novos modelos de gestão das cidades a partir de eleições municipais despartidarizadas promovidos pela NML, o de City Council (um conselho eleito de cinco a sete membros executando todas as funções antes prerrogativas de prefeitos e vereadores) e o de City Manager (uma variação do mesmo sistema, mas ainda mais profissionalizado) e acabaram com o poder dos velhos caciques.

TR “picou” o poder econômico onde estava excessivamente concentrado e, na política, deu poder de polícia aos eleitores contra os representantes eleitos, o que matou o varejo da corrupção e garantiu a constante renovação de quadros. Desde então os EUA vivem em reforma permanente, mas com o povo, e não os políticos, dirigindo a pauta, o que explica toda a diferença de desenvolvimento, afluência e liberdade entre eles e o resto do mundo.

* FERNÃO LARA MESQUITA É JORNALISTA; ESCREVE EM WWW.VESPEIRO.COM

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