Compromisso com a criação

Igreja e Amazônia, empenho na defesa dos direitos humanos e da biodiversidade

Dom Joel Portella Amado*, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2019 | 03h00

Nesta semana em que se comemorou o Dia da Amazônia (5 de setembro), a pouco mais de um mês do Sínodo dos Bispos sobre novos caminhos para a evangelização e para uma ecologia integral, convém olhar o passado e compreender a relação entre o sínodo e a missão da Igreja. Não são de agora a reflexão e o cuidado da Igreja Católica no Brasil com o meio ambiente, especialmente com a Amazônia.

Presente desde o período colonial na região, a Igreja esteve sempre próxima das populações locais. Desde o século 17 há registros da atuação na evangelização e na promoção humana, com oferta de serviços essenciais às populações, principalmente em educação e saúde. A defesa dos direitos humanos e a luta pela preservação da biodiversidade também fazem parte da memória dessa presença, marcada até mesmo pelo martírio de religiosos e leigos.

Em 1954 o então secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Hélder Câmara, convocou uma reunião com os bispos prelados da região para buscar o fortalecimento da missão e a renovação do empenho em favor da promoção humana das populações amazônicas.

A exortação do papa Paulo VI Cristo aponta para a Amazônia, de 1972, marcou um novo impulso na a atuação eclesial e fortaleceu a presença evangelizadora da parte da CNBB na região. Animados por esse impulso, os bispos da região se encontraram em assembleia conjunta em Santarém (PA) e construíram o documento Linhas prioritárias da Pastoral da Amazônia, que foi determinante para orientar a caminhada da Igreja de 1972 a 1997.

Nesse intervalo de tempo, a questão ecológica ganhou espaço na reflexão sobre o trabalho desenvolvido, temática na qual a Igreja, já há algum tempo tem sido uma voz profética. Foi também a partir de encontros dos bispos e da atuação da Igreja na Amazônia que surgiram organismos que até hoje atuam na defesa de povos e da biodiversidade.

Sinais e inspiração desse compromisso são as diversas Campanhas da Fraternidade promovidas pela CNBB. Seis delas abordaram temáticas socioambientais. Duas trataram especificamente de questões da Amazônia: em 2002, com o lema “Por uma terra sem males!”, a campanha discutiu a realidade dos povos indígenas; já em 2007 o tema escolhido foi “Fraternidade e Amazônia” e o lema, “Vida e missão neste chão”. Nesta última, o objetivo foi conhecer a realidade em que vivem os povos da região, sua cultura, seus valores e as agressões que sofrem. Além disso, foi lançado um chamado à conversão, à solidariedade, a um novo estilo de vida e a um projeto de desenvolvimento à luz dos valores humanos e evangélicos, seguindo a prática de Jesus no cuidado com as pessoas e a natureza.

A Igreja não só aponta os desafios, mas também concretiza caminhos para a superação das problemáticas sociais e ecológicas. Um exemplo recente é o lançamento do Barco Hospital Papa Francisco, que vai percorrer os rios levando atendimento a s povos amazônicos.

Esse caminho trilhado pela Igreja no Brasil encontra eco no magistério do papa Francisco e em sua preocupação com a questão ambiental. Marco de uma nova perspectiva para a relação com o meio ambiente, a encíclica Laudato Si’ é um convite para a mudança de atitude em relação à natureza e à sociedade.

O papa fala de uma “conversão ecológica” para uma “ecologia integral”, conceito que abrange as dimensões ambiental, econômica, social e cultural. Ele nos lembra que somos todos guardiões da obra de Deus. E isso, diz o papa, “não é algo de opcional nem um aspecto secundário da experiência cristã, mas parte essencial duma existência virtuosa”.

O papa Francisco refere-se a lugares “que requerem um cuidado particular pela sua enorme importância para o ecossistema mundial, ou que constituem significativas reservas de água assegurando assim outras formas de vida”. A Amazônia é citada como um exemplo de localidade cuja importância para o conjunto do planeta e para o futuro da humanidade não se pode ignorar.

“Os ecossistemas das florestas tropicais possuem uma biodiversidade de enorme complexidade, quase impossível de conhecer completamente, mas quando estas florestas são queimadas ou derrubadas para desenvolver cultivos, em poucos anos perdem-se inúmeras espécies, ou tais áreas transformam-se em áridos desertos”, alertou o papa.

O pontífice ainda chama a atenção para “os enormes interesses econômicos internacionais” que podem atentar contra as soberanias nacionais, as propostas de internacionalização do bioma, e valoriza a tarefa de organismos internacionais e organizações da sociedade civil que “sensibilizam as populações e colaboram de forma crítica, inclusive utilizando legítimos mecanismos de pressão, para que cada governo cumpra o dever próprio e não delegável de preservar o meio ambiente e os recursos naturais do seu país”.

Essa concepção ensinada por Francisco confirma a atuação perene da Igreja Católica na Região Amazônica e reforça a importância de refletir sobre o bioma, os novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral.

Recente entrevista do papa ao jornal La Stampa-Vatican Insider explicita essa correlação. Na ocasião, ele disse que “o sínodo é filho da Laudato Si’”. Quem não leu essa encíclica “jamais entenderá o Sínodo sobre a Amazônia”.

O desejo nesta semana em que se celebrou o Dia da Amazônia é vivermos a grande beleza do caminho sinodal, de encontrar caminhos em rede. Que essa proposta do papa Francisco para a Igreja nos ajude a perceber, na diversidade humana, cultural e ecológica, caminhos para reunir tantas iniciativas de compromisso com a criação, em favor de uma ecologia integral.

*BISPO AUXILIAR DO RIO DE JANEIRO, É SECRETÁRIO-GERAL DA CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB)

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