Conto de um golpe anunciado

Somente membros do Conselho dos Justos se empenham em impedir um desfecho indesejado

José Augusto Guilhon Albuquerque, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2021 | 03h00

Reza a lenda que Pedro, tendo enganado todos os adultos, escondido na mata e gritando “lá vem o lobo”, não foi comido pelo lobo, contrariando outras narrativas. Sobreviveu ao lobo e livrou-se das devidas punições dos adultos, que lhe ofereceram perdão em troca de sumir e não mais voltar. E lá se foi Pedro, dar golpes na vida.

E tantas fez, sempre enganando os incautos com ameaças de lobos, que Pedro um dia virou presidente de uma República tão instável, tão dividida pelo ódio, tão rapidamente empobrecida, tão corroída pela corrupção, tão abatida pela peste que nenhum homem de bem conseguia se fazer ouvir, quanto mais virar presidente.

E assim, já como Pedro, o lobo, assumiu o poder e uma nova carreira de golpista. Prometeu acabar com todos os lobos, todas as leis, todos os usurpadores de seu poder absoluto, por todo os meios, de preferência ilícitos. Logo distribuiu peles de ovelha às matilhas, pouco numerosas, mas vorazes, que o cercavam na crença de participarem do festim propiciado por seu infinito poder. Logo passou a ocultar, sob uma pele de lobo, suas fraquezas, sua pusilanimidade, sua indecisão, sua reação baseada no puro impulso, sua incapacidade de imaginar uma agenda positiva. Guardou para si a tarefa de destruir, de modo nada meticuloso, mas extremamente persistente, todas as pessoas, todos os grupos, instituições, leis e costumes com os quais se mostrou incapaz de conviver.

Tentou de tudo para recuperar seu delírio de um poder absoluto que lhe teria sido usurpado pelos adultos, isto é, tudo o que encarnasse leis, prerrogativas, direitos, valores morais e, sobretudo, honestidade e competência. Tentou domesticar à força o Conselho de Comissários, que podia aprovar e recusar leis que não resultassem integralmente de seus próprios desejos. Tentou, sem sucesso, intimidar o Conselho dos Justos, que podia conter ou anular sua imaginária prerrogativa de cruzar todas as linhas, esvaziar todas as instituições, ignorar todos os direitos e levar ao desfecho sua carreira de golpista. Seu insucesso na tentativa de domesticar ou intimidar os dois conselhos, que dividiam com ele os poderes da República, não o levou a conciliações, mas sim a ofensas e ameaças, e à retomada de sua trajetória de golpes.

Não entenderam os adultos, tantas vezes ludibriados com seus gritos de “lá vem o lobo”, que o menino Pedro não deveria escapar das punições devidas, sob pena de nunca crescer. Não ficou claro, para seus camaradas de 30 anos nos Conselhos de Comissários, que ele não se deteria se não fosse detido e afastado por seus golpes reiterados contra o decoro, a moral vigente, e por suas ameaças, ofensas e mentiras.

Desde o momento em que atiçou seus próprios filhotes para exigirem a revogação, por decreto, da Lei Maior da República, deveria ter ficado claro, para os adultos e para os membros dos Conselhos da República, que sua trajetória só terminaria se, e quando, retomasse o poder absoluto supostamente usurpado. E, o que é pior, ele mesmo organizou manifestações que corroboravam as ameaças de seus lobachos e chegou a reivindicar para si próprio a única encarnação legítima da Tábua da Lei Republicana.

O que está claro é que todos repetiram a omissão diante do menino Pedro: uns passaram-lhe a mão na cabeça, outros o admoestaram, outros, ainda, lamentaram ou tiraram proveito. Em troca, muitos trataram de zombar, ridicularizar, menosprezar e minimizar o risco que ele representa para a sobrevivência da República.

Passaram-se dois anos e meio de “governo” e a cada semana se repetiram as ameaças de ataque de lobos para justificar o “contragolpe” do Chefe Supremo da alcateia.

Assim termina este conto inacabado, sem desfecho e sem moral da história, mas com um golpe anunciado.

No papel de narrador, creio que há três desfechos plausíveis. O primeiro é que todos continuem se omitindo e Pedro, o lobo, cada vez mais assustado com a previsibilidade crescente de sua derrota, ceda ao impulso de desencadear, de improviso, uma tentativa de golpe. Dada a previsível fragmentação das profissões armadas, que ele imagina controlar, suas consequências seriam imprevisíveis. Infelizmente, com base na trajetória de todos os protagonistas até agora, esse é o desfecho mais plausível.

O segundo mais plausível é que a omissão se repita e a campanha eleitoral lhe permita organizar suas matilhas para impedir a votação, cumprindo sua ameaça de que “não haverá eleição”. Isso implica uma ruptura efetiva da normalidade constitucional, cujas consequências não sabemos de antemão.

O terceiro é que os Conselhos da República, armados de suas prerrogativas constitucionais, destronem o Chefe Supremo e interrompam sua carreira de golpista. Mas enquanto ambos os Conselhos de Comissários estão ocupados em se locupletar nas vultosas migalhas que lhes são oferecidas, apenas membros do Conselho dos Justos estão empenhados em impedir um desfecho indesejado. Mas só serão bem-sucedidos se agirem ainda neste ano.


PROFESSOR TITULAR DE CIÊNCIA POLÍTICA DA USP

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