Copa sem hospital

Cada assento do Estádio Mané Garrincha daria pra comprar um ventilador pulmonar

Roberto Livianu*, O Estado de S. Paulo

30 de março de 2020 | 03h00

“Não se faz Copa com hospital”

Ronaldo, 1.º/12/2011

Ronaldo trouxe-nos muitas alegrias com a bola nos pés, como a participação protagonista na conquista do penta na Copa de 2002, nos campos da Coreia do Sul e do Japão. Sem podermos esquecer que foi eleito o melhor do mundo em 1996, 1997 e 2002.

Em 2011, já fora das quatro linhas, quando nos preparávamos para sediar a Copa de 2014, na condição de nosso embaixador futebolístico declarou à imprensa, de forma convicta, que “não se faz Copa com hospital”. Pouquíssimas vozes lúcidas se opunham ao ufanismo de então, como a do jornalista Juca Kfouri, que alertou sobre os riscos de se construírem arenas ao custo de bilhões num país com a corrupção nossa de cada dia sempre implacavelmente presente.

Os alertas incluíam pedidos de atenção aos desonestos dirigentes da CBF, que Juca chamava de Casa Bandida do Futebol. Dos últimos presidentes que antecederam ao atual, Rogério Caboclo, José Maria Marin (ex-governador biônico de São Paulo) está preso nos Estados Unidos por crime de lavagem de dinheiro e Marco Polo Del Nero e Ricardo Teixeira foram banidos perpetuamente do futebol por prática de fraudes diversas.

Arenas foram edificadas em locais onde não existe a prática disseminada do futebol, como em Cuiabá, que custou US$ 288 milhões, ou a Arena Amazônia, de Manaus, que custou US$ 340 milhões – verdadeiras fortunas, incluindo superfaturamentos. Noticiou-se amplamente, ainda, que o ex-governador José Roberto Arruda recebia propina referente à obra no próprio Estádio Mané Garrincha, em Brasília, o segundo mais caro do mundo – custou US$ 830 milhões, sendo ultrapassado somente pelo Estádio de Wembley (US$ 1,13 bilhão).

Calcula-se que o custo final de cada um dos assentos do Mané Garrincha tenha sido de US$ 11.400. Ou seja, cada assento permitiria comprar um ventilador pulmonar. Podemos concluir que dezenas de milhares de respiradores poderiam estar à disposição em Brasília para salvar dezenas de milhares de vidas nesta pandemia do novo coronavírus – o mais grave drama da humanidade desde a 2.ª Grande Guerra. 

Mas por que o Brasil precisaria mais de estádios que de hospitais, segundo Ronaldo? Qual seria a lógica de seu raciocínio? Seriam os negócios bilionários criados pelas arenas em todo o País e a percepção internacional de que o Brasil seria uma nação pujante economicamente?

Exibir símbolos majestosos de grandiosidade e ao mesmo tempo ignorar pura e simplesmente ou fingir que não existem as vulnerabilidades humanas inerentes à pobreza? Esconder a pobreza sob o tapete ou talvez atrás de tampas coloridas como o Projeto Cingapura do ex-prefeito Paulo Maluf, de moradias populares que ocultavam a miséria, a desigualdade social abissal, as necessidades dos mais humildes? 

A verdade é que, nove anos depois da frase de Ronaldo, 100 milhões de brasileiros não têm acesso a saneamento básico e 65 milhões não dispõem de água potável. Como imaginar que não precisamos de hospitais, de escolas, de moradias, de segurança, de respeito à dignidade humana? 

Há um século a gripe espanhola matou cerca de 50 milhões, mas a tendência natural humana é deixar esses acontecimentos para trás, esquecendo que o passado nos permite entender o presente e nos prepara para o futuro. E hoje, num momento crítico como este, a sociedade precisa de transparência como o ar para respirar, não é plausível que se obstrua, ainda que temporariamente, o acesso à informação garantido legalmente, como pontuou o STF ao afastar corretamente os efeitos da MP 928.

Como não há vacina nem tratamento medicamentoso com eficácia comprovada, o isolamento foi a maneira encontrada pelos cientistas do mundo para reduzir a velocidade de disseminação da covid-19, diminuindo o risco de demanda simultânea dos casos mais graves, para evitar o colapso do sistema de saúde. 

Em países como a Itália já se percebeu que não ter feito o isolamento no tempo correto teve consequências devastadoras, custando muitas vidas, cuja proteção merece prioridade absoluta de quem governa. Poderemos reconhecer os grandes líderes não narcisistas e seu talento, ou a ausência dele, na gestão desta crise, pela sensibilidade, pelo profissionalismo, pelo diálogo, pela transparência e pela criatividade, conservando a vitalidade da atividade econômica produtiva. 

Apesar da determinação do isolamento, em tempos de individualismo exacerbado algumas pessoas saem para passear como se estivessem em férias, acelerando ruidosamente em alta rotação o motor de seus carrões, ostentando-os na avenida semideserta para transeuntes cabisbaixos cheios de medo e incertezas, mascarados e enluvados. Que a nova ordem pós-pandemia nos permita evoluir em matéria de solidariedade global e responsabilidade sanitária.

Ronaldo jamais poderia imaginar que o estádio do Pacaembu fosse transformado em hospital de campanha, com 200 leitos, para enfrentar a covid-19 – estádio objeto da menção feita por ele nove anos atrás. Por isso é que se diz que o peixe morre pela boca.

*DOUTOR EM DIREITO PELA USP, PROCURADOR DE JUSTIÇA, É O IDEALIZADOR E PRESIDENTE DO INSTITUTO NÃO ACEITO CORRUPÇÃO 

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