Coronavírus, a batalha da comunicação

Quando se escrever a história deste momento da humanidade brilhará a imprensa de qualidade

Carlos Alberto Di Franco, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2020 | 03h00

O coronavírus chegou com tudo. A população está assustada e o pânico é, de longe, o principal aliado do inimigo que pôs o mundo de joelhos, mostrou o tamanho da fragilidade humana e a miragem de tantas prepotências. Regiões inteiras do mundo estão isoladas. O globalismo recua e fecha fronteiras. Os mercados afundam. Museus estão vazios. Estádios de futebol perderam brilho, colorido e vibração. O Vaticano está mergulhado num silêncio que assombra. O papa, numa de suas falas expressivas, está “enjaulado” no Palácio Apostólico.

Imagens de praças, ruas e avenidas fantasmas e de um mundo vestido de vazio reforçam o pavor, que boatos e notícias alarmantes na era das redes sociais amplificam barbaramente. Vídeos e informações irresponsáveis podem matar. A luta contra o coronavírus depende da competência, capacidade estratégica e seriedade das autoridades sanitárias. Mas a guerra - e estamos mergulhados num campo de batalha sem precedentes - só será ganha na trincheira da comunicação.

A informação é sempre fundamental. E precisa ser confiável, clara e segura. Não é hora de grotescos campeonatos de egos e vaidades. Não é o momento de subir na passarela da mídia para desfilar currículos vistosos. Não mesmo.

A doença é desafiante. Pode ter brutal impacto na saúde pública. Do ponto de vista sanitário, quarentenas, cancelamento de eventos, suspensão de aulas, planos de contingência fazem todo o sentido. São medidas que visam a diminuir a velocidade com que a epidemia se alastra, de modo que os serviços de saúde não entrem em colapso por superdemanda. Como bem salientou Alexandre Cunha, infectologista do Hospital Sírio-Libanês, a lotação dos serviços de saúde, agigantada pela epidemia do medo, pode ser o grande risco dessa pandemia: “Com serviços superlotados, portadores da minoria de casos graves e mesmo portadores de outras doenças, crônicas inclusive, podem ter seu prognóstico piorado pela lotação dos serviço de saúde”.

Os idosos devem ter cuidados especiais. Dos 10 aos 49 anos a taxa de letalidade varia entre 0,2% e 0,4%, com salto para 1,3% nos pacientes entre 50 e 59 anos. Na faixa etária entre 60 e 69 anos, o índice é de 3,6%. O número sobe para 8% em infectados de 70 a 79 anos e chega a 15% entre os que têm mais de 80 anos. Os dados são do Centro de Controle e Prevenção de Doenças da China.

A taxa de mortalidade é até nove vezes maior entre pessoas com alguma doença crônica quando comparada à de pacientes sem patologia preexistente. Segundo dados do governo chinês, no grupo de infectados que não tinham nenhuma comorbidade apenas 1,4% morreu. Já entre os pacientes com alguma doença cardiovascular, por exemplo, o índice chegou a 13,2%.

Estamos diante de um dos maiores desafios de comunicação da História. E o jornalismo de qualidade exerce papel decisivo. Transparência informativa, rigor sem alarmismo e didatismo compõem a chave do sucesso. Por isso registro com entusiasmo recente iniciativa do Grupo Estado de criar um núcleo e uma newsletter especialmente dedicados à cobertura do coronavírus.

O núcleo conta com cerca de 30 profissionais de São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro, sem contar os correspondentes pelo País. “Nossa prioridade é a busca por informações que orientem as pessoas nessa crise e a cobrança das autoridades para que cumpram seu papel”, diz David Friedlander, editor executivo do jornal. O Estado está intensificando a produção de reportagens especiais para as edições digital e impressa.

As equipes do Broadcast e do BRPolítico, dois serviços de informação exclusiva do Grupo Estado, estarão dedicadas aos impactos na economia e na política. Foi lançada uma vibrante newsletter, diária, que aborda todos os acontecimentos que o leitor precisa saber sobre a crise. Essa ferramenta é gratuita e está ao alcance de todos os leitores do Estado, não só dos assinantes. 

A reação do Estadão, e de outros veículos da mídia tradicional, é uma lufada de ar fresco num mundo dominado por tanta desinformação. É preciso avançar e apostar em boas pautas. É melhor cobrir magnificamente alguns temas do que atirar em todas as direções. O leitor pede reportagem. O bom repórter sabe encontrar histórias que merecem ser contadas. É capaz de garimpar a informação, prestar serviço, ajudar a vida das pessoas e apontar caminhos. A cobertura do coronavírus tem mostrado uma imprensa ética e sensível. Informação clara e objetiva, sem alarmismo e sensacionalismo, está promovendo um forte sentido de responsabilidade e de solidariedade em todos os setores da sociedade.

Antes os periódicos cumpriam muitas funções. Hoje não cumprem algumas delas. Não servem mais para contar o imediato. E as empresas jornalísticas precisam assimilar isso e se converter em marcas multiplataformas, com produtos adequados a cada uma delas.

Quando se escrever a história deste momento da humanidade - único, dramático e transformador - brilhará com força a chama da imprensa de qualidade. Muitos jornalistas estão dedicando a vida e correndo riscos para que você, amigo leitor, possa resguardar sua família com a força da informação correta e bem apurada. Que Deus proteja todos nós!

JORNALISTA. E-MAIL: DIFRANCO@ISE.ORG.BR

Tudo o que sabemos sobre:
epidemiacoronavírus

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.