Crime novo e velho clima

O dia a dia da sociedade de consumo faz do planeta uma fogueira invisível

Flávio Tavares, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2021 | 03h00

Uma das características do raciocínio é comparar situações e, por exemplo, indagar por que o Brasil é o que é como país e os Estados Unidos são o que são como potência mundial. Digo potência sem que isso signifique ter poder militar ou riqueza financeira, mas – sim – estar à frente no domínio da ciência e no entendimento da vida no planeta.

Pertenço à geração que, antes de tudo, via os Estados Unidos como núcleo de um voraz imperialismo mercantil que nos condenava a ser pobres, dependentes e dominados. Não percebíamos nem entendíamos que, muito mais do que eles, os culpados também éramos nós e nosso marginalismo, ou subdesenvolvimento, provinha da inércia ou incompreensão do dinamismo da História.

Somos medrosos. Não nos atrevemos a criar ou pesquisar e nos contentamos em copiar o que outros desenvolvem ou criam. Falta-nos o chamado “espírito científico”, que até tem muito de aventura. Não entendemos, porém, que a aventura é, também, um campo de provas que abre caminhos para grandes descobrimentos.

Ou não foi assim, numa aventura, que os navegadores do século 16 chegaram aos novos mundos, descobrindo que a Terra era mais vasta?

Surge agora um novo ciclo de descobrimentos. As “mudanças climáticas” são um novo mundo à nossa frente, mas, em vez de ampliar terras e mares, levam à destruição do planeta. O dia a dia da sociedade de consumo (com a vida se transformando num moto-contínuo de amontoar bens e facilidades, como se isso fosse ilusória “felicidade”) faz do planeta uma imensa fogueira invisível, elevando a temperatura terrestre. A poluição virou carnaval e nem as advertências da ciência e da ONU mudam nosso comportamento. As grandes corporações que guiam a sociedade de consumo estão mais interessadas em perigosas bugigangas do que em preservar o clima e o planeta em si.

Em 1992, no Rio de Janeiro, a cúpula do meio ambiente elaborou a Agenda 21, mas as lúgubres previsões e os alertas sobre o novo século não mudaram nosso comportamento. As evidências (e também as advertências) sobre a destruição do planeta cresceram, levando o papa Francisco a elaborar a encíclica Laudato Si’, numa crítica direta e contundente ao ultrajante e suicida desperdício da sociedade de consumo. Antes disso, já a Igreja Católica havia apontado a degradação do meio ambiente como “um pecado social”.

Todo dia, porém, utilizamos cada vez mais combustíveis fósseis, como petróleo e carvão mineral, numa alienação absurda que desdenha os enormes avanços em torno de fontes de energia limpas, como a eólica e a solar. As pesquisas com o uso das ondas oceânicas na geração de energia foram até mesmo relegadas a plano inferior.

Em junho de 2017, o desleixo enveredou rumo ao crime quando Donald Trump retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris, que estabelecia metas para evitar a tragédia do aumento da temperatura do planeta em 2 graus Celsius.

Com a eleição de Joe Biden, no entanto, os Estados Unidos se libertaram do atraso a que haviam sido condenados nos anos de Trump. Pela primeira vez no mundo, a crise do clima passou a ser tratada como assunto autônomo e John Kerry (que, no governo Obama, firmou o Acordo de Paris em nome dos EUA) assumiu funções de ministro extraordinário para o clima.

Iniciava-se assim, de fato, uma “nova era”, mais ampla até que o New Deal socializante de Franklin Roosevelt, que nos anos 1930 se sobrepôs à crise mundial e reergueu os Estados Unidos. Sem temor, Biden foi além da promessa da campanha eleitoral de voltar ao Acordo de Paris.

Saltam aí as diferenças. No Brasil, na campanha eleitoral de 2018, nenhum candidato presidencial se interessou pelo meio ambiente e pela preservação do planeta. Todos eles desconheceram o tema fundamental do século 21, que jamais foi sequer mencionado nos debates. No auge da propaganda do segundo turno pela TV, Haddad prometia reduzir o preço do botijão de gás de cozinha e os dedos de Bolsonaro incitavam ao ódio, imitando um revólver para “matar a violência”.

Agora a covid-19 nos afogou. A chikungunya reapareceu em São Paulo e pode ser quase tão devastadora quanto a pandemia, mas já não nos interessamos em eliminar o Aedes aegypti, vetor da doença.

A tardia e confusa campanha de vacinação do governo federal facilitou a propagação da covid-19 e agora a peste nos atordoa e só pensamos nela e no crescente número de mortes. Nesta barafunda, perdemos até a visão do terror maior, a crise do clima.

Velho como a humanidade, o clima é, hoje, um crime novo que envolve o mundo inteiro, até porque, no Brasil atual, o governo nos relega ao abandono. E, assim, outra vez passamos a submissos e dependentes. Por sorte, lá na Casa Branca temos agora Joe Biden, ou o exemplo do poder do seu governo, que ele sintetizou no recente relato ao Congresso, ao sustentar que os Estados Unidos devem transmitir ao mundo “o poder do nosso exemplo, não o exemplo do nosso poder”.


JORNALISTA E ESCRITOR, PRÊMIO JABUTI DE LITERATURA 2000 E 2005, PRÊMIO APCA 2004, É PROFESSOR APOSENTADO DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

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