Cuidado, presidente

Abra os olhos. Antes que seja tarde para evitar o que por ora parece ser longínquo

Fernando Henrique Cardoso, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2021 | 23h55

Tentei escapar, mas é quase inevitável falar sobre a comissão parlamentar de inquérito (CPI) do Senado relativa à pandemia e os fatos que levam a ela. Não gosto de personalizar e menos ainda, por motivos óbvios, quando se trata do presidente da República. Tratarei de não o fazer, embora seja difícil.

O caso parecia banal: uma tentativa de gastar dinheiro público, sem critério. Mas não era. Não só porque há certa irritação no País com relação ao desvio de finalidades no uso do dinheiro dos contribuintes, mas também porque, no caso, se trata de um governo que se jacta de ser cuidadoso nessa matéria (obrigação de qualquer presidente que se preze). E também porque os fatos em tela se dão no âmbito de uma pasta, a da Saúde, diretamente ligada à luta contra a pandemia, a qual torna a vida de cada um de nós arriscada. Portanto, o olhar da opinião pública fica ainda mais atento para tudo o que se passa em seu âmbito e no dos setores do governo a ele ligados.

Não quero dizer que se deva generalizar o que aconteceu, nem deixar de reconhecer o efeito, louvável, de o governo prestar atenção ao que acontece com os fundos públicos. Não deveria agora desviar o olhar. E não se trata somente do presidente, mas do conjunto da administração: o chefe dela paga o preço de erros dos quais nem sequer toma conhecimento. Quem está na chuva se molha, como eu me molhei, mesmo não sendo responsável direto por alguns erros...

Por isso mesmo, pasma ver quanta incompetência e quanto descaso na administração de coisas tão importantes como sucede com recursos do Ministério da Saúde. Pior, chega a assustar o pouco-caso inicial da autoridade máxima com os eventos que se desenrolam naquela pasta. A alegação de desconhecimento pode até ser verdadeira (recordo-me do caso do apagão, quando eu, entusiasmado com a construção de novas hidrelétricas, não me dei conta de outros problemas de distribuição de energia que já atormentavam o povo e terminaram por “balançar o coreto”).

Sei, por ter ocupado as funções que ocupei, que o responsável maior não pode saber o que se passa em cada setor da administração, nem a ele se pode atribuir “culpa” por desvio de recursos que não maneja diretamente. Mas, uma vez sabidos os casos, há que mostrar irritação e há que jogar ao mar os “culpados”, pois é forte a reação que eles provocam em quem deles não participou e é sua vítima: o eleitorado. Foi nisso, principalmente, que falhou o presidente. Deu sensação à opinião pública de que não avaliou corretamente o tipo de falha que havia, que era grave.

Fica-se sempre com a sensação: se existem desvios na Saúde, por que não em outros casos? E é por aí que os governos se podem perder. A memória coletiva forma-se assim nessa matéria. O povo já pensa, em geral, que “los de arriba” de outra coisa não cuidam senão dos seus interesses pessoais ou dos de seus familiares e amigos. E logo agora, quando temos um governo no qual os filhos, embora alguns eleitos, têm tanta presença. O fato só parece confirmar a crença antecipada do povo.

Não há, portanto, como considerar mero equívoco a pouca atenção inicial dada pelos altos círculos políticos aos acontecimentos. A mídia estará sempre pronta – é seu dever – para fazê-los recordar, seja insistindo em matéria já sabida, seja indicando caminhos que podem levar a outros tropeços.

Não torço por impeachments, nem por novos desvios de dinheiro público, mesmo que nos levem a isso. Já votei por um impeachment e acompanhei outro, quando não era mais senador. O custo para a memória democrática é sempre elevado. Mas... que fazer? Se o próprio presidente não cuidar de inibir os atos capazes de favorecerem a ação do Congresso nesse sentido, ela acaba ocorrendo.

Ainda há tempo para consertar o rumo. Mas, com a proximidade das eleições, o jogo político voltará a pressionar. Não adianta jogar a culpa na mídia ou “nos políticos”: trata-se de um sinal de alerta a ser devidamente compreendido pelos que exercem o poder. E o poder é cruel. Principalmente quando alguém é dele retirado pelo voto dos congressistas, e não pelo voto do povo.

Por tudo isso, presidente, atue enquanto há tempo. Um pouco mais que ele transcorra e já será tarde. Quando acontecer o inevitável, se não houver reação prática de sua parte, de pouco adiantarão os queixumes. Ação já, é o que o País espera.

Quem elege o presidente é o povo. Este, às vezes, erra. Paciência. É melhor aguentar o quanto possível do que tentar usar o bisturi do Congresso para “acelerar” a História. Não digo isto “da boca para fora”. Resisti quanto pude a impeachments de presidentes, até que... chega a hora. Estamos longe dela e espero que não chegue.

Mas reafirmo: abra os olhos, presidente. Querendo ou não, se for tarde, as lágrimas podem não ser de crocodilo, mas não serão suficientes para evitar o que por ora parece ser longínquo.


SOCIÓLOGO, FOI PRESIDENTE DA REPÚBLICA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.