Cultura bipolar

A vida social alicerçada no respeito e no senso de colaboração e justiça faz bem a todos

Dom Odilo P. Scherer, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2020 | 03h00

Vivemos tempos marcados pela exacerbação ideológica, em que se confundem facilmente valores com posições ideológicas e partidárias. A polarização ideológica cria miopias e até cegueiras, que não deixam mais ver as coisas como elas são e tudo é passado pelo filtro da ideologia assumida. Toda realidade é, então, assimilada a partir do preconceito. E o enquadramento ideológico se sobrepõe à verdade.

Falar de direitos humanos, fraternidade, solidariedade e justiça social causa arrepios aos que tomam posição num dos polos. E logo aparece o rótulo: “É coisa de comunista”. Assumir a defesa da vida humana, ser contra o aborto e professar valores morais e religiosos, isso é tachado pelo outro polo ideológico como “coisa da direita, de ultraconservadores”. 

Será que a realidade é tão simples assim, em que são possíveis e devem ser aceitas como verdadeiras apenas duas interpretações extremas e opostas entre si? Posições, ademais, sem base na própria realidade das coisas, mas fundadas em posições ideológicas ou partidárias previamente assumidas? Parece-me que isso seria o verdadeiro fundamentalismo, no qual a complexidade das coisas deveria necessariamente caber em duas caixinhas apertadas.

Os extremismos levam à cegueira ou, pelo menos, à miopia, à deturpação da realidade. Fundamentalismos são fechados e avessos ao diálogo, preferem a luta contra quem é diferente, pensa diversamente e tem escolhas partidárias ou convicções religiosas distintas das suas. Daí vem a polarização sectária, fonte de agressões e violências de todo tipo, até mesmo mediante o recurso à difamação, à calúnia e à violência física. As fake news e agressões contra pessoas pelas mídias sociais, geralmente de rosto encoberto ou com perfil falso, potencializam aquilo que em outros tempos eram fofocas de esquina ou calúnias a meia voz e se mantinha circunscrito a um ambiente restrito.

Interpreto esses fenômenos como sinais de uma profunda crise do pensamento filosófico, a permear a cultura do nosso tempo. O esvaziamento da filosofia do ser levou à desconfiança quanto à capacidade humana de conhecer a verdade e de afirmar algo que vá além do objetivável e verificável mediante métodos científicos. Faz bem a ciência em seguir avante com seu método próprio, rigorosamente aplicado. Mas nem tudo é passível de ser enquadrado nesse método. A verdade sobre o homem e seus anseios mais profundos, sobre os ditames da ética e da moral, o discurso sobre o mundo e Deus, enfim, a verdade propriamente filosófica, tudo foi atirado ao mundo das incertezas e da opinião subjetiva.

É verdade o que cada um diz ou sente. Cada um tem a sua verdade e, assim, acaba-se não tendo mais nenhuma verdade. Onde tudo é verdade, nada é verdade.

A verdade dos nossos tempos tornou-se líquida, vaporosa, nebulosa e inalcançável, deixando um vazio enorme e uma incerteza angustiante. Isso acaba abrindo espaços para discursos fundamentalistas, sustentados por gurus iluminados a prometer sua verdade segura e salvadora, geralmente embasada no antagonismo e no ódio. A ela se adere cegamente, sem admitir espaço para o contraditório, o diálogo e a acolhida de outras luzes para iluminar a compreensão das coisas e das pessoas. 

Esse estado de espírito bipolar também torna enferma a cultura e a convivência social, favorecendo o surgimento de supostos salvadores da pátria, que pregam fundamentalismos sectários e requerem adesão irrestrita às suas ideias e posições extremadas, demonizando quem pensa diversamente, ou tem posições contrárias às suas. Tempos de grandes incertezas e de insegurança social, econômica e cultural, ao longo da História, foram ocasiões favoráveis para o surgimento de caudilhos oportunistas e regimes totalitários, que produziram enormes tragédias.

Isso tem solução? Certamente, existem soluções. A primeira coisa a fazer é a tomada de consciência dessa situação e fazer uma avaliação crítica sobre o que está acontecendo. A tentação a se deixar levar pela polarização fechada deve ser vencida pela abertura sincera e corajosa ao diálogo e à atitude da escuta. Ninguém precisa abdicar imediatamente das próprias convicções para aceitar as do outro. Trata-se de ouvir e de perceber as razões do outro, do qual podemos sempre aprender algo. Ninguém, a não ser Deus, é senhor absoluto da verdade. De maneira individual, nossa percepção da verdade é sempre parcial e podemos aprender algo de quem pensa diversamente de nós. Mesmo que devamos discordar inteiramente do outro, não estamos dispensados de tratá-lo com respeito e consideração, como nós mesmos gostaríamos de ser tratados por quem discorda de nós.

A atitude dialogante e o espírito desarmado também devem permear as relações sociais e políticas. Os extremismos raivosos e as manifestações de ódio envenenam e tornam sufocante o convívio social. No diálogo sereno, ao contrário, todos têm a ganhar. A vida social alicerçada no respeito às pessoas e no senso de colaboração e justiça faz bem a todos.

CARDEAL-ARCEBISPO DE SÃO PAULO

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