Davos – a criança (não) estava lá

Medidas voltadas para a 1.ª infância são essenciais para preparar as futuras forças de trabalho

Mariana Luz, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2020 | 03h00

A pauta ambiental dominou a agenda da 50.ª edição do Fórum Econômico Mundial, encerrado no último dia 24, em Davos. Foi uma longa jornada desde que o assunto foi introduzido no Fórum até que viesse para o primeiro plano. É natural que seja assim. Os grandes problemas que assolam o mundo não se alteram de um ano para o outro, nem mesmo em décadas.

Seria difícil contestar a importância de quaisquer dos assuntos tratados pelo Fórum. Mas é preciso abrir espaço para um tema que não foi devidamente valorizado: a criança. Meu objetivo este ano em Davos foi chamar a atenção para esse assunto, que, assim como foi com o clima no passado, está presente na maioria dos painéis, mas de forma ainda periférica.

Isso tem de mudar. A qualidade do ar, os refugiados, o futuro do trabalho, não há um único recorte possível sobre desenvolvimento sustentável que prescinda da necessidade de cuidarmos da primeira infância. Essa é a causa raiz de tantas dessas e de outras causas.

Em 2000 James Heckman recebeu o Prêmio Nobel de Economia por comprovar que investimentos feitos para assegurar um ambiente saudável para a criança, do ponto de vista físico e emocional, desde o nascimento até os 5 anos de idade, evitaria gastos sociais e acarretaria ganhos econômicos ao longo de toda a vida de cada indivíduo. Cada dólar alocado nesses cuidados proporciona um retorno anual de 13%, mostrou Heckman.

Isso acontece porque nos primeiros três anos de vida a arquitetura do cérebro está em construção, fornecendo o alicerce para a evolução das futuras habilidades da vida adulta, como resolução de problemas, planejamento, criatividade e pensamento flexível. Mas o ambiente e as experiências interferem nessa construção. A exposição contínua a diferentes tipos de adversidades compromete o desenvolvimento pleno do cérebro, o que impactará o indivíduo ao longo de toda a vida.

Isso quer dizer que uma criança vivendo entre refugiados, ou em situação de pobreza extrema, ou vítima de violência tem seu desenvolvimento irremediavelmente comprometido? Não, se usarmos o conhecimento e os instrumentos que já possuímos para criar estratégias de cuidados e proteção à criança e à família.

É essencial que discutamos globalmente estratégias para proteger o desenvolvimento saudável dessas crianças nos desafios que nossa sociedade enfrenta, desde as diferentes situações de vulnerabilidade extrema, como ambientes de guerra e miséria, até os dramas cotidianos que assolam qualquer sociedade, por mais desenvolvida que seja: a instabilidade emocional causada pelo desemprego na família; a insegurança urbana, que cerceia o acesso a um cotidiano de estímulos; a violência doméstica.

Num mundo complexo, turbulento e incerto, existem muitas prioridades. Diante de orçamentos limitados, os gestores precisam fazer escolhas sobre a quais políticas e programas dar prioridade. Um foco em emergências imediatas pode parecer mais atraente. No entanto, a realidade é que investir nos primeiros anos de uma criança poderia realmente prevenir muitas dessas mesmas crises.

Em todo o mundo os formuladores de políticas são, cada vez mais, obrigados a fazer mais com menos. A chave é como oferecer intervenções que tenham baixo custo inicial, produzam retornos rápidos e garantam impacto duradouro. A provisão de serviços de atendimento infantil de alta qualidade faz exatamente isso. Eles não só produzem cidadãos criativos e capazes, mas também interrompem os ciclos de pobreza entre gerações e contribuem para o enfrentamento dos grandes desafios globais.

O valor do desenvolvimento da primeira infância como motor da quarta revolução industrial está claro. Em Davos, os participantes se concentraram, como sempre, no que é necessário para se prepararem para um mundo dominado pela tecnologia, pela automação e por trabalhos que ainda não existem. As medidas voltadas para a primeira infância são essenciais para preparar as futuras forças de trabalho, pois é nessa etapa que se define a flexibilidade conflitiva – ferramenta que permitirá a adaptação e o aperfeiçoamento de diferentes habilidades. Investir em ter capital humano com bases sólidas e que se possa ajustar às dinâmicas de um mercado imprevisível é nossa única esperança de garantir o futuro do trabalho.

Discutimos esses temas no encontro entre os integrantes do Young Global Leaders, ao longo do Fórum. Nosso norte foi a busca de alternativas que contribuam para os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), especialmente as metas relacionadas às crianças. Nossa batalha agora é construir caminhos para que o cuidado com a primeira infância vá para o centro do debate. Assim como ocorreu merecidamente com o clima, a criança deve passar para o primeiro plano de toda discussão sobre desenvolvimento sustentável. Dar prioridade à criança é mais do que um interesse ou responsabilidade da sociedade, é o maior e mais eficiente legado que podemos construir hoje.

CEO DA FUNDAÇÃO MARIA CECILIA SOUTO VIDIGAL, É UMA JOVEM LÍDER GLOBAL INDICADA PELO FÓRUM ECONÔMICO MUNDIAL. HÁ 15 ANOS, A ORGANIZAÇÃO INVESTE NUMA REDE DE JOVENS QUE ATUA AO REDOR DO MUNDO BUSCANDO SOLUÇÕES PARA DESAFIOS GLOBAIS

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