Davos propõe capitalismo ‘stakeholder’, mas pode não ser a solução completa

Puxar para a esquerda ou para a direita não funciona mais, a China é capitalista e socialista

Thomas Eckschmidt, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2020 | 03h00

A mensagem do Fórum Econômico Mundial deste ano, em Davos, não é novidade, mas o seu jargão é: stakeholder capitalism! Mas o que será isso?

Stakeholder é um conceito que identifica as partes interessadas e afetadas por um negócio. O capitalismo de stakeholders contrapõe-se à linha defendida por Milton Friedman, Nobel de Economia de 1976, de foco exclusivo nos acionistas. A ideia de um capitalismo voltado para o stakeholder foi apresentada de forma estruturada pelo acadêmico Ed Freeman no início deste século.

Apesar de não ser nova, ela é novidade nos meios econômicos mainstream, como Davos. Vários movimentos emergiram com força no início deste século repensando o capitalismo. Considerar os demais stakeholders na geração de resultado é algo proposto no capitalismo consciente. O Conscious Capitalism Field Guide (Harvard) destaca a “integração dos stakeholders” como um dos princípios dessa mudança assim como o shared value (valor compartilhado), de Michael Porter. A economia circular repensa o capitalismo a ponto de incluir o stakeholder meio ambiente. Temos também o Sistema B, que teve a Natura como a maior empresa de capital aberto a se certificar nessa ideia de empresas melhores para o mundo, além de uma dezena de outros movimentos.

Essa ideia de capitalismo consciente oficialmente nasceu em 2007 como movimento, mas podemos dizer que ele existe desde que o ser humano começou a empreender. O ato de empreender é um ato de servir, de buscar melhorar algo. Melhorar um serviço, um produto, a nossa vida ou, para os mais altruístas, melhorar o mundo. O que aconteceu, que essa intenção se desvirtuou para focar apenas em resultado financeiro? O ego e o resultado de curto prazo são os maiores vilões dessa perda de rumo.

Reconhecendo que a mudança é inevitável, a iniciativa privada está tomando a linha de frente.

l Em 2017, o CEO da BlackRock, Larry Fink, que administra mais de US$ 6 trilhões em ativos, em sua carta de final de ano aos CEOs, destacou a necessidade das empresas terem planos de longo prazo.

l Em 2018, o livro Conscious Capitalism Field Guide destacou que as empresas que aplicam os cinco fundamentos do capitalismo consciente geram resultado financeiro sete vezes superior à média de mercado, medido pelo índice S&P 500 (em prazos de 20 anos).

l Em 2019, 183 CEOs das maiores empresas dos EUA assinaram manifesto propondo que as empresas foquem na geração de resultado para todos os stakeholders, em vez do lucro para os acionistas.

Recentemente, junto com as mensagens de Davos sobre o stakeholder capitalism, Larry Fink manifestou-se dizendo que empresas devem regenerar, e não só gerar resultado.

Todas essas novas propostas de capitalismo propõem gerar valor de forma sistêmica e com maior ou menor intensidade contemplam os fundamentos do capitalismo consciente:

l Toda empresa deve ter uma causa, deve resolver um problema, deve ter seu propósito claro, e o lucro é consequência do valor gerado para o ecossistema.

l Toda empresa deve ter uma liderança que serve a essa causa para expandir o propósito, e não expandir o saldo de sua conta corrente e de seus líderes; deve ser um líder ecocêntrico, em vez de egocêntrico.

l Toda empresa deve reconhecer a interdependência, nenhuma organização funciona (ainda) sem pessoas, funcionários, clientes, fornecedores, e assim por diante. O ecossistema precisa prosperar junto.

l Toda empresa precisa de uma cultura responsável que alavanque a causa da organização e perpetue a intenção de melhorar o mundo para perenizar a intenção dos fundadores.

l E toda empresa precisa gerar valor (k), além do valor financeiro. Valores sociais, emocionais, ambientais, e assim por diante, são como energia potencial que se converte em valor financeiro após as crises, e com certeza uma hora vem outra crise.

Então, o capitalismo de stakeholders é mais uma ideia que talvez sozinha não fique de pé. É mais uma ideia sem mecanismos de implementação e prática. Porém é uma ideia importante nesse processo de trazer uma mudança no sistema operacional do capitalismo, que sempre foi extrativista, para um modelo mais cooperativo e colaborativo.

Vivemos uma era de abundância e mais líderes estão tendo seus momentos de epifania, um “Click” (C-causa, l-liderança, i-interdependência, c-cultura e k-valor), e começando a jornada de realinhamento de seu negócio como ferramenta de melhora para o mundo e melhorar suas chances de sobrevivência nos próximos dez ou 20 anos.

É preciso reconhecer que o capitalismo foi excelente para produzir riqueza, mas falhou na distribuição dela; o socialismo foi excelente na distribuição de riqueza, mas falhou na produção dela. Os dois sistemas são peças do próximo sistema. Puxar para a esquerda ou para a direita não funciona mais, a China é capitalista e socialista ao mesmo tempo.

Você está convencido de que precisa mudar? Você está preparado para essa mudança? Você sabe por onde começar? Ativador de Negócios Consciente é um guia gratuito para os interessados nessa jornada (www.CBActivator.cc).

*COAUTOR DO LIVRO ‘CONSCIOUS CAPITALISM FIELD GUIDE’ (HARVARD)

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