De alma lavada

Brasileiros escolheram um caminho que valoriza a democracia, a justiça e o mérito

Fabio de Biazzi, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2018 | 03h00

O ano de 2018 caminha para seu encerramento com ao menos uma verdade inequívoca: nós, brasileiros, nos demos uma nova chance. Uma chance que foi conquistada não apenas neste ano, mas ao longo dos últimos – com crescente participação, reflexão e intensos debates –, e sacramentada nos dois turnos desta eleição. Uma chance de transformar positivamente as bases de funcionamento do País e de pôr novamente em marcha uma sociedade lastreada em sólidos princípios democráticos, na lisura, na integridade, na justiça e no mérito.

Antes de darmos ouvidos aos pessimistas, às viúvas do antigo regime ou aos incontáveis “analistas” e “intelectuais” que se apressam a vaticinar que as coisas não caminharão bem daqui para a frente, devemos relembrar como esses valores foram impiedosamente solapados ao longo de uma década e meia. Precisamos resgatar também quais as três características fundamentais que explicitam a essência daquilo que escolhemos abandonar. Para isso é preciso recuperar alguns fatos por meio de uma breve linha do tempo, desde o começo deste século até os dias atuais.

No início da era que agora se encerra, a empolgação e o otimismo eram tão grandes que pouquíssimos tinham coragem para evidenciar as óbvias lacunas de conhecimento e capacidades do governo formado em 2002, tendo à sua frente alguém que desdenhava da educação formal e da preparação intelectual. Uma das únicas vozes destoantes naquele momento foi a do falecido jornalista Mauro Chaves, que, nesta mesma página, escreveu uma série de quatro textos sob o título Exigir preparo não é preconceito. À falta de visão e preparo básico do então presidente, naquele momento, somou-se uma evidente inépcia de se cercar de pessoas capazes, salvas raras exceções. Também se iniciou uma tenebrosa e exponencial ocupação de cargos na administração pública, comissionados e em empresas estatais, por apaniguados e sindicalistas igualmente despreparados. 

Assim, a primeira característica da tríade macabra esteve desde sempre escancarada: a incompetência.

Em 2005 explodia o mensalão, expondo como nunca antes as manobras e intenções pouco republicanas dos donos do poder. A compra de apoio de modo a evitar qualquer alternância e permitir a perpetuação do modelo se tornou claríssima. Naquele momento também já se exibia por completo o alinhamento com os países latino-americanos do Foro de São Paulo e a aproximação de ditaduras africanas. As táticas gramscianas de aparelhamento de espaços para além da própria política, na cultura – por meio da destinação dirigida das verbas do MEC, na academia –, alavancadas pela criação de 19 universidades federais entre 2002 e 2014, e a tentativa de criação de uma milícia de suporte ao regime, por intermédio do MST, denotavam cristalinamente o viés anacrônico e dogmático em direção aos ditames socialistas, tendo como referências principais a Cuba dos Castros e a Venezuela de Chávez. Com a soma dessas iniciativas, a segunda característica da tríade se mostrava sem disfarces: a ideologia.

Dois eventos de março de 2014 foram cruciais para que viesse à tona o último pilar do modelo que escolhemos encerrar. Primeiro, a divulgação por Andreza Matais, jornalista deste Estadão, da compra fraudulenta da refinaria de Pasadena e, segundo, a deflagração da Operação Lava Jato pela Polícia Federal e a criação de uma equipe dedicada no Ministério Público Federal em Curitiba. Uma avalanche de fatos, dados, colaborações premiadas, denúncias, condenações e prisões se sucedeu de maneira assustadora, expondo, como sintetizou J. R. Guzzo, “o mais alucinante sistema de corrupção jamais visto na administração pública mundial”. Após quatro anos de Lava Jato, apenas os ingênuos ou os mal-intencionados ainda se recusam a enxergar a terceira característica da tríade que completa a essência dessa tenebrosa era que parece termos ultrapassado: a corrupção.

Chegamos, então, a 2018 numa encruzilhada, com o País sob risco de falência moral: quais as regras que iríamos seguir dali para a frente? O que valeria e o que não valeria em termos de comportamentos sociais? Estaríamos conformados a viver sob a tríade maligna da incompetência, da ideologia e da corrupção? Quais seriam dali para a frente nossa essência e nosso caráter? O filósofo grego Heráclito escreveu há 2.500 anos que “o caráter de um homem é seu destino”. É razoável acreditar que o mesmo se aplica ao conjunto de homens vivendo em sociedade. O caráter de todo um país se apresenta e toma forma no comportamento de seus cidadãos no dia a dia, em casa, no trabalho e em suas outras relações sociais, mas é especialmente moldado pelas atitudes de seus líderes. Se estes podem mentir, corromper, alimentar ditaduras mundo afora, questionar as leis e a ordem, formar quadrilhas, enganar, roubar, desperdiçar recursos e jogar fora o futuro da sociedade em troca de poder, benefícios e privilégios pessoais – desrespeitando todos os princípios éticos conhecidos –, cedo ou tarde todos percebem que apenas esse é o jogo e quais são suas regras.

Felizmente, no pleito de outubro de 2018 não mais colocamos em mãos sabidamente incompetentes, corruptas e ideologicamente perversas o funcionamento das instituições do País, e isso, por si só, é motivo de júbilo, orgulho e renovada autoestima. Apesar das incertezas quanto ao sucesso do governo que se inicia em 2019, o que os brasileiros escolheram – e certamente cobrarão que os eleitos assim procedam – foi um caminho que valoriza sobremaneira os princípios democráticos, a justiça e o mérito. Tomara que saibamos aproveitar esta nova chance.

*ENGENHEIRO DE PRODUÇÃO, MESTRE E DOUTOR EM ENGENHARIA PELA ESCOLA POLITÉCNICA DA USP, CONSELHEIRO, CONSULTOR, PROFESSOR DO INSPER E AUTOR DO LIVRO ‘LIÇÕES ESSENCIAIS SOBRE LIDERANÇA E COMPORTAMENTO ORGANIZACIONAL’

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