De como a família só prejudica

Presença de parentes nas proximidades do governo é sempre desastrosa

*ALOÍSIO DE TOLEDO CESAR, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2019 | 03h00

Desde antes das eleições presidenciais os brasileiros têm sido compelidos a engolir a presença de filhos de Jair Bolsonaro como figuras de influência sobre o pai e com capacidade inigualável de fazer expressivos estragos, capazes, algumas vezes, de influir até na alta da bolsa de valores e na queda do dólar. Pareceu de início que seria algo passageiro, vinculado à campanha eleitoral ou apenas aos primeiros dias de governo, mas, pelo jeito, a impressão é de que nada mudará.

Na verdade, muitos dos que escolheram Bolsonaro nas urnas com a intenção de livrar o País do PT chegaram à curiosa conclusão de que votaram em um, mas elegeram quatro.

Os estragos feitos pelos filhos do presidente até o momento têm sido muito expressivos e levaram a maioria das pessoas à suposição de que o pai acabaria por afastá-los das questões de governo, sem que isso, naturalmente, afetasse o afeto familiar.

A família gosta de se comunicar com a população pelas redes sociais, mas de um jeito que as palavras ali atribuídas ao pai sugerem sempre a influência dos filhos, especialmente do que lhe parece mais próximo, o “Carluxo”. Esse filho, pelo jeito, gosta mesmo de fazer estragos na cotação do dólar e na bolsa de valores, além de comprar briga com pessoas da cúpula, como o vice-presidente da República, por exemplo. É muito ruim para o País que o presidente não encontre uma forma mais apropriada de fazer que os seus filhos não se envolvam nas questões de governo.

Comunicar-se pelas redes sociais converteu-se no mundo dito moderno numa espécie de “cachaça eletrônica”, que diariamente absorve e exige a atenção de milhões de pessoas. Depois da “escravidão” que cada um de nós passou a experimentar em relação ao aparelho celular, sem nenhuma dúvida a compulsão de ficar o tempo todo conferindo o que se passa nas redes sociais traduz a ideia de um novo vício, do qual se torna difícil escapar.

Os Bolsonaros demonstram haver entrado de cabeça nesse mundo eletrônico, mesmo porque foi a forma por eles encontrada para influir na eleição presidencial. Mas as trapalhadas dos filhos já levaram diversas vezes outras pessoas da equipe governamental, principalmente os generais, a conversar com o presidente sobre esse assunto. Seria muito bom para o País que ele refletisse melhor e limitasse o convívio à afetividade maravilhosa que sempre existirá entre pais e filhos, sem influências no governo.

A presença de familiares nas proximidades do governo é sempre desastrosa. Veja-se, por exemplo, que o presidente Getúlio Vargas, após 15 anos da ditadura que implantara no País, pretendeu dar novo golpe para continuar no poder por muitos anos mais. Mas cometeu a leviandade de nomear seu irmão Benjamin para o cargo de comandante da polícia do Distrito Federal.

Foi a gota d’água para o grupo de generais, brigadeiros e almirantes que traçavam estratégia destinada a afastar definitivamente o ditador do poder. Benjamin Vargas, mais conhecido pelo apelido de Bejo, influía no governo mesmo não tendo cargo público, circunstância que causava descontentamentos de toda ordem.

Enfim, a nomeação de Bejo para o importante cargo de chefe de polícia fez transbordar as desconfianças dos militares quanto às intenções continuístas do governo. Com isso, num momento em que a convivência de Getúlio com os militares já estava interrompida, o general Góes Monteiro decidiu agir. Este não conseguia disfarçar a ambição de ser presidente da República e pretendeu ir ao palácio do governo dizer pessoalmente a Getúlio que estava afastado do cargo e não adiantava tentar resistir, pois os tanques de guerra já estavam ali na rua.

Os outros generais golpistas não deixaram que ele fosse, pela fama de cabeça quente. Por isso restou a Cordeiro de Farias a incumbência de dar a notícia a Getúlio. Dois dias depois o ditador, já deposto, e um sobrinho seguiram para São Borja (RS), em avião da FAB, enquanto a família permanecia no Rio de Janeiro. Era o dia 1.º de novembro de 1945.

Relata-se que, durante o voo, Getúlio disse a seu sobrinho Serafim Dornelles: “Deves ter ouvido dizer que a política se assemelha a um jogo de xadrez. Indiscutivelmente, em alguns pontos se assemelham. Por exemplo, eu sou uma pedra que foi movida da posição que ocupava. E eles pensam que vou permanecer onde me colocaram. É o grande erro deles. Não sabem que vamos começar um novo jogo – e com todas as pedras de volta ao tabuleiro” (texto de Lira Neto no livro Getúlio).

Outro ponto que merece atenção na conduta do presidente Jair Bolsonaro, além desses embaraços causados pelos filhos, é a sua compulsão a falar sem melhor refletir, como se fosse um cidadão comum. Dias atrás, embora dissesse que se tratava só de uma brincadeira, sugeriu que o presidente do Banco do Brasil reduzisse os juros. Em consequência, o valor das ações da instituição caiu, provocando um prejuízo que poderia ser evitado.

O presidente da República, quando fala, é o País que está falando por sua boca – daí a necessidade de sopesar bem as palavras e meditar sobre as inevitáveis consequências. Os peixes são apanhados pela boca e os homens, pelas palavras.

Ele poderá também ser mais cauteloso com relação à imprensa, sem atacar diretamente esta ou aquela empresa ou seus jornalistas, porque as críticas externadas nos bastidores soam como pretensão de censura, algo inadmissível.

A liberdade de imprensa é uma conquista da humanidade, obtida após séculos de luta, e não deve de forma alguma ser criticada ou combatida. Até porque uma boa e madura crítica pode servir como alerta ao governante a respeito de algo que ele não está percebendo. Isso acontece com extrema frequência e faz avultar a importância da imprensa livre num país democrático.

*DESEMBARGADOR APOSENTADO DO TJSP, FOI SECRETÁRIO DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO. E-MAIL: ALOISIO.PARANA@GMAIL.COM

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