De volta às árvores!

Conservadores que pregam a filosofia natureba poderiam adotar esse slogan

*PEDRO CAVALCANTI, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2019 | 03h00

Mal começava a arrefecer o choque brutal da catástrofe de Mariana quando os tenebrosos acontecimentos de Brumadinho, com seus mais de 300 mortos, vieram enlutar ainda mais o noticiário. Resta saber - se é que algum dia se saberá - que peso atribuir à incompetência e à eventual covardia dos técnicos da empresa, comparadas à ganância voraz de seus administradores.

No longo prazo, no entanto, ficarão apenas como dois episódios - especialmente trágicos, é verdade -, mas nada definitivos na eterna luta entre os defensores do progresso tecnológico, com seus inegáveis e incontáveis benefícios, e os conservadores sempre temerosos de imprevisíveis e muitas vezes puramente imaginários desastres.

Barragens sempre estiveram e continuam a estar no centro das preocupações do País. Na época da construção de Itaipu, seus adversários do lado argentino apontavam ameaças apocalípticas, a começar pelo eventual rompimento da barragem. Qualquer acidente provocaria a inundação de províncias inteiras. Acrescentava-se que o rompimento também poderia ser provocado voluntariamente pelos militares brasileiros, de tal maneira que a existência de Itaipu equivaleria a uma bomba hídrica tão devastadora quanto um artefato nuclear. Isaac Rojas, um almirante aposentado, capitaneava a resistência a Itaipu em cerrada artilharia de artigos de jornal.

Felizmente, nada disso aconteceu e 35 anos depois de inaugurada Itaipu continua a prestar excelentes serviços a brasileiros, argentinos e paraguaios. A diferença óbvia das catastróficas recentes reside no fato de que Itaipu é uma barragem de concreto, ao contrário de barragens de terra construídas a montante de locais habitados, como Mariana e Brumadinho.

Isso é o que nos diz a lógica, aliada ao bom senso. Essas duas virtudes, no entanto, parecem fugir, espaventadas, toda vez que voltam à discussão temas ligados às vantagens e aos riscos do progresso tecnológico.

Ultimamente o que mais se discute são os riscos atribuídos aos alimentos transgênicos, assim chamados os organismos geneticamente modificados (OGM), que receberam um gene de outro ser vivo em seu DNA por meio de técnicas empregadas na biotecnologia. Para os que se guiam pelos pareceres da Organização Mundial da Saúde, incluídos os mais recentes: “Os OGM atualmente disponíveis no mercado internacional passaram por avaliações de segurança e não é provável que representem riscos para a saúde humana. Além disso, não foram demonstrados efeitos para a saúde resultantes do consumo desses alimentos na população em geral dos países em que foram aprovados”. Estudos do Instituto de Medicina e do Conselho Nacional de Pesquisa dos EUA seguem na mesma toada.

Por mais que pareceres científicos garantam a segurança dos transgênicos, nada parece abalar a desconfiança de vasta parcela da população, sobretudo a europeia, que se guia por critérios que lhe são próprios. Invocando o princípio da precaução, temem que qualquer novidade alimentar ou tecnológica de qualquer outra espécie venha a causar aumento de casos de câncer ou deformações teratológicas em bisnetos de consumidores imprudentes. Recentemente surgiu uma guerra contra alimentos que contêm glúten, que seriam perigosíssimos não só para portadores da doença celíaca, já há muito reconhecida pela medicina oficial, mas para a população em geral.

Como acontece tantas vezes, obras de ficção nos dão uma visão mais próxima da mentalidade das pessoas do que artigos científicos. Dois livros abordaram o assunto com graça especial: A Reforma da Natureza, de Monteiro Lobato, e The Evolution Man, do escritor britânico Roy Lewis. A ficção de Lobato começa no final da 2.ª Guerra Mundial, quando os líderes europeus convidam dona Benta, com sua sabedoria, e tia Nastácia, com seu bom senso, para ajudá-los a acertar uma conferência de paz que tornasse o mundo tão pacífico e feliz quanto o Sítio do Pica-pau Amarelo. Viajam todos os habitantes do sítio para a Europa, com exceção da boneca Emília, que vai aproveitar o fato de ficar sozinha para executar sua reforma da natureza. Borboletas azuis ficam tão fáceis de capturar como os besouros, moscas perdem as asas para serem logo liquidadas pelas formigas, as laranjas crescem nas árvores já descascadas. Essas transformações não ocorrem por engenharia genética, desconhecida na época, mas por mágica, tão antiga quanto a humanidade.

De volta da Europa, dona Bentas e tia Nastácia encontram, entre outras monstruosidades, o rinoceronte Quindim, habitante do sítio, com quatro pernas diferentes - uma de veado, outra de ganso, outra de jacaré, outra de pau. Dona Benta ordena a Emília que desfaça imediatamente todas as reformas, com o apoio entusiasta de tia Nastácia, que mal voltara ao sítio e recebera uma abóbora na cabeça, pois Emília julgara um absurdo jabuticabas tão pequeninas crescerem em árvores tão grandes, enquanto abóboras brotam rastejando pelo chão, e resolveu inverter o esquema.

Em The Evolution Man, de Roy Lewis, Ernest, o narrador, um homem pré-histórico, conta as aventuras de sua família, no Pleistoceno Médio, às voltas com experiências técnicas da época, como o domínio do fogo, as pontas das lanças endurecidas nas chamas, o arco, o cozimento dos alimentos, as tentativas de domesticar cães selvagens. Todas essas novidades causam entusiasmo, mas também temor, sobretudo temor do fogo, que pode escapar do controle. A família logo se divide entre progressistas e conservadores, divisão que no Pleistoceno, obviamente, nada tem que ver com noções de direita e esquerda.

O pensamento conservador é liderado por um parente do narrador, tio Anton, sempre nostálgico do passado, quando o homem vivia sem maiores preocupações como simples animal. Seu grito de guerra diante de qualquer novidade é bastante significativo: “Back to the trees!” (“De volta às árvores!”). Conservadores de hoje que pregam a filosofia natureba poderiam adotar esse slogan.

*JORNALISTA E ESCRITOR

E-MAIL: PRA@UOL.COM.BR

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