Delírios econômicos na Argentina

Já há quem fale em Argenzuela... Falta ao país vizinho um projeto de país sensato

Roberto Luis Troster*, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2019 | 03h00

Também chamados de desvarios, são crenças falsas baseadas em inferências incorretas sobre a realidade. Caracterizam-se por serem mantidos com convicção, dificilmente se alterarem, terem consistência interna lógica, não serem falseáveis e causarem prejuízos significativos a seus detentores e a terceiros. Variam em intensidade e complexidade e podem ser individuais ou coletivos.

Um exemplo individual é o delírio de perseguição, de quem se crê perseguido por outros que o querem prejudicar e interpreta a realidade com sinais do acossamento que sofre. Outro desvario é o de ciúme, o temor excessivo de uma infidelidade do parceiro, em que as consequência podem ser problemáticas. Há também os econômicos, que quase sempre são coletivos.

A economia, por sua natureza, é passível de inferências incorretas. O que é válido num contexto não vale em outros. A realidade é complexa e está em constante transformação, o que dá lugar a interpretações diferentes, que são defendidas com mais ou menos veemência.

O ponto é que algumas dessas representações em determinados momentos se transformam em delírios, quando começam a causar prejuízos significativos. Isso acontece quando os condutores da política econômica e os cidadãos que os apoiam adotam com convicção uma concepção nitidamente equivocada, mas insistem em persistir nela, apesar das evidências contrárias.

Um exemplo de paradigma econômico equivocado foi o da antiga União Soviética. As falhas tornaram-se tão evidentes que a sociedade demandou alterações. Apesar dos traumas da transição, o impacto da mudança foi positivo. Pode-se ilustrar o ponto também com o que aconteceu na China e na Alemanha Oriental. Na América Latina, a Colômbia e o Peru são exemplos por terem mudado o modelo e começado um ciclo de crescimento alto.

Um exemplo de paradigma econômico que virou um delírio para alguns é o que se autodenomina “desenvolvimentista”. Nesse modelo o protecionismo (substituição de importações), um Estado empresário e estímulos à demanda interna têm papel importante. Mas é inconsistente intertemporalmente se não for calibrado adequadamente. Impressiona favoravelmente num primeiro momento e provoca crises depois. O que está acontecendo na Venezuela ilustra o ponto.

Foi adotado na Argentina na virada dos anos 1950. Era o pós-guerra, em que os termos de troca eram muito proveitosos, as reservas internacionais estavam elevadas e o país atraía investimentos e imigrantes de todo o mundo. Vivia-se o segundo momento de grande esplendor na Argentina, semelhante ao que houvera por ocasião do centenário do país, em 1910.

A adoção do desenvolvimentismo foi popular no começo. O país gastou o que acumulara em reservas e se endividou. Uma porção pequena desses dispêndios foi meritória ao melhorar a inclusão social, mas a maior fatia foi desperdiçada em estatizações e investimentos com retornos econômicos e sociais baixos ou negativos. O protecionismo protegeu indústrias infantes no começo e industriais acomodados por décadas. A burocracia criou empregos públicos e ineficiências no setor privado.

Mais de meio século depois, seu apelo ainda é grande entre os argentinos. A memória dos ganhos sociais legítimos da época, associada a políticas inconsequentes, produziu um delírio econômico coletivo, o de que é possível aumentar o bem-estar da nação sem modernizar as instituições e com inconsistências intertemporais. Uma nova versão do modelo foi adotada a partir da crise de 2001-2002. Num primeiro momento, funcionou bem, mas se esgotou. 

De 2003 a 2015 o país cresceu e o governo foi popular, mas de forma inconsequente. O resultado das contas públicas era um superávit primário de 2,9% e virou um déficit de 3,5% do PIB. E o de transações correntes foi reduzido de um superávit de 5,8% para um déficit de 2,7% do PIB. Foi declarada moratória da dívida externa, com danos de reputação graves. O maior foi o aprisionamento da fragata Libertad, navio-símbolo da Marinha argentina, em Gana, por causa de dívidas. Uma humilhação!

No final de 2015, os vizinhos escolheram mudar. Maurício Macri foi eleito presidente com um discurso renovador. Tinha um currículo bom, como presidente do Boca Juniors foi campeão mundial e como prefeito havia sido bem avaliado. Era a nova esperança de uma Argentina esplendorosa. Fez mudanças importantes, conseguiu que o mundo voltasse a acreditar no país e ajustou a dinâmica das contas públicas. Todavia teve três falhas estratégicas graves.

Uma foi a escolha do gradualismo no começo do mandato, deixou a economia vulnerável a um choque; que veio em 2018, com a quebra de 30% da safra e a piora dos mercados de capitais internacionais. Outra foi não ter ajustado o sistema bancário, que, em vez de tornar as empresas resilientes, fragilizou-as. A terceira foi no foco da política econômica, que deveria ser o bem-estar da nação, lembrando que o ajuste fiscal e a modernização institucional eram e são meios, e não fins em si mesmos. Os erros custaram-lhe o apoio popular.

Neste domingo, 27 de outubro, haverá uma eleição para presidente e na prévia eleitoral, em agosto, ganhou o voto anti-Macri. Mostrando que os argentinos querem mudanças, o que é importante. O problema não está na pessoa dele, mas nas estratégias que adotou. Falhou e tem de ser mudada. Todavia a escolha do pleito foi por algo que comprovadamente não dá certo.

Em apenas um mês, após as prévias, as projeções de crescimento do PIB do ano que vem caíram 3%, há quem fale em Argenzuela. Em vez de os eleitores olharem para o futuro, sonham com um passado inconsequente. Triste. É possível pensar em outro momento de esplendor da Argentina nos próximos anos. O país vizinho tem quase tudo o que é necessário para se desenvolver bem. Falta apenas um projeto de país sensato.

*ECONOMISTA, É ARGENTINO. E-MAIL: ROBERTOTROSTER@UOL.COM.BR

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