Democracia sob ataque num país sem governo

No Brasil sem rumo, faltam projetos e sobram arroubos de autoritarismo

Rolf Kuntz, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2021 | 03h00


O Brasil precisa de um governo pelo menos para chamar de ruim. Desgovernado há quase três anos, este é um país sem rumo, sem projeto de crescimento, sem segurança institucional e sem perspectiva de modernização. Inflação acima de 8% em 12 meses e desemprego superior a 14% batem recordes. A vacinação continua atrasada e sujeita a interrupções, por causa de erros escandalosos – e mortíferos – cometidos pelo poder central no enfrentamento da pandemia. Credores de precatórios estão arriscados a um calote, a política fiscal é cheia de remendos e o teto de gastos pode ficar cheio de furos, mas sem criar um chão de estrelas. Ameaças de golpe, discursos de ódio e falsidades compõem a maior parte das manifestações do presidente da República, o mais inepto, mais inoperante e mais desastroso chefe de governo da História nacional. Num de seus muitos arroubos ditatoriais, ele ameaçou agir fora da Constituição para enfrentar o Poder Judiciário. Quanto custará aos brasileiros mais um ano dessa catástrofe?

Avesso ao interesse público, o presidente permanece empenhado na reeleição, na prevenção de um impeachment e na proteção de filhos sujeitos a investigações criminais. Sua atividade política se concentra em arranjos eleitorais, em acertos com o Centrão, agora instalado na chefia da Casa Civil, e na mobilização de adeptos. Para falar com seus apoiadores basta circular pelo Brasil, participar de algumas inaugurações e promover ajuntamentos e passeatas de motos.

Mensagens significativas sobre projetos para o País são dispensáveis, além de obviamente superiores à sua capacidade. Nenhum discurso elaborado é necessário para defender a cloroquina como remédio anticovid, depreciar as instituições e estimular manifestações a favor do voto impresso. Seus apoiadores têm-se mostrado pouco exigentes quanto a planos de governo, valores morais e padrões de gestão pública, mas demonstram habilidade, é preciso reconhecer, para desfilar em motocicletas.

Em manifestação menos barulhenta, a proposta de ressurreição da velha cédula foi rejeitada por 23 votos a 11 em comissão especial da Câmara, na quinta-feira. Em condições mais civilizadas, o projeto seria logo abandonado, mas ainda se especulava, na sexta-feira, sobre uma possível votação em plenário na semana seguinte. Isso dependeria do presidente da Casa, o deputado Arthur Lira, ainda silencioso em relação às últimas ameaças golpistas do chefe de governo e às reações de vários setores.

Nem o grande manifesto em defesa do sistema eleitoral, firmado por empresários, professores, artistas, banqueiros, ex-ministros, líderes religiosos e ex-presidentes do Banco Central, pareceu chamar a atenção do presidente da Câmara. Postado na internet, esse manifesto, na quinta à noite, já tinha mais de 7 mil assinaturas.

É falso o falatório do presidente Bolsonaro contra a urna eletrônica. Nenhuma prova de fraude foi encontrada em um quarto de século. O sistema é auditável, sua segurança tem sido comprovada e nenhum hacker conseguiu invadi-lo, porque as urnas funcionam sem ligação em rede. O voto impresso “seria ótimo para os caciques políticos” e facilitaria o retorno das fraudes, disse ao Estado, em julho, o ex-presidente do Tribunal Superior Eleitoral Carlos Velloso, responsável pela implantação do voto eletrônico.

Caciques políticos tiveram desde o Império enorme poder eleitoral, impondo sua vontade às populações locais. O coronelismo é um velho fenômeno brasileiro, estudado amplamente por historiadores e outros cientistas sociais. Milícias apareceram há menos tempo, com a expansão e a consolidação do crime organizado em áreas urbanas. Também são conhecidas por sua participação nos negócios, na venda de proteção e na vida política. No Estado do Rio de Janeiro, essa presença tem sido ostensiva.

Coronéis, outros mandachuvas locais e milicianos seriam os grandes beneficiários de um retorno ao velho sistema. Uma vitória de Bolsonaro, nesse debate, será partilhada com todas essas pragas da vida política brasileira, mas isso será impossível se o assunto for enterrado no Congresso.

Há mais que falsidades e baboseiras, no entanto, na campanha a favor do voto em papel. Com qualquer sistema, Bolsonaro sempre poderá, imitando seu líder Donald Trump, contestar o resultado da eleição, se for derrotado. Ou talvez nem haja eleição, se faltar o voto impresso. Ele repetiu essa ameaça várias vezes.

Até o empresariado, silencioso por muito tempo diante das barbaridades bolsonarianas, decidiu mobilizar-se para frear o presidente. Nem é preciso pesquisar as convicções de quem assinou o manifesto. Alguns devem ser democratas fervorosos. Outros podem ser mais flexíveis. Mas todos devem ter percebido um fato inegável: diante de um golpe, a reação dos grandes parceiros capitalistas seria muito ruim para a economia brasileira. Democracia, agora, é essencial para os negócios, exceto, talvez, se o País for uma potência de proporções chinesas, governada como a China nos últimos 30 anos. Com Bolsonaro, nem pensar.


JORNALISTA

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