Democracia x demagogia

Partidos que defendem as liberdades têm obrigação de agir para blindar aventuras desrespeitosas à Constituição.

Moreira Franco, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2021 | 03h00

Nosso país tem assistido a uma escalada de naturalização da demagogia tentando minar a democracia. A demagogia é um embuste onde são lançados ingredientes perigosos, como fake news interessadas em deslegitimar as nossas instituições. A demagogia não enxerga, não ouve e não fala nada de importância real a uma população, cuja dificuldade de comprar comida aumenta com a crescente inflação. Serve unicamente aos grupos que desejam comandar o Estado como ferramenta para alcançar um poder autoritário. Já a democracia exerce empatia, diálogo, respeito às diferenças, e essa soma resulta em liberdade de pensamentos diversos, direitos e deveres elencados formalmente na Constituição brasileira.

A democracia não inventa crises, ela as resolve de maneira ordeira. Atualmente, espalham-se caraminholas tais pela Nação que, de tão fantasiosas, mais lembram criações da infância, quando inocentes lidam com seres imaginários. A diferença hoje é que os propagadores de invencionices no nosso país de inocentes não têm nada. Tóxicos e beligerantes com quaisquer opiniões adversas, digladiam com instituições – e todos os que pensam diferente se tornam inimigos.

Após a conquista da democracia, é anormal e inaceitável falar em “ruptura” institucional no Brasil. Mais ainda. É impressionante que essa palavra figure de forma crescente e sem cerimônia no noticiário político e econômico do País, mesmo porque é fruto de uma bolha de mentira, sob dois intuitos: 1) o uso para um discurso eleitoral destinado a radicais; 2) tergiversar sobre os problemas que verdadeiramente afetam a sociedade. Em suma, há o objetivo irresponsável de suscitar um caos institucional em plena democracia.

A obrigação dos políticos que defendem as liberdades é atuar como blindagem contra essas aventuras desrespeitosas à Constituição. É fundamental subir para o bloqueio e arremessar longe qualquer sombra de retrocesso. Eles já avançaram demais o sinal. Agora, quatro partidos – MDB, PSDB, DEM e Cidadania – aliaram-se para o contraponto a essas leviandades. O propósito é dialogar na construção de Um Novo Rumo para o Brasil – título do seminário virtual promovido entre hoje (15) e o dia 27 de setembro – com a participação, já na abertura, de três ex-presidentes da República: Michel Temer, Fernando Henrique Cardoso e José Sarney. O elenco é a prova cabal de que diferentes podem e devem conversar em busca de maioria saudável para soluções a uma nação que precisa reagir urgentemente na sua economia.

É esta a linguagem que atende a cada pessoa no País: a do diálogo para o encontro de propostas eficazes ao que aflige os brasileiros. O discurso da intolerância, além de não encher o prato de quem mais precisa, não faz o menor sentido num Brasil que já viu a perda de quase 600 mil vidas pela covid-19, doença tratada com descaso pela aflição de todos.

Cabem muita atenção e ação, porque os arautos da demagogia arquitetaram artificialmente todo um cenário de rivalidade entre “eles” contra “outros”, gerando um nó que faz o Brasil patinar. Essa nuvem colérica utiliza-se de segmentos da sociedade massacrados por fake news em séries para desenvolver a tal retórica de luta contra “o outro lado” – o democrático. Infelizmente, há grupos, alguns até por falta de informação adequada, que se deixam levar pelas cantilenas manipuladoras.

Temos passado vergonha perante o mundo com nossa credibilidade em xeque. O País perde investimentos, enquanto registra mais de 14 milhões de desempregados. Até mesmo nossos símbolos nacionais foram sequestrados pelo movimento contra o Estado Democrático de Direito.

As falas deixaram a timidez das reuniões fechadas e ganharam praças públicas. Por menos que expressem a opinião da maioria dos brasileiros, é hora de um potente basta a esse espaço até aqui ocupado.

Famílias inteiras estão desesperadas à espera de saídas para questões práticas de sua vida – não no grito, mas no diálogo. Vamos juntos, com respeito pelo outro, buscar consensos nas maiorias. Devem ser as maiorias as peças de resistência da democracia.

Uma das alegações dos intransigentes – de batalhar pela liberdade de expressão – é risível, não fosse perigosa. Ao mesmo tempo que supostamente levam adiante essa bandeira (contra a qual nenhum democrata será contrário), estimulam a invasão de prédios públicos e insuflam a quebra de liberdades com discursos golpistas. Os sinais estão trocados, enquanto o País corre o risco de marcha à ré.

Se ainda há uma boa notícia no meio deste pandemônio, é a de pesquisas demonstrando a grande maioria dos brasileiros contra os arroubos radicais. Outra é de que as instituições e as forças políticas democraticamente constituídas não vão se curvar a este quadro pintado grotescamente por quem nem de longe tem amor à Pátria. O País quer paz para trabalhar e voltar a crescer.

*

SOCIÓLOGO, EX-GOVERNADOR DO RIO DE JANEIRO, É PRESIDENTE DO CONSELHO CURADOR DA FUNDAÇÃO ULYSSES GUIMARÃES

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.