Deprimido, PIB melhorou. E o de SP ainda mais

É preciso estar mais atento ao que se passa na economia do Estado de São Paulo

Roberto Macedo*, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2019 | 03h00

O IBGE publicou dados do produto interno bruto (PIB) do terceiro trimestre deste ano, e de trimestres anteriores, que permitem comparações. Houve quem celebrasse o fato de ao longo de 2019 terem aumentado as taxas trimestrais de variação do PIB, relativamente ao trimestre imediatamente anterior (com ajuste sazonal). Essas taxas foram de zero, 0,5% e 0,6% no primeiro, segundo e terceiro trimestres, respectivamente, o que poderia significar uma retomada mais firme da economia, pois, se esta última taxa fosse mantida, ela colocaria o PIB na tão almejada rota de um crescimento anual perto de 2,5%.

Será? Entendo que o País deveria definir uma estratégia para crescer bem acima dessa taxa, algo próximo de 4% ao ano, mas nem essa de 2,5% está garantida. A economia está numa fase com capacidade produtiva ociosa, quando o crescimento da produção é facilitado por não exigir maiores investimentos para expandi-la, o que aconteceria quando esgotada essa ociosidade. Virão esses investimentos?

Ademais, os últimos resultados do PIB não mudaram significativamente o quadro de depressão em que a economia se encontra. Quanto a isso, tenho divergido de quem saudou o tal fim da recessão quase como o fim da crise. Isso no início de 2017, quando, após oito trimestres consecutivos de taxas trimestrais negativas, o PIB engatou marcha de taxas positivas, com exceção da do segundo trimestre de 2018. Mas esta não trouxe de volta a recessão, pois há uma convenção entre economistas que define como “recessão técnica” a ocorrência de taxas negativas do PIB em dois trimestres consecutivos, e a sua interrupção caso essas taxas se tornem positivas em idêntico período.

Essa definição contribuiu muito para obscurecer a visão de um problema muito maior enfrentado pela economia, o de que desde 2015 ela está mesmo é numa depressão, que em 2019 completa seu quinto aniversário, e no contexto da qual essa “recessão técnica” poderia ser entendida como simples tecnicalidade. Isso não fosse o fato de que seu fim, apesar de não significar que a economia tenha saído do buraco em que se meteu em 2015, pelo menos indicou que começou a rastejar rumo à superfície.

Quanto a isso, a mesma publicação do IBGE apresenta gráfico da tendência da série encadeada do PIB trimestral desde o primeiro trimestre de 1996. O PIB sobe até o terceiro trimestre de 2008, cai no quarto e por aí fica no primeiro de 2009, por conta da crise internacional que então surgiu. Volta a subir até que, em 2014, dá sinais de enfraquecimento, despenca em 2015 e 2016 e, apesar do fim da “recessão técnica”, no terceiro trimestre de 2019 voltou apenas ao valor já alcançado no terceiro trimestre de 2012!

Em números aproximados, a economia caiu cerca de 6% no biênio 2015-2016, no seguinte cresceu perto de 2% e neste ano as previsões estão perto de 1%. Ou seja, até aqui o tal fim da recessão só permitiu recuperar cerca de metade do que o PIB perdeu na depressão em que ainda permanece. Um aspecto interessante da última divulgação do PIB foi que revisou a taxa do ano passado, passando-a de 1,1% para 1,3%. Como as previsões para 2019 estão abaixo desse valor, a se confirmarem poderão ter eventual impacto na não bem sustentada onda de otimismo ora em curso.

Outros indicadores confirmam a ainda má situação da economia. Reexaminei alguns. Em outubro deste ano, a produção física da indústria em geral atingiu um nível 15,8% inferior ao seu pico anterior, no longínquo março de 2011! No comércio, o índice de volume de vendas revelou-se 5,5% menor que o do melhor outubro anterior, em 2014. Nos serviços também houve queda, mas à taxa de 9,6%. Só a agropecuária ficou fora desses desastres, com destaque para a safra de cereais, leguminosas e oleaginosas, que este ano teve novo recorde.

De sua parte, o desemprego continua resistindo na faixa de 12 milhões a que chegou com a depressão. E examinei cinco índices de confiança elaborados pela FGV-Rio, que capta mensalmente a opinião de empresários de vários setores, e outro com a opinião dos consumidores. Todos mostraram um pequeno aumento da confiança nos meses mais recentes, com exceção do índice da indústria, mas todos também com valores bem abaixo dos mais altos no passado, no também longínquo 2010 (!).

Assim, a economia segue deprimida. E mais uma década foi perdida. O que fazer? As reformas propostas pelo ministro Paulo Guedes são importantes, mas muito demoradas. A privatização de estatais, a ampliação da infraestrutura e o empenho em mais investimentos em geral precisam avançar com maior vigor. Como uma política fiscal de estímulos está tolhida pelas dificuldades orçamentárias do governo, venho defendendo medida adicional de política monetária. Fazendo jus à sua imagem de emprestador de última instância, o Banco Central deveria expandir a oferta monetária adquirindo de instituições financeiras ativos como hipotecas de imóveis e os de financiamentos da infraestrutura, para que elas expandissem seu crédito com essas finalidades, política essa adotada de forma mais ampla por outros países em situações de crise e recentemente retomada pelo Banco Central Europeu.

Para concluir, uma notícia importante que não vem recebendo a devida atenção da imprensa e dos analistas econômicos. As projeções do PIB paulista recentemente divulgadas pela Fundação Seade indicam crescimento entre 1,9% e 2,3% em 2019, cerca do dobro das previsões que têm sido divulgadas para o País. Segundo a fundação, “o diferencial da economia paulista em relação à brasileira decorre do desempenho dos serviços, do comércio e da construção civil”.

O Estado de São Paulo pode ser visto como um país de importante dimensão econômica e populacional. E é preciso estar mais atento ao que se passa na sua economia.

ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), PROFESSOR SÊNIOR DA USP, É CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR

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