Desemprego seguirá alto no 4º ano pós-recessão

Parece maldade: revisão de 1,1% para 1,3% tornou mais difícil igualar o crescimento de 2018

Rolf Kuntz *, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2019 | 03h00

Três anos depois de sair da recessão, o Brasil continua muito bem colocado no campeonato mundial do desemprego – e assim continuará, tudo indica, em 2020 e em 2021. As filas de gente em busca de emprego continuarão longas ainda por um bom tempo, segundo pesquisas com empresas de vários setores. Os otimistas, ou conformados, lembrarão um detalhe bem conhecido: há uma defasagem normal entre a reativação econômica e a recuperação do emprego. É verdade, mas a reativação começou em 2017, o desemprego oscilou e voltou a crescer. O governo Bolsonaro completa um ano de mandato com o quadro do emprego muito parecido com o do final de 2018, logo depois das eleições. 

Com 12,4 milhões de desocupados, 11,6% da força de trabalho, o País praticamente reproduziu, no trimestre móvel encerrado em outubro, o quadro de um ano antes, quando os desempregados eram 11,7% da população economicamente ativa. Mas a história é mais feia do que esses números podem sugerir. Achar trabalho ficou muito mais difícil durante o primeiro ano do novo governo. Que houve com aquele otimismo proclamado por tantos empresários, depois das eleições?

O cenário ficou pouco menos assustador, nos últimos meses, pela combinação de vários fatores nem sempre positivos. Aumentou a oferta de vagas, muita gente suspendeu a procura por algum tempo e um enorme contingente decidiu arriscar-se a trabalhar por conta própria. Um recorde surgiu com 24,4 milhões de autoempregadores. O aumento foi de 913 mil pessoas em um ano.

Enquanto os negócios derrapavam e o País parecia escorregar para uma nova recessão, as condições de emprego pioraram. O desemprego voltou a aumentar e a taxa bateu em 12,7% no primeiro trimestre de 2019. Depois começou a recuar, num lento e penoso retorno aos níveis do final de 2018.

Enquanto as tevês mostravam filas de milhares de pessoas em busca de emprego, o presidente cuidava de prioridades muito particulares. Assuntos como a facilitação da posse e do porte de armas, a invenção de uma diplomacia cristã para um Estado laico e o reenquadramento das ações culturais do governo estiveram no alto de sua agenda. Ele também se dedicou a desmoralizar as políticas de conservação ambiental e a questionar a qualidade do Inpe, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, respeitado internacionalmente.

Enquanto isso, a equipe econômica tropeçava na formulação e no encaminhamento de projetos de reformas. A da Previdência foi aprovada, afinal, graças ao empenho de parlamentares, especialmente do presidente da Câmara, Rodrigo Maia. A confusão continuou na preparação da reforma tributária. Na bagunça, caiu o secretário da Receita.

E os vinte e tantos milhões de desempregados, subempregados e desalentados? Nunca apareceram no quadro das preocupações do governo, até a decisão de permitir, a partir de setembro, modestos saques do FGTS e do PIS-Pasep.

Até o fim do terceiro trimestre, portanto, só a política de redução de juros, conduzida pelo Banco Central (BC), proporcionou algum estímulo de origem oficial à reativação dos negócios e, se possível, à criação de empregos. Por que o governo, afinal, terá decidido permitir os saques? Terá admitido, enfim, a ideia abominável de produzir mais um dos famigerados voos de galinha?

Nenhuma explicação foi apresentada até agora. Se alguém tentasse explicar, talvez fosse pressionado a responder a outra questão: por que se esperou tanto tempo para uma ação desse tipo, se uma decisão semelhante, no governo anterior, já havia produzido algum efeito positivo?

Esse efeito poderia, quase com certeza, ter-se prolongado, num ambiente livre das turbulências de 2018. Mas o ano será lembrado pela campanha eleitoral fortemente polarizada e por incidentes desastrosos, como o indefensável bloqueio de rodovias apoiado pelo candidato Jair Bolsonaro.

O ano de 2019 começou mal e assim continuou até o surgimento de leves sinais de recuperação a partir de setembro. Os dados positivos foram celebrados com palavras otimistas no mercado. Ainda assim, as perspectivas de criação de empregos continuaram pífias. Em 2019, o emprego industrial ficou inalterado em cinco meses e caiu em quatro, tendo subido apenas 0,1% em janeiro, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI). O comentário aparece em relatório sobre a atividade em outubro. O faturamento tem crescido, mas a intenção de contratar continua muito moderada.

Segundo a pesquisa Termômetro Empresarial, recém-divulgada pela Consultoria Falconi, 80% das empresas consultadas indicaram perspectivas positivas para 2020, mas apenas 50% mencionaram a possibilidade de aumento do emprego.

Mas também as projeções de crescimento econômico, apesar dos comentários otimistas sobre os últimos dados, permanecem muito cautelosas.

Poucas estimativas ultrapassam 2,2% quando se trata da expansão do produto interno bruto (PIB) esperada para 2020. A economia finalmente engatou a marcha do crescimento, dizem alguns analistas, mas sempre acrescentando uma restrição: o avanço ainda será provavelmente lento durante um bom tempo. Os mais ousados antecipam taxas em torno de 3% para 2021.

É difícil imaginar uma redução veloz do desemprego em cenários como esses. A equipe econômica tem até concebido alguns estímulos à contratação. Os incentivos consistem essencialmente em barateamento da mão de obra – um bônus para os empregadores, quando, afinal, sentirem necessidade e decidirem contratar.

Quanto a 2019, as melhores expectativas, hoje, são de expansão econômica pouco superior a 1%. Mas é difícil dizer se o governo entregará em seu primeiro ano um crescimento pelo menos igual ao do ano passado. O IBGE acaba de elevar o sarrafo da comparação, ao corrigir de 1,1% para 1,3% o número de 2018. Parece até maldade com o governo Bolsonaro.

* JORNALISTA 

 

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