Deus, provocação eterna

O pêndulo da História aponta o reencontro do homem com suas raízes, rumo ao Criador

Carlos Alberto Di Franco, O Estado de S. Paulo

24 de fevereiro de 2020 | 03h00

Fernando Meirelles, diretor do filme Dois Papas, deu um excelente Roda Viva. Grande cineasta e papo agradável, Meirelles desnudou com simplicidade o impacto que o filme teve na sua vida.

Até completar 8 anos, o diretor de Cidade Deus (2002), Ensaio Sobre a Cegueira (2008) e Dois Papas (2020), entre outros, ia à missa todos os domingos. Hoje, aos 64 anos, no entanto, ele se considera agnóstico. Mesmo assim, desde que rodou Dois Papas admite que algo mudou. De tempos para cá, anda com vontade de encontrar “um padre legal” para virar seu confessor.

Depois de ouvir tanta gente falando sobre fé, oração e espiritualidade, Meirelles passou a sentir uma ponta de inveja de quem, segundo ele, tem essa capacidade de “conexão”.

“A vida parece ficar mais leve se alguém fora de nós toma conta de tudo. E mesmo quando tudo dá errado, como Ele tem um propósito, acredita-se que o mal tenha acontecido para o bem. Isso ajuda a viver”, observa Meirelles.

Nostalgia de Deus e necessidade de conexões mais profundas são, de fato, marcas de um tempo de overdose de impulsos superficiais.

Deus é uma provocação eterna. Às vezes chega de mansinho. Outras vezes, de forma repentina. Mas sempre chega. Compartilho com você uma experiência surpreendente.

Dia 8 de julho de 1935: um rapaz de 20 anos que estava à procura de um amigo com quem tinha combinado jantar entrava, por engano, numa capela de Paris. Chamava-se André Frossard. Era filho do líder sindical L. O. Frossard, jornalista e primeiro-secretário do Partido Comunista Francês. Dizia-se “cético e ateu de extrema esquerda. Ainda mais do que cético, ainda mais do que ateu, indiferente e ocupado em coisa bem diversa de um Deus que nem pensava mais negar”. Cinco minutos depois, saía de lá “católico, apostólico, romano, (...) transportado, levantado, retomado e envolvido pela onda de uma alegria inexaurível”.

O impacto existencial dessa conversão ficou registrado num livro que ocupou muito tempo as listas dos best-sellers: Deus Existe, Eu O Encontrei. André Frossard, jornalista de prestígio, cronista do Figaro, redator-chefe da revista Temps Présent e, de 1988 até sua morte, em 1997, membro da Academia Francesa de Letras, faz parte daquela estirpe de intelectuais que cinzelam a cultura dos povos. Por isso, Deus em Questões (Editora Quadrante, São Paulo), livro que acabo de reler com muito prazer, merece ser compartilhado com você, caro leitor.

Trata-se de um livro estimulante, quase interativo. O autor, armado de uma coragem afiada e de um bom humor cativante, assume um desafio inusitado. Frossard condensa em 47 “questões” cerca de 2 mil perguntas que lhe foram feitas por estudantes franceses. Em cada questão expõe primeiro as objeções, assumindo lealmente o ponto de vista crítico, e depois formula respostas que extrai da sua “experiência da fé”. Por que viver? Ciência e fé são compatíveis? Deus é da esquerda ou da direita? A fé e o bigue-bangue. A bioética. A aids. O sofrimento humano. A liberdade. Eis, respigados ao acaso, alguns dos temas que compõem um mosaico de grande atualidade jornalística.

Num mundo tantas vezes dominado por uma visão utilitária e hedonista, Frossard rasga o generoso horizonte da autêntica liberdade. De fato, poucas ideias gozam, dos homens em geral, de apreço tão imediato e universal quanto a liberdade, mas nem todos se aprofundam igualmente na sua essência. Muitos se conformam com uma concepção superficial desse conceito: a liberdade lhes sugere simples espontaneidade, ausência de compromissos, e isso já é o suficiente. Na sua defesa da liberdade, contudo, Frossard não fica num conceito descomprometido, mas mergulha na raiz existencial da liberdade: o amor. Amor a Deus e amor aos outros.

Jornalistas competentes, imunes ao vírus da superficialidade, sabem decifrar o fenômeno religioso. Outros, reféns de um sectarismo anacrônico, sucumbem à patologia dos chavões. Alguns, por exemplo, equivocadamente, imaginam que o influxo cristão sobre os assuntos temporais não deveria existir. Gostariam de ver a Igreja reduzida a uma espécie de ONG da boa vontade. De acordo com essa ótica, a religião se reduziria ao culto, sobretudo privado. Entrincheirada no ambiente rarefeito das sacristias, estaria desprovida de qualquer possível projeção social.

A aparente tensão entre o cristão cidadão do mundo, mas não refém do mundanismo, tem levantado uma falsa contraposição entre convicção e liberdade. Estabelece-se uma absurda incompatibilidade entre realidades que deveriam caminhar juntas. Entre uma pessoa de fé e um fanático existe uma fronteira nítida: o apreço pela liberdade. O fanático impõe, empenha-se em aliciar. A pessoa de fé, ao contrário, assenta serenamente em seus valores. Por isso a sua convicção não a move a impor, mas estimula a propor, a expor à livre aceitação dos outros as ideias que acredita dignas de serem compartilhadas. 

O livro de Frossard é de grande atualidade. O pêndulo da História aponta o reencontro do homem com suas raízes genuínas, sua inquieta peregrinação rumo ao Criador. Na verdade, a busca de Deus é um fato sociológico.

*JORNALISTA. E-MAIL: DIFRANCO@ISE.ORG.BR

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