Diplomacia na balança

Só países com forte comércio internacional encontram o rumo da prosperidade

Kátia Abreu, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2021 | 03h00

No comando da Comissão de Relações Exteriores do Senado, nunca tive tanta oportunidade de entender com clareza a necessidade de buscar crescimento econômico, apesar das crises, por meio de medidas combinadas que acelerem exportações e atraiam investimentos externos, para assegurar prosperidade ao nosso povo.

Hoje os países asiáticos são o destino mais relevante dos produtos brasileiros. A Ásia absorveu quase metade (49%) das exportações do Brasil no primeiro semestre de 2021. Com 50 países, a região abriga 60% da população do planeta e é responsável por 36% do PIB mundial.

Visitei a Ásia uma dezena de vezes nos últimos anos e acredito que o Brasil compartilha com a China identidades que tornam possível encurtar as distâncias que a geografia, a História e a cultura nos impõem. Temos imenso potencial para a cooperação em um grande número de áreas.

Somos países em desenvolvimento de dimensões continentais – os maiores de suas respectivas regiões – e ambicionamos um processo de desenvolvimento econômico inclusivo, que ofereça novas perspectivas e oportunidades aos nossos povos.

Com realismo, defendo a tese de que as relações com a China sejam tratadas pelo que são, o que não é pouco. A região da Ásia-Pacífico é a de maior dinamismo no mundo, um polo de atração cuja força se faz sentir de forma crescente com o potencial de um mercado de mais de 2,2 bilhões de pessoas.

O comércio Brasil-China no primeiro semestre de 2021 foi de US$ 71 bilhões, aproximadamente US$ 1 bilhão a cada dois dias e meio. E o superávit comercial no período foi de US$ 26,6 bilhões, o maior na história das relações do Brasil com qualquer país.

O Brasil exportou mais para Cingapura do que para a Alemanha. Vendeu mais para o Vietnã do que para a Suíça. Embarcou mais produtos para a Tailândia do que para a França. Mais para a Malásia e a Indonésia do que para a Itália e Portugal. Bangladesh tornou-se um comprador mais importante do que Austrália, Dinamarca, Israel e Finlândia – todos juntos. Nossas exportações para a Ásia, excluindo a China, são maiores que nossas exportações para toda a União Europeia (UE). E são equivalentes a todas nossas exportações para Estados Unidos e Argentina somadas.

É observando com pragmatismo os dados do comércio que defendo a reavaliação estratégica dos 216 postos – embaixadas, consulados, representações, delegações e escritórios comerciais – que o Brasil mantém em 134 países. Convém levar em conta os dados da balança comercial.

Temos 61 representações na Europa, 42 na América do Sul, 37 na África, 29 na Ásia e Oceania, 20 na América do Norte, 15 na América Central e no Caribe e 12 no Oriente Médio e na Ásia Central. Acredito ser necessário ampliar nosso corpo diplomático na Ásia, com destaque para a China e a Índia, dois países em franco crescimento econômico e que têm 3 bilhões de consumidores.

Outra medida combinada para fortalecer nossas vendas externas é maior integração, maior abertura da economia, que equivale historicamente a uma média em torno de 22% do PIB, menos da metade da média mundial (45,2%). Só países com forte comércio internacional encontram o rumo da prosperidade. Não conheço nenhuma exceção a essa regra.

Devemos também trabalhar para conferir um novo status ao Mercosul por meio do acordo com a UE. Para alcançar esse intento precisamos equacionar, com realismo, objetividade e medidas efetivas, a questão ambiental, o principal empecilho ao avanço do acordo com os europeus.

A partir do momento em que nós conseguirmos pôr em marcha o acordo entre a União Europeia e o Mercosul, isso vai servir de espelho e outros países vão ser atraídos para fazer acordos comerciais com o bloco sul-americano. Então, se o acordo for feito nossa renda per capita poderá ser de quase R$ 50 mil em dez anos. Do contrário, estará em apenas R$ 45 mil.

Abertura comercial também representa combate à inflação, aumento de produtividade, com a importação de tecnologias, e a oportunidade de grandes investimentos externos, para garantir nosso crescimento muito acima dos 2% que, em média, temos conseguido nos últimos anos.

O Brasil precisa valorizar nossas realizações em matriz energética limpa (em torno de 80% da geração), manutenção da cobertura vegetal (61%) e avanço da agricultura sustentável, mas precisamos dar novas sinalizações aos europeus e ao mundo. Nesse sentido, apresentei projeto para antecipar, de 2030 para 2025, o compromisso de conter o desmatamento ilegal. Hoje o tema central da geopolítica, em todo o mundo, é a questão ambiental. Questão inegociável.

Sempre me levanto otimista. Agora mesmo celebrei um fato: em 2021 o Brasil deverá ter US$ 500 bilhões de corrente comercial (soma de exportações e importações) e superávit comercial superior a US$ 100 bilhões. Ambas as marcas são recordes históricos e comprovam que “o futuro não se prevê, apenas se constrói coletivamente”, como escreveu o padre António Vieira.


SENADORA (PP-TO), PRESIDE A COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DEFESA NACIONAL DO SENADO, PRESIDIU A CNA E FOI MINISTRA DA AGRICULTURA NO GOVERNO DILMA

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