Do desgoverno ao golpismo

Justiça e Congresso repelem ameaças,enquanto Bolsonaro se entrega ao Centrão

Rolf Kuntz, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2021 | 03h00

Golpismo, desemprego, fome, inflação e milhares de mortes evitáveis, mas ainda causadas pela pandemia, são as grandes marcas, até agora, do terceiro ano de mandato do presidente Jair Bolsonaro, o mais inepto e mais desastroso chefe de governo do Brasil independente. Chefe de governo, título hierárquico, é o rótulo mais adequado, porque governante ele nunca foi. Governar é atividade complicada e trabalhosa. Se algum dia tiver constado de sua agenda, logo deve ter sido riscada. Incompetente e omisso no enfrentamento da covid-19, Bolsonaro já ficaria na História pelos desmandos e erros cometidos enquanto se perdiam mais de meio milhão de vidas. Mas o destaque de sua folha corrida, ao lado de tantos fatos sombrios, será sua coleção de ameaças à democracia.

As ameaças bolsonarianas foram formuladas publicamente e são inegáveis. Mais de uma vez o presidente vinculou a realização das eleições de 2022 à adoção do voto impresso. Antes disso, apontou o risco de desordens se a votação eletrônica for mantida. Em 7 de janeiro, um dia depois da invasão do Congresso americano, incitada por Donald Trump, Bolsonaro apontou o risco de algo semelhante no Brasil, em caso de suspeita de fraude, uma hipótese fantasiosa, se o sistema for mantido.

Repetindo a fala trumpista, Bolsonaro falou em eleição fraudada nos Estados Unidos e insistiu na ideia de falsificação de resultados no País. Era essa a sua preocupação mais visível naquele momento, enquanto outros brasileiros, atentos à pandemia, torciam pelo início da vacinação. A primeira dose de vacina seria aplicada dez dias depois, em São Paulo, em evento no Hospital das Clínicas. O imunizante seria a Coronavac, introduzida no Brasil por meio da cooperação entre o Instituto Butantan e a fabricante chinesa Sinovac – aquela mesma apontada como indesejável “vachina” pelo presidente da República.

O começo da vacinação seria um dos poucos fatos positivos de janeiro, no Brasil. Dezenas de milhões de trabalhadores, naquele mês, haviam deixado de receber o auxílio emergencial. Condenados à extrema pobreza, passaram a depender de campanhas de solidariedade para comer e ter condições mínimas de sobrevivência. Nenhum centavo de ajuda federal seria recebido no primeiro trimestre, quando o contingente desempregado chegou a 14,8 milhões de pessoas, ou 14,7% da força de trabalho. No trimestre móvel terminado em abril esses números seriam mantidos, embora o governo insistisse em falar numa forte recuperação econômica.

Distante das preocupações com a realidade social brasileira, o presidente continuou concentrado em seus objetivos pessoais e familiares – garantir a reeleição, evitar qualquer tentativa de impeachment e proteger seus filhos de toda investigação perigosa. A defesa do voto impresso se manteve como um dos temas centrais de sua permanente busca da reeleição.

Embora tenha prometido muitas vezes, Bolsonaro nunca provou a ocorrência de fraudes em 2014 e em 2018, nem mostrou como se poderia violar a urna eletrônica. Ao repetir essa acusação, pôs em dúvida, inevitavelmente, a competência ou a honestidade da Justiça Eleitoral. Mas, além de insistir nessa fantasia, conseguiu a adesão do ministro da Defesa, general Walter Braga Netto. Ao cair nesse erro, o ministro foi além dos cuidados com a segurança nacional e com a gestão das Forças Armadas, órgãos de Estado, e virou personagem do noticiário político.

A intromissão do general na política foi noticiada pelo Estadão. Segundo o jornal, o ministro repetiu a fala golpista do presidente, condicionando a realização de eleições em 2022 ao uso do voto impresso. A ameaça, de acordo com a notícia, foi passada por uma terceira pessoa ao presidente da Câmara, deputado Arthur Lira. Numa primeira entrevista, o deputado negou esse fato, mas depois, em postagem eletrônica, limitou-se a garantir a realização das eleições, sem desmentir a notícia. O general tentou desmenti-la, inutilmente, e gastou a maior parte da declaração falando sobre voto impresso.

Ministros do Judiciário, presidentes da Câmara e do Senado e outros políticos logo reagiram ao ministro da Defesa. Defenderam as eleições em 2022, condenaram ameaças golpistas e repeliram as manifestações de autoritarismo.

Quando o general Braga Netto cometeu a tolice de sair de seu cercadinho, o presidente já estava, mais uma vez, politicamente acuado. O avanço da CPI da Covid, os sinais de corrupção no Ministério da Saúde, a pandemia prolongada, o desemprego elevado e a insistência dos defensores do impeachment assombravam Bolsonaro e seu círculo mais próximo. Seu passo seguinte, “em busca de uma melhor interlocução com o Parlamento”, foi sujeitar-se mais claramente ao Centrão, nomeando para a chefia da Casa Civil uma das principais figuras do bloco, o senador Ciro Nogueira. Como em janeiro de 2019, Bolsonaro continua sem plano de governo. Seu objetivo evidente, agora, é evitar riscos e sobreviver na Presidência. Falta verificar se o novo diálogo com o Congresso reduzirá – e por quanto tempo – seu ímpeto golpista.


JORNALISTA

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