Doar para transformar

O coronavírus expõe os níveis de crueldade da nossa desigualdade social

Candido Bracher, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2020 | 03h00

A crise causada pela covid-19 tem sido com frequência – e justificadamente, a meu ver – comparada a uma situação de guerra. Numa guerra há mortos e feridos, mas, além disso, há sociedades que sucumbem e outras que se fortalecem. Em junho de 1940, um mês após assumir como primeiro-ministro do Reino Unido e logo após a rendição da França, quando a situação parecia desesperadora, Winston Churchill disse: “... vamos assumir nossas responsabilidades e nos comportar de tal modo que, em mil anos, as pessoas ainda digam ‘aquele foi o seu momento supremo’ (this was their finest hour)”. Podemos não ter um Churchill para nos liderar nesta pandemia, mas isso não impede que, enquanto sociedade e, especialmente, enquanto elite, venhamos a ser julgados no futuro pela maneira como nos comportamos nesta crise.

Há duas semanas tive o grande prazer de comunicar a doação de R$ 1 bilhão para o combate à covid-19. A doação, fruto da iniciativa dos acionistas do Itaú Unibanco e aprovada por unanimidade pelo Conselho de Administração, criou o movimento Todos Pela Saúde, que recebeu apoio efusivo dos nossos colaboradores, clientes e do público em geral. O impacto foi tão grande que o gesto deflagrou grande reação positiva na sociedade e a mídia brasileira, de forma proativa e parceira, decidiu noticiar ações filantrópicas, estimulando sua multiplicação. Devemos aproveitar este impulso que a cultura de doar está recebendo.

A maior contribuição do Todos pela Saúde não é o montante doado em si. Na entrevista de anúncio da iniciativa, diante das declarações do dr. Paulo Chapchap e da equipe que lidera o projeto, senti-me emocionado e engrandecido por estar junto de pessoas tão qualificadas e de tão elevado espírito público. Confio que essa equipe poderá administrar e direcionar adequadamente um valor ainda maior, se mais for doado por pessoas físicas e empresas. Não podemos desperdiçar esta oportunidade. O Todos pela Saúde é, como o nome diz, de todos.

Vivemos um momento excepcional, em que uma crise sanitária sem precedentes põe em risco a sobrevivência de pessoas e de valores primais que fundam uma sociedade: o valor da vida, o respeito ao próximo e à natureza. A situação exige nossa união! Devemos estar à altura do momento, pôr a concorrência de quarentena e agir em conjunto para atravessar a pandemia, não apenas preservando, mas também resgatando valores que nos fundam e têm sido relegados ao esquecimento.

A cultura de doação no Brasil é muito pouco desenvolvida e esta é uma oportunidade de a cultivarmos. De acordo com o World Giving Index, o levantamento mais completo sobre a filantropia no mundo, o Brasil ocupa a 74.ª posição, entre 126 países, na lista consolidada dos últimos dez anos.

A explicação mais mencionada para o pouco valor social da filantropia e da doação entre os brasileiros remete às origens ibéricas e católicas da nossa formação cultural. Não nos situamos, de fato, longe de outras nações predominantemente católicas, mas ficamos distantes de povos anglo-saxões e de alguns asiáticos.

Não é difícil localizar diferenças fundamentais entre esses dois grupos na forma como encaram a filantropia. Enquanto nos países anglo-saxões as doações são celebrações do êxito do doador, elas são vistas com desconfiança entre nós, atribuindo-se muitas vezes intenções espúrias aos doadores. Esse traço cultural é, naturalmente, não apenas um forte inibidor da filantropia, mas também do nosso desenvolvimento.

A questão da filantropia é um aspecto de nossa cultura que a emergência da crise nos leva a questionar, mas não o único. A distribuição da riqueza, as condições de vida dos mais humildes e a conservação do planeta são questões que se interligam e, por contribuírem para o agravamento da situação, clamam por mudança. Como sociedade, não podemos tolerar que pessoas vivam no estado de vulnerabilidade que testemunhamos em diversas comunidades espalhadas por todo o País. Tampouco podemos calar diante dos ataques constantes ao meio ambiente, em especial à Amazônia.

Com todas as atenções desviadas para a crise do coronavírus, avança o ataque institucionalizado ao meio ambiente. A MP 910, que traz artigos que ampliam as possibilidades legais de desmatamento e confere legalidade aos ataques à natureza perpetrados em anos recentes, poderá ser aprovada caso a sociedade civil não se mobilize antes do prazo final de 19 de maio.

O coronavírus expõe a nossa desigualdade social em níveis de crueldade, que podem corroer o tecido social. A crise nos chama a cuidar da nossa casa. E nossa casa é o Brasil. Cidades, campos, florestas e mar.

Temos em nós, em nossa sociedade e em nossas instituições, os recursos necessários para responder à altura ao enorme desafio que se apresenta. Estimulando a cultura de doação e nos mobilizando para fortalecer nossos melhores valores, estaremos mais aptos a responder ao julgamento das futuras gerações.

Doar não transforma apenas o ambiente à nossa volta. Transforma quem doa, transforma quem recebe. 

Vamos praticar?

PRESIDENTE DO ITAÚ UNIBANCO

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