Dois Bolsonaros

Um já conhecemos bem e o outro é o que me parece necessário, mas não sei se é possível

Bolívar Lamounier*, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2020 | 21h00

Espero que meus caros leitores e leitoras não estranhem o título deste artigo. De fato, hoje meu objetivo é contrastar dois presidentes Bolsonaro, um que já conhecemos bem e outro que me parece necessário, mas não sei se é possível.

É inegável que o presidente real, esse que conhecemos bem, teve um lance de inteligência, ou, melhor dizendo, de esperteza, no transcurso de sua já extensa carreira. Percebeu que sua figura, seu modo de ser e falar, se encaixava bem no papel que os eleitores estavam procurando: encarnar o antipetismo (vale dizer, o desastre legado por Lula e Dilma Rousseff), ante o desnorteio, a divisão, a inapetência ou que nome devam ter os chamados “partidos de centro”, que se apresentaram na eleição presidencial de 2018 como que incapacitados por um instinto suicida.

Tirante o referido lance de esperteza – e aqui me esforçarei para ser objetivo, com todo o respeito a Sua Excelência –, realmente não há muito a ressaltar na trajetória de Jair Bolsonaro. Da carreira militar foi levado a se afastar no posto de capitão. Na Câmara dos Deputados, durante 28 anos, foi uma corporificação perfeita do parlamentar do “baixo clero”, não aparecendo como autor de nenhum projeto marcante ou por algum momento de real protagonismo.

Na Presidência da República, tem-se mantido na contramão dos agentes de saúde que diariamente põem sua vida em risco, na linha de frente do combate à covid-19. Recusa-se até mesmo a observar os protocolos, fomentando aglomerações, recusando-se a usar máscaras e receitando o remédio em que acredita, peremptoriamente contestado pelos mais destacados cientistas e institutos de epidemiologia do mundo. Sou forçado a repetir esses lugares-comuns pelo que eles têm de pitoresco, pois a verdade é que a própria forma de transmissão da doença ainda não está satisfatoriamente esclarecida. 

Um terceiro traço do Bolsonaro real é sua evidente incompreensão de certas engrenagens da sociedade e da política brasileiras. Por exemplo: ele prometeu erradicar a “velha política”, substituindo-a, presumivelmente, por uma nova, da qual somente participassem homens lúcidos, probos, competentes e devotados ao bem público. Nutrirá, por acaso, o presidente a crença de que a “velha política” é um fenômeno recente? De que muitos dos que nela ingressam o fazem com a evidente intenção de assaltar o erário? De que sem partidos sérios não há como haver política séria – e, convenhamos, um país ter 30 pequenos partidos e não ter nenhum é mais ou menos a mesma coisa? Desconhecerá, talvez, que mesmo com políticos e partidos razoáveis, o Brasil continuará por um bom tempo encalacrado na velha disjuntiva entre concepções econômicas “nacional-estatistas” e “neoliberais”, as primeiras sabidamente responsáveis por grandes desastres e a segunda (presumindo que saibamos o que é) nunca praticada de forma consistente entre nós? 

Um Jair Bolsonaro “possível” é realmente uma possibilidade ou apenas um sonho de uma noite de verão? A primeira coisa que esse ser imaginário teria de entender é que não somos um país navegando em mar sereno, rumo ao desenvolvimento e ao bem-estar, mas, bem ao contrário, um país que corre sérios riscos de retrocesso. E que os conflitos que hoje grassam na sociedade, e nos assustam, poderão piorar muito mais, alastrando-se e tornando-se muito mais violentos, se não lograrmos aumentar substancialmente o investimento e a taxa de crescimento da renda anual per capita, com uma melhor distribuição, vigorosamente reforçada por um sistema de ensino apresentável.

Mas a tragédia que nos espreita é muito maior do que o que me empenhei em esboçar no parágrafo anterior. Mais grave é Jair Bolsonaro não ter feito uma leitura correta do estado de alma dos brasileiros, fazendo pose de violento dia sim e outro também, quando o que dele se espera é uma postura comedida, um exemplo de que precisamos dar meia volta e retomar, não direi o espírito de uma sociedade sem conflitos, mas pelo menos o de um país com instituições civilizadas, pautadas por boas maneiras. Invocar Deus e a religião é direito de qualquer um, mas um homem público precisa primeiro perceber que a sociedade brasileira tem uma ordem normativa muito frágil.

Como indiquei acima, Jair Bolsonaro convive há cerca de três décadas com a classe política e a cúpula dos três Poderes. Esse convívio deve ter-lhe ensinado muita coisa, e o ministro Paulo Guedes deve ter preenchido eventuais lacunas. Ambos sabem que os altos escalões consomem cifras astronômicas, tornando inviável o ajuste fiscal e solapando as bases da legitimidade política que precisamos urgentemente reconstruir. A receita para isso não é ameaçar jornalistas. É enfrentar de rijo o problema, propondo reformas administrativas e políticas realistas, que precisam ser trabalhadas com calma e de forma objetiva. É manter a compostura e a serenidade que se requer de um chefe de Estado, reconduzindo a sociedade à trilha que ela parece momentaneamente haver perdido.

*SÓCIO-DIRETOR DA AUGURIUM CONSULTORIA, É MEMBRO DAS ACADEMIAS PAULISTA DE LETRAS E BRASILEIRA DE CIÊNCIAS

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