Dom Paulo e a teimosa esperança

Cardeal encorajou muitos a se empenharem na normalização da vida democrática no Brasil.

Dom Odilo P. Scherer, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2021 | 03h00

No dia 14 de setembro comemora-se o centenário do cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, 5.º arcebispo de São Paulo. Uma missa solene, na catedral metropolitana, abrirá este ano centenário, com muitos eventos já previstos. O lema, que consta no brasão episcopal de Dom Paulo – “de esperança em esperança” –, merece uma reflexão especial. Baseado na palavra de Deus, o lema é uma escolha pessoal do bispo e indica uma inspiração fundamental para sua vida e ação.

Dom Paulo escolheu esse lema quando foi nomeado bispo, em 1966. Foi imediatamente após o Concílio Vaticano II (1962-1965), cujas diretrizes trouxeram grande esperança e a promessa de uma nova primavera para a Igreja. Fazia-se necessária a renovação na cultura eclesiástica, ainda muito condicionada pelas circunstâncias vividas pela Igreja no século anterior. O anticlericalismo e as lutas antirreligiosas enfrentadas no século 19 haviam culminado com a perda dos Estados Pontifícios, enquanto se realizava o Concílio Vaticano I (1870). Na primeira metade do século 20, alastraram-se ideologias materialistas, que acabaram mergulhando a humanidade nas duas terríveis guerras mundiais e também levaram a dolorosas perseguições religiosas.

O magistério da Igreja havia feito severas críticas e desaprovações ao modernismo e ao racionalismo, avessos à dimensão religiosa da vida humana e social. E condenou com firmeza as ideologias materialistas, não apenas pelo seu cerceamento à liberdade religiosa, mas também por causa da violação sistemática de outros direitos humanos fundamentais. Superados os dramas da 2.ª Guerra Mundial, a humanidade queria paz e os povos ditos “do Terceiro Mundo” aspiravam à independência e a condições de vida dignas. Houve um esforço internacional para tecer novas relações entre os povos. A Igreja também passou a rever suas relações com o mundo.

O papa João XXIII convocou o Concílio com o propósito de deixar entrar ares novos na Igreja, fazendo-a passar de uma postura fechada e defensiva para uma atitude mais acolhedora e dialogante em relação à cultura, à ciência, à política e às religiões. Não é que ela tivesse abdicado de suas convicções, mas se dispunha a encontrar e ouvir mais, para perceber as razões das outras partes, que não eram, necessariamente, contrárias às suas. Propunha-se ela a somar com todos aqueles que buscassem sinceramente o bem da humanidade, ainda que as convicções fossem diferentes das suas. O início da Constituição Pastoral Gaudium et Spes, sobre a Igreja no mundo contemporâneo, expressou bem esta nova atitude da Igreja: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (GS 1).

Foi neste tempo novo, marcado por otimismo e esperança, que Dom Paulo foi consagrado bispo auxiliar de São Paulo, para atuar ao lado do cardeal Agnelo Rossi, então arcebispo metropolitano. Seu lema é inspirado na Carta aos Hebreus, no Novo Testamento da Bíblia, onde o autor exorta a comunidade cristã a perseverar na fé, sem esmorecer, “pois é fiel aquele que fez a promessa” (cf Hb 10,22-25). E exorta a superar o desânimo e a purificar a consciência das más intenções, incentivando ao amor fraterno.

Na fé católica, a esperança é uma das três virtudes basilares, junto com a fé e a caridade. Elas devem ser a marca característica do cristão. A esperança humana é importante, levando a uma atitude positiva diante da vida, desencadeando energias aptas para superar dificuldades e alcançar objetivos. A esperança leva a ter metas e capacita a buscar, com dedicação e paciência, a realização delas.

A esperança cristã nos projeta para além daquilo que, humanamente, seríamos capazes de alcançar. Sua base é a fidelidade de Deus, que promete e é “fiador” da nossa esperança (cf Hb 6,13). O objeto maior da esperança cristã são as promessas divinas, como a misericórdia, o perdão, a vida e a felicidade eterna. Esses bens, porém, não estão desvinculados das justas esperanças para esta vida: ao contrário, tornam-se fonte de dinamismo e paciente busca dos bens que expressam a dignidade, o valor e a beleza da vida neste mundo.

O lema de Dom Paulo mostrou-se cada vez mais inspirador com o passar dos anos. Em 1970, com apenas quatro anos de episcopado, o papa Paulo VI o nomeou arcebispo, conferindo-lhe o pastoreio de toda a metrópole paulistana. Na mesma época, São Paulo e o Brasil enfrentaram anos difíceis, durante os quais o arcebispo indicou caminhos de esperança e superação. Diante das situações aviltantes para a dignidade humana, Dom Paulo empenhou-se na realização de pequenas e grandes esperanças das comunidades da periferia urbana e do povo empobrecido. Movido pela mesma esperança, que não desilude (cf Rm 5,5), ele também encorajou muitos outros a se empenharem na normalização da vida democrática no Brasil. O Brasil segue precisando desta “teimosa esperança” ainda hoje.

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CARDEAL-ARCEBISPO DE SÃO PAULO

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