Dr. Watson no consultório? Então, o médico é Sherlock

O diagnóstico do olho clínico não tem formulação explícita, não há como descrevê-lo

Claudio de Moura Castro, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2021 | 23h55

Em tempos tão atrapalhados, quem sabe um passeiozinho pelo futuro, para mudar de ares? Naturalmente, não nos esqueçamos da sabedoria de Niels Bohr: as previsões são sempre muito problemáticas, sobretudo quando se referem ao futuro.

Como é fácil ver, a inteligência artificial (IA) avança célere, sem cerimônia e invadindo territórios sagrados. A medicina não escapa.

Com o aparecimento de big data na saúde, os computadores passam a engolir grandes volumes de informações. Eles decoram as estatísticas e os artigos científicos. E modelam diagnósticos do mundo real, por haverem observado o comportamento de médicos “de verdade”. Feito o “para casa”, estão prontos para dar seus palpites.

Para lidar com bactérias teimosas, aplicativos de IA conhecem muito bem os antibióticos e sua correta indicação para cada caso. Aliás, desde 1970 o software NYCIN já fazia isso melhor do que os médicos.

Para entender um raio X, a IA aprendeu com grandes radiologistas, estudando e memorizando milhares de diagnósticos. Quando perguntada, responde exatamente como fariam os seus ex-“professores” de carne e osso.

Diante disso, tudo indica que, no futuro, o médico jamais estará só. O seu consultório terá dupla ocupação: ele, de carne e osso, e outro, virtual, no computador. No fundo, a IA fala por um batalhão de outros colegas, plasmados nos seus aplicativos.

Chamemos esse médico virtual de Dr. Watson, em razão de uma coincidência bem curiosa. O Dr. Watson era o auxiliar inseparável de Sherlock Holmes. Estava sempre ao seu lado. Tinha os pés no chão e espírito prático. Em contraste, Sherlock especulava, explorava ideias pouco ortodoxas e imaginava cenários inverossímeis.

Mas vejam a coincidência: Thomas Watson foi o presidente da IBM que transformou uma empresa de mecanografia no gigante da informática. Merecidamente, seu nome foi dado ao programa de IA da empresa. Sendo assim, já que o computador é Watson, chamemos de Sherlock o médico vivo que estará na mesma sala. Os dois terão de dialogar e entender-se bem. Na prática, Sherlock não se deve meter onde são mais frágeis as suas qualificações. Deve agir nos espaços em que o Dr. Watson é ignorante.

O médico do futuro terá de conhecer bem a lógica e os algoritmos do Dr. Watson, sempre presente. A não se habituar a essa companhia, sua obsolescência acontecerá em ritmo assustador.

Como a memória da IA é virtualmente ilimitada, Watson guarda muito mais informações do que Sherlock. Nem pensar em competir com ele se a resposta está escrita em alguma parte. É estultice, pois Watson arquivou tudo o que se escreveu nos periódicos e conhece todos os protocolos de tratamentos. Seu diagnóstico vem célere e bem calçado nas boas práticas. A IA é imbatível nos conhecimentos médicos estruturados e plasmados na abundância de dados.

Felizmente para os médicos, seu mercado de trabalho não está perigando, pois em inúmeras dimensões Sherlock tem ampla superioridade. Valendo-se do seu julgamento, decidirá quando delega o diagnóstico para o Dr. Watson e quando age pela sua cabeça.

Como em outras profissões, os médicos possuem competências que não estão nos livros. D. Schoen chama-as de “conhecimento tácito”. Como se trata de algo que não foi sistematizado, definido e escrito com rigor, está fora de alcance do Dr. Watson. Olhar para um paciente e achar que vai enfartar é coisa para o Sherlock, com seu “olho clínico”.

Para definir seu espaço operacional Sherlock precisa de imaginação, percepção e intuição. São frutos da experiência cotidiana que acumulou. O diagnóstico do olho clínico não tem formulação explícita, não há como descrevê-lo com palavras ou números. Paira no meio do caminho, entre o paciente e a clareza da teoria.

Sherlock tem de duvidar dos dados, dos exames, da anamnese e dos diagnósticos. A dosagem saiu com a vírgula no lugar errado? O computador não capta o engano. Mas o bom clínico fareja logo que alguma coisa está mal. Grandes médicos percebem sintomas que desafinam do quadro geral e estão prontos para revisar suas hipóteses. Sua plasticidade contracena com os raciocínios rígidos e probabilísticos de Watson.

E não é só isso, o médico precisa entender os problemas do paciente, seus dramas, seus pavores e suscetibilidades. Ele é um pouco de pajé, de padre, de psicólogo e mãe. Seu suporte emocional pode ser tão importante quanto os fármacos que receita. É vital a sua capacidade de empatia e de comunicação emocional. Deve ter uma visão de como a máquina humana, misteriosamente, se acopla à sua alma. Os detalhes técnicos, Watson os terá com mais rapidez e exatidão.

Sherlock não vai ficar obsoleto. E será leviano e atrasado dispensar o Dr. Watson que conhece todos os protocolos estabelecidos na medicina, embora seja curto de bom senso, imaginação e empatia. E para complicar o quadro, um protagonismo maior do próprio paciente se instala insidiosamente na medicina. Serão três médicos!


M.A., PH.D., É PESQUISADOR EM EDUCAÇÃO

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