Dramas atrás dos números

Pobreza e violência são agravadas pela covid-19, que fez muitos perderem as suas fontes de renda

Dom Odilo P. Scherer*, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2020 | 03h00

Notícias recentes vindas da província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, dão conta de um drama vivido pela população local, acuada por ataques terroristas. Aldeias e casas são queimadas, plantações, devastadas e muitos sofrem violência e morte. Aterrorizadas, as pessoas fogem para as cidades, na esperança de encontrar acolhida e segurança.

A cidade de Pemba, com cerca de 250 mil habitantes, recebeu em poucos meses mais 200 mil prófugos, acolhidos e abrigados só Deus sabe como. Não há como atender adequadamente a população de uma cidade que, em poucos meses, dobra de número! 

A ajuda, na maior parte dos casos, é prestada de maneira espontânea por famílias e organizações da sociedade civil, que partilham o que têm e providenciam, ainda que de maneira precária, o básico do básico: abrigo e alimento. É fácil imaginar os riscos para a saúde pública e a segurança.

A covid-19 também chegou lá. No entanto, conforme observação de um missionário local, essa é apenas uma preocupação secundária para o povo desalentado.

Haveria motivos minimamente aceitáveis para submeter a população indefesa e pobre a tamanhos sofrimentos? E os olhos das organizações internacionais, em geral, ainda não se voltaram para esse drama do povo moçambicano.

Não é a única situação do mundo em que as populações sofrem com a insegurança provocada por conflitos internos, ou por interesses externos inescrupulosos, convivendo diariamente com a precariedade de recursos para dar conta do essencial para sobreviver. Na mesma África existem diversas outras situações semelhantes.

Mas não se pode esquecer que também na Síria e em outras áreas do Oriente Médio populações inteiras se deslocaram para escapar da brutalidade da guerra. O Líbano abriga há várias décadas um grande número de deslocados de países vizinhos, a ponto de também ter sido envolvido em conflitos externos.

Há igualmente muitos deslocados nas Américas Central e do Sul, que se deslocam para áreas capazes de alimentar sua esperança de um futuro mais tranquilo. As situações de pobreza e violência foram agravadas com a pandemia de covid-19, que levou muitos a perderem sua fonte de renda.

Esse drama também é vivido bem perto de nós, em São Paulo, pela população que vive em situação de rua. Aos que já se encontravam nessa condição há mais tempo se somaram muitos outros, que alongam as filas em busca de ajuda, sobretudo o alimento diário, nas obras e iniciativas assistenciais. E também os que perderam a capacidade de custear o aluguel de sua moradia, vindos também de outras regiões.

De repente, a cidade se dá conta da população invisível, que vive precariamente em cortiços e alojamentos improvisados, sem trabalho, sem renda nem segurança e também sem políticas para lhes oferecerem alternativas e esperança de vida digna.

O papa Francisco abordou recentemente o drama, “muitas vezes invisível, dos deslocados internos”, num discurso para o corpo diplomático acreditado junto à Santa Sé. E voltou ao mesmo tema na sua mensagem para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, a ser celebrado em setembro. A atenção do pontífice volta-se especialmente para os “deslocados internos” nos diversos países, que vivem muitas experiências de precariedade, abandono, marginalização e rejeição, por causa da covid-19.

Em sua mensagem para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado de 2018, Francisco já havia recomendado uma atenção especial a essa população, mediante quatro ações: acolher, proteger, promover e integrar. Agora, referindo-se aos “deslocados”, ele recomenda seis atitudes: conhecer, para compreender; aproximar-se, para servir; reconciliar-se, para escutar; crescer, para partilhar; envolver-se, para promover; colaborar, para construir. Essas atitudes sugerem a superação da insensibilidade e da cultura da indiferença diante da dor alheia e o envolvimento pessoal de cada pessoa com o drama vivido pelo outro.

Se é verdade que cada cidadão deve fazer a sua parte para ajudar o próximo que sofre, nem por isso o papa deixa de apelar às autoridades e aos responsáveis pelos governos para que façam o possível para aliviar o sofrimento dessas populações invisíveis, que agora aparecem cada vez mais nas praças e calçadas de nossas cidades. E fala da necessidade de um renovado esforço para a cooperação internacional, a solidariedade global e o compromisso local, que não exclua ninguém. São palavras mais do que oportunas para este tempo, quando muitos especulam sobre as mudanças que a pandemia de covid-19 poderá trazer para a nossa vida pessoal e social e também para a vida política e econômica.

Todos os dias se reportam números e mais números de contagiados e falecidos por causa do novo coronavírus. Mais uma vez, o papa adverte que não se trata números, mas de pessoas, com rosto e histórias pessoais. As estatísticas não devem levar a esquecer o drama de cada pessoa, mas mover para atitudes que renovem os rumos de nossa História comum.

* DOM ODILO P. SCHERER É CARDEAL-ARCEBISPO DE SÃO PAULO

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