Duas faces do populismo, Berlusconi e Bolsonaro

Cabe a cada um de nós aprender com a História e, unidos, proteger os valores democráticos

*Maria Cristina Pinotti, O Estado de S. Paulo

19 de agosto de 2020 | 03h00

Antes de chegar ao fim de três anos de funcionamento pleno, a Operação Mani Pulite foi abortada pela reação do sistema político, comandada por Silvio Berlusconi. Empreiteiro envolvido em casos de corrupção, admitia publicamente que se não entrasse na política seria preso e suas empresas quebrariam. Criou um partido, a Forza Italia, prometendo acabar com a velha política e lutar contra a corrupção. Fez o oposto.

O Parlamento encarregou-se de afrouxar as leis, dificultando a identificação e punição de atos de corrupção. E a imprensa cuidou de disseminar uma incansável campanha contra o Judiciário.

Depois de muito vasculhar a vida e o desempenho de todos os magistrados responsáveis pela Operação Mani Pulite, nenhum motivo para punição foi encontrado. Restou aos detratores o exercício da maledicência e à Justiça, o custo do enorme descrédito pela impunidade dos crimes revelados, situação presente até hoje. 

A tolerância com a corrupção na Itália é fato conhecido, e a fragilidade do rule of law dificulta a sua relação com os pares na União Europeia. O ambiente de impunidade fomentou o outro lado da moeda da corrupção, que é o crime organizado, lá representado pelas várias máfias que, paralelamente à Cosa Nostra, se fortaleceram e se espalharam pelo país, como a Mafia Capitale e a Ndrangheta, entre outras. Os gastos com a pandemia têm sido um campo fértil para o oportunismo desses grupos.

Na comparação com os exemplares atuais, Berlusconi aparece como um populista açucarado do século passado, mas nem por isso menos perigoso. Não dividiu nem armou a sociedade, mas ensinou, com seu próprio exemplo, que não vale a pena ser honesto e que as regras e leis não valem para todos. Como descreve Beppe Severgnini (La Pancia degli Italiani – Berlusconi Spiegato ai Posteri) o cavaliere era machão quando se encontrava com Vladimir Putin, gentil quando estava com Angela Merkel, conservador com George W. Bush, liberal com Barack Obama, europeu em Bruxelas, eurocético em Londres, jovem entre os jovens, sábio entre os idosos. Com a mesma desenvoltura ia às missas e promovia festas “bunga bunga”, admitindo ser fiel “frequentemente”. Bilionário, reclamava dos impostos na TV como amigos fazem num bar. Seduzia as pessoas com gracejos, casos e piadas, mostrando enorme tolerância com as fraquezas e os erros humanos. Foi eleito em 1994, 2001 e 2008 com um discurso populista edulcorado, prometendo construir um país moderno e dinâmico, onde todos teriam oportunidade de vencer na vida, como ele. 

Enfrentando denúncias de crimes sexuais, corrupção e sonegação, e descrédito internacional, foi apeado do poder em 2011, com a providencial ajuda de líderes europeus durante a crise de 2011. Cumpriu um ano de pena por fraude fiscal prestando serviço social e responde a vários processos por corrupção.

Os efeitos do afrouxamento institucional por ele comandado ainda cobram preço elevado. A economia italiana desacelerou desde a metade dos anos de 1990 e entrou em estagnação, com queda na produtividade, apesar de grandes investimentos públicos. Obras eram escolhidas não por serem necessárias, mas para renderem maior volume de propinas; as necessárias eram superdimensionadas, feitas a custos várias vezes maiores que os de outros países europeus. Empresários condenados pela Mani Pulite escaparam das penas pela mudança nas leis e voltaram a se envolver com corrupção, protegidos pela impunidade. Leis sob medida criaram um sistema tributário pouco transparente, complexo e ineficiente, que incentiva a evasão, a busca de privilégios e perdões tributários, reduzindo a qualidade dos serviços públicos.

Berlusconi provocou forte desgaste na imagem da Itália, que hoje tem a grande chance de recuperar um papel de destaque na Europa. O teste do enfrentamento da pandemia foi vencido com louvor tanto por Giuseppe Conte, o premiê italiano, como pelos líderes da União Europeia, que conseguiram vencer as resistências internas e aprovar um generoso plano de ajuda de € 750 bilhões, esvaziando o discurso eurocético da direita. Os investimentos públicos financiados pelo fundo serão acompanhados por Bruxelas, trazendo uma oportunidade para que as leis de concessões e de obras públicas sejam aprimoradas. 

Bolsonaro, também eleito prometendo combater a corrupção e a velha política, vem comandando uma onda de ataques à Lava Jato, depois de selado seu acordo com o Centrão. Poupo os leitores do desprazer de uma descrição das ações e modos de Bolsonaro. Infelizmente, eles estão no nosso dia a dia, na lista de mortos pelo novo coronavírus, no desacato às instituições, no deboche à educação, à cultura e à ciência. Tanto um populista sedutor e carismático como Berlusconi, ou acintosamente cruel como Bolsonaro, podem agir como cavalos de Troia, que se aproveitam da democracia para subjugá-la aos seus interesses pessoais. Cabe à cada um de nós aprender com a História e resistir, unidos, protegendo os valores e as instituições democráticas. 

 

*ECONOMISTA

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