Dúvidas e esperança

Apenas com uma democracia revigorada será possível pensar em um Estado que defina políticas estratégicas para o País

Marco Aurélio Nogueira, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2022 | 03h00

O ano novo veio à luz carregando um fardo de problemas para os brasileiros. Era de esperar.

A variante Ômicron da covid fez a pandemia repicar, embalada pelo réveillon e por sua própria ferocidade. Acredita-se que o pior pode ter passado, mas o que restou ainda é ameaçador. O recrudescimento viral é preocupante. Tocar a vida com menos medo e mais segurança, seja em que área for, parece ter se tornado uma das principais aspirações de 2022. 

O repique pandêmico escancara a incapacidade do governo brasileiro de responder aos efeitos do vírus. Por tática ou burrice, o governo olha a pandemia com desdém. Alguma coisa acontece, porém, graças à pressão de prefeitos e governadores, da opinião pública, de agências e instituições estatais. A intenção governamental não é cuidar, mas tumultuar. Sua atuação é pilotada por um Marcelo Queiroga desprovido de autonomia, postura cívica e perfil público. Prolonga-se o desastre. 

Some-se a isso a desorientação governamental em política econômica. Inflação, desemprego e baixa atividade produtiva combinam-se com a falta de critérios fiscais e tributários, com os ataques estapafúrdios ao teto de gastos e a distribuição de benesses a amigos e aliados. O cenário é preocupante pelos efeitos de curto prazo e para o que virá à frente: quanto mais tempo se perder, mais difícil será a retomada a partir de 2023, efeito bola de neve fácil de prever.

No terreno político, o ano vem embrulhado para presente. Eleições sempre trazem esperança: redesenham o futuro, abrem a possibilidade de mudança. Bastaria que se elegesse um governo que combine ativismo técnico-administrativo com bom senso e esforço de construção democrática, que respeite a Constituição e ajude a reformar o indispensável. O País necessita ser tratado como um universo repleto de carências e potencialidades. Pacificado, após quatro anos de destruição institucional e tensão.

O que parece fácil de imaginar é difícil de ser construído. A política não saiu da letargia e da crise em que se encontra. Partidos mal aparelhados, candidatos sem foco claro, egoísmos e cálculos tópicos espalhados por todos os cantos, crenças ingênuas de que a mudança de governo pode advir de meros atos de vontade. Há preocupação em ganhar visibilidade, desinteresse em formular programas que tirem o País do buraco.

O futuro que merecemos passa por uma convergência democrática que garanta não a conquista do poder, mas a formação de um governo que governe e cuide do País. Projetos e ambições particulares (de pessoas ou partidos) precisariam ser arquivados temporariamente. A convergência seria uma barca na qual se acomodassem todos os democratas, dos partidos de esquerda à direita civilizada, dos liberais aos socialistas. O País só avançará, no pós-Bolsonaro, se houver uma suspensão das disputas fúteis por poder e protagonismo, uma superação dos privilégios corporativos, uma ênfase no combate à desigualdade. 

2022 poderá representar o retorno de Lula. As pesquisas que inflam seu nome sugerem que sua candidatura é irremovível e se projeta como vitoriosa. Mas as águas não param de correr e a disputa, a rigor, ainda não começou. A depender das batalhas que terá de travar, dentro e fora do PT, Lula poderá desidratar um pouco. Afinal, Bolsonaro é um fracasso como presidente, mas não está morto. O centro democrático se movimenta com lentidão e sem direção clara, mas tende a encorpar. Um segundo turno poderá impulsionar a convergência democrática, que viabilize a construção de um governo com musculatura técnica, apetite reformador, foco estratégico e planejamento de longo prazo, assentado em um ministério plural composto por quadros competentes e “despartidarizados”. Lula poderia ser, nele, uma espécie de joia da coroa, assim como os demais líderes que se qualificarem durante a disputa presidencial.

É um equívoco achar que Lula é imbatível, ou que seu governo, caso venha a ser eleito, será autossuficiente e promoverá “rupturas” sem concessões e sem moderação. Necessitará de acordos e negociações, e será melhor para todos se essa necessidade for compartilhada com os democratas, não com os “fisiológicos”. O entorno de Lula tem ingredientes tóxicos, desejosos de um acerto de contas, refratários a pactos e composições consistentes. Como serão processados? Lula permanecerá se equilibrando entre “revanchistas” e “pacificadores”? 

Não sabemos se haverá um centro ativo e um conjunto de lideranças propensas a convergir democraticamente em nome do futuro. Proclamamos sua necessidade, mas não temos como descortinar, agora, os rumos que a política tomará ao longo do ano. 

Os anos pandêmicos estão mostrando que somente com uma democracia revigorada será possível pensar em um Estado inteligente, regulador e não empresarial, que defina políticas estratégicas (a saúde e a educação antes de tudo) e trabalhe para inserir o Brasil no mundo como um player importante da convivência pacífica entre as nações, do combate à crise climática, de um novo modo de viver e conviver. 

Empenhemo-nos por ela. 

PROFESSOR TITULAR DE TEORIA POLÍTICA DA UNESP

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