E a Argentina?

Inflação entre 30% e 40% ao ano e volta dos temores de explosão de preços... Uma tragédia!

Fabio Giambiagi, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2020 | 03h00

Um ano após as eleições que consagraram o retorno do peronismo, na Argentina, é útil fazer uma avaliação do que aconteceu desde a posse do novo presidente. Como ficou o país? Concretizaram-se os temores que o mercado tinha acerca da adoção de políticas tidas como populistas? Qual o efeito da pandemia? Vejamos os pontos mais relevantes.

Ao assumir, o governo tinha quatro grandes desafios imediatos no front econômico: 1) renegociar o acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), mas procurando evitar qualquer percepção política de ingerência da instituição na política econômica do país e, ao mesmo tempo, em termos que fossem aceitáveis pelo seu board; 2) obter um acordo de renegociação da dívida externa, após uma forma branda de moratória – a quarta em quatro décadas, uma espécie de recorde mundial; 3) recuperar o crescimento econômico, após uma gestão do governo de Mauricio Macri, nesse aspecto, inequivocamente negativa, com encolhimento do produto interno bruto (PIB) em três dos quatro anos de mandato; e 4) combater a inflação, inicialmente da ordem de 55%. A esses desafios o novo governo adicionou no começo de sua gestão mais um: a administração do congelamento de tarifas de diversos serviços públicos entre quatro e seis meses, algo que sempre causa enorme distorção de preços relativos e cuja implementação traz embutido um enorme problema, que é como sair do congelamento sem causar nova explosão dos preços.

Como é que o governo agiu diante dessas questões? No caso das negociações com o FMI, o presidente Alberto Fernández e o ministro Martin Guzmán, da Economia, conseguiram passar no Congresso, no começo do governo, um ajuste inicialmente bastante duro, recebido como uma boa surpresa por quem se preparava para uma política fiscal expansionista. Isso pavimentou o terreno para conversas favoráveis com o Fundo.

Em relação aos credores, a lógica do governo era a mesma que com o FMI: “chutar pra frente” os vencimentos, evitando que a Argentina tivesse de ser compelida a utilizar recursos expressivos no pagamento do serviço da dívida e tentando refinanciar o principal durante alguns anos, partindo do pressuposto de que o financiamento voluntário ao país seria, para utilizar um termo benigno, escasso.

No que tange ao nível de atividade, o país basicamente tinha mergulhado no “modo espera” logo depois das primárias de agosto de 2019, que prenunciaram a vitória do peronismo, de modo que todos reivindicavam um “plano econômico consistente e integral” para ter a confiança necessária a fim de poder tomar decisões de maior peso na economia.

Finalmente, a forma de combate à inflação foi a adoção do citado congelamento parcial de tarifas, em conjunto com o controle de preços nos supermercados, por meio do programa Precios Cuidados, que lembra muito os tempos dos famosos “fiscais do Sarney”, no Brasil dos anos 80 do século passado. São formas toscas de atacar as consequências, e não as causas do fenômeno, cuja eficácia se esgota rapidamente, como sabemos pela nossa triste experiência na matéria.

O problema de toda a estratégia é que ela foi atropelada pela pandemia. E embora as negociações com o FMI transcorram até agora com certa normalidade e o acordo com os credores tenha sido fechado, o fato é que a realidade do país é dramática, combinando três elementos: 1) uma crise sanitária terrível, com escalada dos óbitos pelo coronavírus muito mal administrada pelas autoridades; 2) um lockdown inacreditavelmente longo, que causará uma das maiores quedas do PIB em todo o mundo; e 3) uma crise política beirando o absurdo, com o poder nas mãos da vice-presidente Cristina Kirchner, diante da qual a figura do presidente se foi apequenando progressivamente, afundando em paralelo seus indicadores de popularidade.

Cristina cedeu a “Alberto” a cabeça de chapa com a percepção – correta – de que com isso o peronismo poderia ampliar o eleitorado, como de fato acabou acontecendo. O problema é que, como é reconhecido hoje unanimemente em todo o país, o que funcionou como uma eficaz coalizão para ganhar as eleições – a soma do kirchnerismo “duro” com parte do eleitorado de centro que via em Fernández uma expressão de moderação – está se revelando uma coalizão de governo desastrosa em termos operacionais.

Em resumo, depois da hiperinflação de Alfonsín, da convertibilidade fracassada de Menem e do ciclo kirchnerista que “surfou” no boom das commodities, para acabar num festival de controles, o país é a velha Argentina, com uma inflação anual entre 30% e 40% e ressurgimento dos temores de uma aceleração explosiva do aumento dos preços. Isso lembra a frase de Jorge Luis Borges de que “os peronistas no poder não são nem bons nem ruins: são incorrigíveis”. Com uma recessão brutal, o dólar em disparada, um presidente inapetente para a gestão e um governo ao qual falta transitar ainda por 75% do mandato, não é de estranhar que tantos argentinos – particularmente empresários – procurem o Uruguai como refúgio para viver, com nova nacionalidade e domicílio fiscal.

É uma tragédia.

ECONOMISTA

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