...e não acontece nada

No 7 de Setembro, a democracia brasileira apanhou, calada, de forma humilhante.

Eugênio Bucci, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2021 | 03h00

Podem dizer que, depois dos comícios golpistas de anteontem, o presidente da República encolheu. Podem dizer que ele se isolou ainda mais ao bradar que não vai mais cumprir determinações do Supremo Tribunal Federal. Podem dizer que empregou indevidamente recursos públicos, como aviões e helicópteros, para promover atos de caráter anti-institucional e antioficial. Podem dizer que seus pronunciamentos incendiários e arruaceiros fazem dele mais um chefe de gangue do que um chefe de Estado. Podem dizer que, em Brasília e, mais ainda, em São Paulo, ao conclamar a audiência a xingar o Judiciário e ao chamar de “farsa” o sistema eleitoral brasileiro, ele incorreu numa conduta de legalidade, no mínimo, duvidosa. Podem dizer que o governante lancinante, ao agir como agiu, perdeu apoios entre parlamentares e até mesmo entre os donos do dinheiro. Podem dizer que o beócio comparecimento dos canarinhos fascistinhas não foi espontâneo, mas anabolizado pelos latifundiários desmiolados – de zonas rurais ou urbanas, tanto faz –, que cederam caminhões, lanchinhos e faixas propondo golpe de Estado em letra de forma, em inglês e português (ruim). Podem dizer que o presidente da República, sem máscara, no meio da aglomeração de suas plateias de aluguel e de seus aduladores de boné, também sem máscara e sem dignidade, atentou contra a saúde pública. Podem dizer que o vice-presidente e os ministros empertigados no palanque assumiram que são cúmplices deste crime em progressão desordenada.

Podem dizer tudo isso e, se disserem, não estarão mentindo. O presidente saiu do Sete de Setembro menor do que entrou, é fato. Sua malignidade intencional nunca esteve tão evidente. Depois de mais esse acesso antidemocrático, inviabilizou-se ainda mais. Suas investidas autoritárias perderam efetividade. Mesmo assim, no entanto, mesmo tendo gerado fraqueza ao tentar exibir força, o que aconteceu no Brasil no feriado que deveria festejar a independência nacional foi uma surra no Estado Democrático de Direito. A democracia brasileira apanhou de forma humilhante, foi insultada em praça pública, sofreu enxovalhos que não merecia, calada.

Então, a gente se pergunta: como pode isso? Como pode um presidente da República fazer o que faz este que está aí? A nossa democracia já não se respeita? Quando foi que passamos a engolir um chefe de Estado que vai para o meio da rua, sobe num carro de som e chama de “canalhas” os representantes de outro Poder? O que houve com os tais líderes da sociedade civil que olham para isso e fazem cara de “as instituições funcionam normalmente”? A nossa coluna vertebral cívica virou água de esgoto?

A medida do escândalo não está mais nas alturas atingidas pelo volume das afrontas do chefe do Executivo, mas nos abismos a que se rebaixa o cinismo do tal do “campo democrático”. Um dia, se nos restarem dias, cobriremos o rosto de vergonha só de pensar no que está acontecendo hoje. Como deixamos que o dito capitão ficasse tanto tempo no cargo, praticando diariamente crimes de responsabilidade e destroçando vidas e direitos?

Não nos esqueçamos: Dilma Rousseff foi destituída em nome de umas tais “pedaladas fiscais” que nenhum administrativista conseguiu explicar direito e nenhum cidadão conseguiu entender; nem os parlamentares que votaram pelo impeachment de 2016 entenderam aquilo lá. Agora, o atual presidente fala atrocidades várias vezes por dia e nada acontece. Este é o pior de todos os escândalos: nada acontece.

O Brasil, que antes era um coro ensaiadinho contra a impunidade dos corruptos, descambou numa gosma afeita à impunidade dos que bombardeiam o edifício inteiro da Justiça. O mesmo país que buscava aumentativos implacáveis para execrar a corrupção de ontem (“mensalão”, “petrolão”) agora se resigna ao diminutivo afetivo para tolerar novos crimes. Dizemos “rachadinhas”, mesmo sabendo que elas ocorrem em escala industrial, com milicientas engrenagens engraxadas de sangue.

O Brasil só tem uma saída: votar o impeachment de Bolsonaro. Não se pode contemporizar com o desgoverno do morticínio, da inflação, do desemprego, da seca, do apagão, do negacionismo e do culto das armas e da violência. Os setores de oposição que querem o presidente na função até 2022 porque avaliam que, contra ele, será mais fácil vencer nas urnas precisam entender que a democracia vale mais que um cálculo eleitoral mal feito. O pessoal da dita “terceira via”, que só tem chance de ir para o segundo turno se Bolsonaro estiver fora do páreo, precisa exigir o impeachment já, mas não por uma agenda interesseira. Chega de esperteza suicida.

Ou o tal do “campo democrático” mostra a cara e se une, da direita à esquerda, para convocar atos públicos unificados pelo impeachment, ou talvez não sobre democracia em 2022. Democracias morrem também de morte morrida. Quando o tal do “campo democrático” decide aceitar o inaceitável, a democracia começa a morrer. Se não fizermos nada, o Sete de Setembro do ano que vem será pior.

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JORNALISTA, É PROFESSOR DA ECA-USP

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