Economia de carbono neutro: o futuro do País

O Brasil pode, depressa e em grande escala, reflorestar para empregar madeira em atividade econômica e fixar carbono, e receber créditos por isso

Luiz Felipe D'Ávila, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2021 | 03h00

O mundo está sendo redesenhado muito depressa. Desta vez, numa direção que favorece nosso país acima de todos os outros no planeta. Uma janela curta, que até agora vem sendo ignorada. Como pré-candidato do partido Novo à Presidência da República, vou lançar uma proposta para tirar a Nação do atoleiro em que foi jogada pela prevalência do jogo ideológico do século passado e levá-la para o caminho da economia de carbono neutro.

O mundo do futuro combina metas restritas para a sobrevivência de uma natureza saudável com o desenvolvimento de novas tecnologias, capazes de dar conta dessa combinação gerando emprego e renda. As fontes renováveis de energia são apenas as faces mais visíveis dos resultados da nova economia. Começadas como um esforço de mudança derivado das necessidades ambientais, elas estão se impondo porque alcançaram uma competitividade de custos capaz de tornar pouco rentáveis os já pouco atraentes investimentos em energia fóssil. Em apenas dois anos, entre 2019 e 2021, o balanço dos investimentos de capital globais em energia mudaram radicalmente. A fatia das renováveis passou de 30% para 45% do total neste curto período. Em dinheiro, de US$ 180 bilhões para US$ 250 bilhões. Solar e eólica, as novas fontes muito eficazes economicamente, crescem de participação no mercado em velocidade altíssima. Estamos décadas na frente da concorrência nesse quesito. E vamos acelerar. Meio ambiente muito melhor, mercado muito maior, esse é o movimento central da economia de carbono neutro.

Mercado e meio ambiente, esse o novo modo de organizar a economia. Visto sob esse prisma, o futuro do Brasil é promissor. O começo de tudo são metas nacionais rigorosas para carbono neutro, com datas e cronogramas – para a combinação de mercado crescente e ambiente preservado. Essa mudança no modo de planejar o governo começou em dezembro de 2019, na União Europeia. Desde então, quase todos os países fixaram uma meta de carbono neutro em 2050 – a exceção é a China, que cravou 2060. Em todos esses países, o procedimento básico para chegar lá é o mesmo: garrotear o uso de combustíveis fósseis, mudar a infraestrutura de distribuição de energia, taxar a emissão de carbono e usar o dinheiro para acelerar a mudança. Isso é assim porque todos esses países têm uma matriz energética com um nível de fósseis em torno de 80% do total, além de pouca ou nenhuma capacidade para capturar o carbono que emitem – o método tecnologicamente mais eficaz para isso ainda é antigo como a natureza: árvores em crescimento fixam carbono para moldar seus troncos.

Neste contexto, o Brasil tem possibilidades maiores do que qualquer outro país no mundo. Para isso, a cegueira trazida pela ideologia precisa acabar. Na arcaica visão do governo Bolsonaro, meio ambiente melhor é sinônimo de atividade econômica restringida. Progresso se faz apenas com a destruição da natureza. Mercado sem meio ambiente. Na arcaica visão da esquerda, atividade econômica é igual a destruição ambiental e mercado e capitalismo são os vilões que destroem a natureza. Por isso defendem uma política de preservação ambiental que é igual ao combate ao capitalismo como um todo.

Onde o País falha? As emissões de carbono brasileiras estão ligadas ao ato de queimar inutilmente florestas (emitimos muito carbono com isso) e não tomar os devidos cuidados com o manejo das áreas já desflorestadas. Enquadrar esse desastre na economia de carbono neutro vem a ser o grande caminho para o futuro do País, aquele que será tenazmente perseguido por um Brasil capaz de conciliar meio ambiente e mercado.

O primeiro ato vem a ser o de combater duramente o desmatamento, especialmente na Amazônia. A conta na direção da economia de carbono neutro melhora com esse ato, mas não será essa a mudança maior. Vamos implantar no País um programa que só o Brasil pode fazer em todo o planeta: reflorestar, tanto para empregar madeira em atividade econômica quanto para fixar carbono, recebendo com justiça os créditos que o mundo tem para financiar essa atividade. O Brasil vem a ser o único país do planeta que pode fazer isso depressa e em grande escala. Por isso o movimento vai atrair capitais mundiais. E tudo isso sem mexer em um milímetro de terras produtivas. As florestas naturais ficam onde estão. As novas florestas ocuparão uma fração dos 50 milhões de hectares de terras consideradas degradadas, aquelas nas quais a cobertura original foi destruída e hoje não são aproveitadas economicamente.

Essas terras estão espalhadas por praticamente todo o território nacional. O emprego delas para a captura de carbono por árvores vai ser a atividade por excelência para o Brasil montar sua estratégia de carbono neutro, criar empregos em massa para populações de menor renda e aumentar a riqueza. Aquilo que as grandes economias do mundo querem para 2050 o Brasil vai ter ainda na década de 2030. Com a diferença de que, em nosso país, mercado e meio ambiente serão sinônimos muito mais fortes que no restante de um planeta renovado.

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CIENTISTA POLÍTICO, É AUTOR DO LIVRO ‘10 MANDAMENTOS – DO BRASIL QUE SOMOS PARA O PAÍS DE QUEREMOS’

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