Educação como motor de uma nova história

Só a ação política republicano-democrática e equilibrada pode promovê-la e incentivá-la

Paulo Hartung*, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2019 | 03h00

A distinção humana entre os seres viventes, como descreveu Hannah Arendt, é a vida do espírito (“the life of the mind”), conformada pelas faculdades do “pensar, querer e julgar”. Tais potencialidades nos conectam e nos mantêm, ou não, na contingência do humano, condição a que apenas nascemos devotados, mas não necessariamente obrigados. Elas alcançam, por meio da ação, desde o mundo do sujeito em si (o que sou, quero e devo ser) até a inter-relação deste com os outros (o que somos, queremos e devemos ser).

A educação, dinamizada pela produção, difusão e constante teste crítico, científico e racional de ideias, saberes e conhecimentos, é a via régia por meio da qual nossas faculdades humanizantes se podem colocar em favor da construção e evolução do desenvolvimento sustentável destinado à geração de prosperidade e de bem-estar de forma crescentemente inclusiva, em ambiente de igualdade, fraternidade e liberdade, nos marcos da diversidade humana.

A despeito dos gigantescos desafios e das incontáveis limitações impostas ao processo civilizatório brasileiro, situação ainda mais agravada nestes tempos de assustadores desapreços à educação, o Brasil tem constituído exemplos vanguardistas nessa área, tendo em vista o incremento socioeconômico e político-cultural, com autonomização cidadã de nossas populações, especialmente as juventudes.

Uma das ferramentas disponíveis para a melhoria da educação é o planejamento estratégico. Também por seu uso intensivo, à frente do governo do Estado do Espírito Santo, seguimos esse norte na elaboração e implementação de políticas públicas estruturantes e inovadoras (Escola Viva, de educação integral em tempo integral; Pacto pela Aprendizagem no Espírito Santo, de regime de colaboração entre o Estado e os municípios; Jovem de Futuro, em parceria com o Instituto Unibanco, etc.).

Entre outros, o Espírito Santo passou a ter o melhor ensino médio do Brasil, segundo o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) divulgado ano passado. Considerando apenas a rede pública, subimos da 11.ª posição em 2013 para a 2.ª em 2017. Alcançamos a melhor proficiência em Língua Portuguesa e Matemática no ensino médio, conforme o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb).

Nessa mudança de paradigma, buscamos inspiração em experiências consagradas, como a educação integral em tempo integral, desenvolvida pela Secretaria da Educação de Pernambuco e pelo Instituto de Corresponsabilidade pela Educação, e o Programa de Alfabetização na Idade Certa, adotado pelo Ceará, a partir da experiência de Sobral, ambas oriundas de efetivos processos de planejamento estratégico.

A educação sempre foi e continua sendo a minha maior aposta para a transformação cidadã da realidade, tendo como norte a equidade e a sustentabilidade. Atualmente, além de fazer inúmeras palestras e participar de debates em todo o País, contribuo com o Movimento Todos pela Educação e, a convite do Instituto Ayrton Senna, integro o Conselho Consultivo de Educação do Estado de São Paulo.

Assim, tive a alegria de participar do planejamento estratégico da educação do Estado de São Paulo, que estabeleceu como missão “garantir a todos os estudantes aprendizagem de excelência e a conclusão de todas as etapas da educação básica na idade certa”, sob os valores de “foco na aprendizagem, equidade, gestão baseada em evidências, ética e transparência, inovação e colaboração”, e projetos prioritários nas áreas de “aprendizagem, pessoas e gestão”. A visão de futuro (2030) é “estar entre os sistemas educacionais do mundo que mais avançam na aprendizagem”, por meio de uma estratégia de educação voltada para o século 21, valorização dos professores, gestão profissionalizada, qualificação de gastos e eficiência operacional.

Como fizemos no Espírito Santo, São Paulo aposta na educação integral em tempo integral. E avança ainda mais, com a educação integral em tempo parcial, ampliando a permanência dos alunos em 15 minutos em cada turno, de cinco horas para cinco horas e 15 minutos. Assim, serão oferecidas sete aulas diárias e 35 aulas semanais, sendo acrescidas semanalmente duas aulas de projeto de vida, uma aula de tecnologia e duas aulas de disciplinas eletivas, como eixos do desenvolvimento socioemocional dos estudantes, contemplando escolhas dos alunos, estimulando a criatividade dos professores e capacitando a juventude a tornar-se cada vez mais protagonista de sua vida pessoal e coletiva.

A educação é a base e o motor da mudança de verdade e só a ação política republicano-democrática e equilibrada, conduzida com os pés bem firmes no chão concreto da realidade e a partir de olhares lúcidos, racionais e inclusivos, pode promovê-la e incentivá-la no rumo do desenvolvimento socioeconômico sustentável e equitativo.

Para finalizar, voltemos a Hannah Arendt, que introduziu esta conversa sobre o valor da educação e o uso do planejamento estratégico em sua condução. Segundo a pensadora, a política representa antes de tudo a liberdade para transformar a vida, para recriar a existência, garantindo sempre as condições históricas para um novo início. Assim, diante dos desafios, não importando sua complexidade, os seres humanos terão sempre a possibilidade de fazer o novo, de se reinventar pela ação política.

É exatamente o que mais precisamos: um efetivo novo início para o Brasil. Conquista urgente que passa necessariamente pela ação política responsável e pelo uso das melhores ferramentas de trabalho disponíveis em sociedades complexas, como o planejamento estratégico. Esse é o caminho que nos tem levado a superações dignas de nota no campo educacional País afora. Caminho no qual o Estado de São Paulo acaba de dar um importante passo ao realizar seu plano estratégico para essa área que sustenta mesmo a nossa dignidade humana, a educação.

*ECONOMISTA, PRESIDENTE DA IBÁ, FOI GOVERNADOR DO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO (2003-2010 e 2015-2018)

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