Educação profissional e tecnológica, demanda e oportunidades

Este é um momento decisivo. Nunca foi tão importante investir na formação da juventude

Paulo Hartung, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2021 | 03h00

“Adolescente, olha! A vida é bela! A vida é bela... e anda nua... Vestida apenas com o teu desejo.” O alerta poético de Mario Quintana aos jovens sobre a importância do desejo na construção da vida merece um olhar atualizado dos que tornam viável um dos mais decisivos meios para a efetivação dos sonhos da juventude, a educação.

Nesse sentido, é preciso que o País abra espaço e avance de forma efetiva na seara da educação profissional e tecnológica, uma estratégica oportunidade a mais que se deve somar às possibilidades de construção do futuro de nossas atuais e próximas gerações de brasileiras e brasileiros. A revolução que testemunhamos no paradigma produtivo oferta novidades e oportunidades à formação profissional e, em consequência, ao mundo do emprego e da renda. Mas essas possibilidades, que ecoam tanto no campo da demanda por mão de obra atualizada quanto no universo desejante dos mais novos, ainda não encontram suficiente acolhida no nosso sistema educacional.

Os dados sobre educação e juventude no Brasil são alarmantes: apenas 20% da população de 18 a 24 anos cursam o ensino superior. O restante, sem qualificação, ocupa postos precários ou engrossa as estatísticas de desemprego, que chega a 30% nessa faixa etária, o dobro da média geral. A pandemia agravou o quadro, levando 4 milhões a abandonar os estudos no ano passado. De acordo com o Datafolha, dos que estavam no ensino médio, 26% não têm intenção de voltar. A evasão mais que dobrou no período, passando de 4,8% a 10,8%.

É um enorme potencial desperdiçado, sem falar no massacre de planos de vida sufocados ainda no nascedouro. Não é possível pensar em projeto de País sem incluir a juventude, transformando seus sonhos em oportunidades e sua força em emprego, renda e prosperidade. A hora de agir é agora. Pelas previsões do Fórum Econômico Mundial, se começarmos a investir hoje na formação e requalificação da força de trabalho, podemos gerar um ganho de 7% no PIB até 2030.

A educação, política pública mais abrangente para a juventude, precisa ter papel central em qualquer plano de reconstrução nacional. Urge combater a evasão e conceber formações que façam sentido para os projetos dos jovens. Segundo o Relatório de Competitividade Global, uma das principais frentes para a retomada econômica nos países é a atualização de currículos escolares e a expansão de investimento em competências demandadas pelo futuro do trabalho. O Brasil larga atrás nessa corrida: em comparação com 37 nações, ocupamos a penúltima posição, à frente apenas da Grécia.

As mudanças tecnológicas exigem reinvenção inadiável do nosso modelo educacional. A recém-aprovada reforma do ensino médio é uma oportunidade que não pode ser desperdiçada. A educação profissional e técnica tem papel central na preparação da juventude para o ingresso no mundo do trabalho, seja em empregos formais ou iniciativas autônomas, cada vez mais comuns no cenário da economia criativa.

Os Estados brasileiros precisam estar atentos, pois 84% das matrículas do ensino médio estão em suas redes. À frente do governo do Espírito Santo, conduzimos uma ampliação continuada da educação técnica. Entre 2004 e 2007, por exemplo, aumentamos quase três vezes o total de matrículas, incrementando a participação do ensino profissionalizante de 5% para 15% no nível médio. Essa rápida expansão nos levou a superar a média nacional e da maioria dos Estados do Sul e Sudeste. Mais que isso, trouxe resultados concretos na distribuição de renda, com a apropriação dos benefícios do crescimento econômico pelos egressos e suas famílias na forma de maior empregabilidade e melhores salários.

Novas tecnologias, inteligência artificial, big data, automação e indústria 4.0. Pensar a educação para o novo tempo que já estamos vivendo exige esforço integrado. Governos devem facilitar um sistema de colaboração entre as diversas redes de formação e organizar o campo da educação técnica nos Estados com o fomento ao ensino médio público, inclusivo por natureza. Além disso, é preciso firmar parcerias com instituições brasileiras que tenham propostas testadas e bem-sucedidas – em que o jovem ocupa o centro de suas preocupações – e se mobilizam para apoiar as mudanças em curso, como têm feito o Itaú Educação e Trabalho e o Instituto Natura.

Este é um momento decisivo. A partir deste ano, os Estados terão mais dinheiro para implementar a educação profissional de nível médio. A recente regulamentação do Fundeb, em especial o reconhecimento da dupla matrícula (financiamento em dobro para instituições com estudantes cursando o médio e o técnico), aporta novos recursos e fortalece a educação profissionalizante nas redes públicas de ensino.

Em tempos de intensas e continuadas transformações tecnológicas, com repercussão em todos os âmbitos da vida atual, além da urgência na constituição de novas bases para uma retomada nacional, nunca foi tão importante investir na formação da juventude. O Brasil precisa ampliar e qualificar as condições para que nossos jovens possam vestir o futuro com as cores e a beleza dos seus desejos e, assim, ajudar a construir um outro País, inclusivo, sustentável e justo.


ECONOMISTA, PRESIDENTE EXECUTIVO DA IBÁ, É MEMBRO DO CONSELHO DO TODOS PELA EDUCAÇÃO

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