Em dois anos desastrosos, a pandemia só surgiu no segundo

Depois de dois anos de desgoverno, ainda resta o direito de desejar feliz ano novo

Rolf Kuntz, O Estado de S.Paulo

27 de dezembro de 2020 | 03h00

Desprezo à vida, quase um culto à morte, é a grande marca do presidente Jair Bolsonaro, afirmada e reafirmada em todo o seu desgoverno. Com a pandemia esse desprezo ficou mais escancarado, assim como seu despreparo para governar. Enquanto avança o contágio, o presidente chama de maricas quem tenta evitar a doença e cobra menos ansiedade na espera pela vacina. O descaso pela vida se reafirma, sem pausa, também na sua obsessão pelas armas. Pode-se morrer de bala ou de covid-19. E daí? Essa pergunta, um comentário sobre a mortandade, resume dois anos de Presidência bolsonariana – fiasco na economia, desastre na pandemia, constante ameaça à democracia. Será um prenúncio dos próximos dois?

Liderança, criatividade e solidariedade podem eclodir diante de grandes desafios. Diante da pandemia, Bolsonaro foi negacionista, como seu guia Donald Trump. Continuou centrado em objetivos particulares, como a reeleição e a proteção dos filhos. Além disso, frequentou manifestações golpistas, como no dia 3 de maio.

Mais de 100 mil casos de covid-19 haviam sido registrados e as mortes passavam de 7 mil, superando as da China, mas as prioridades do presidente eram outras. Na passeata, faixas pediam o fechamento do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Congresso e “intervenção militar com Bolsonaro”. O presidente apareceu sem máscara, abraçou uma criança e criticou medidas sanitárias de governadores e prefeitos.

A indisposição de Bolsonaro com o STF era notória. O ministro Alexandre de Moraes havia suspendido a nomeação de Alexandre Ramagem para a direção da Polícia Federal (PF). Sem dizer a quem se dirigia, o presidente berrou ameaças.

“Vocês sabem que o povo está conosco. As Forças Armadas, ao lado da lei, da ordem, da democracia e da liberdade, também estão ao nosso lado, e Deus acima de tudo. Vamos tocar o barco. Peço a Deus que não tenhamos problemas nesta semana, porque chegamos no limite, não tem mais conversa, tá OK? Daqui para frente não só exigiremos, faremos cumprir a Constituição. Ela será cumprida a qualquer preço.” Depois prometeu nomear no dia seguinte o novo diretor da PF.

Diante de golpistas, o presidente ameaçou agir “a qualquer preço” e tentou envolver as Forças Armadas – e para quê? Para sustentar sua pretensão de mandar na PF, denunciada como inaceitável pelo ministro Sergio Moro. Como essa pretensão nunca foi justificada, restava a hipótese muito comentada: era mais uma tentativa de proteger os filhos.

O interesse de um filho investigado, o senador Flávio Bolsonaro, seria o assunto, meses depois, de um encontro com participação de Alexandre Ramagem, chefe da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), e do general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI). Dessa reunião resultaram, segundo a revista Época, instruções para a defesa do senador, acusado de rachadinhas durante o mandato como deputado estadual.

Ramagem e Heleno confirmaram a reunião com a defesa do senador, mas negaram ter produzido instruções. Além disso, qualificaram o encontro como legal, por ser atribuição do GSI e da Abin cuidar da segurança do presidente e de seus familiares. Mas isso inclui segurança contra investigação de rachadinha ou de outro crime?

Bolsonaro achou tempo para cuidar da reeleição. Meio por acaso, descobriu os pobres. A descoberta ocorreu quando o ministro da Economia, no começo da nova crise, propôs auxílio de R$ 200 para os mais vulneráveis. O presidente da Câmara sugeriu R$ 500 e Bolsonaro, com aparente entusiasmo pelo novo jogo, defendeu R$ 600.

Houve bons efeitos e ele decidiu propor uma Bolsa Família – antes chamada de Bolsa Farinha – com marca própria. Não deu certo, ainda, mas o presidente descobriu as possibilidades de um novo eleitorado, e logo no Nordeste.

As medidas emergenciais funcionaram, como em outros países, e atenuaram a crise, mas deixaram enorme buraco fiscal. O mercado entende as novas condições e apenas cobra um claro compromisso de seriedade nos próximos anos. Mas o comportamento errático do presidente em relação às questões fiscais, somado à sua política antiecológica, assustou o mercado, espantou investidores e resultou em enorme depreciação cambial. No fim de outubro, só as moedas de Zâmbia e do Suriname se haviam desvalorizado, em 2020, mais do que o real. Inflação maior foi um dos efeitos.

A economia já ia mal antes do novo coronavírus. Havia crescido só 1,6% em 2019, depois de avançar 1,8% em cada um dos dois anos anteriores. O produto interno bruto (PIB) do primeiro trimestre de 2020 foi 1,5% menor que o dos três meses finais do ano passado. Só um projeto importante havia sido aprovado no primeiro ano de mandato, a reforma da Previdência, já amadurecida no período do presidente Michel Temer. Nenhuma das muitas privatizações prometidas foi realizada até agora, e Bolsonaro acaba de se declarar contrário à venda da Ceagesp, antes pautada com sua autorização.

Mas todos têm o direito de pelo menos desejar feliz ano novo a todos os demais – tão feliz quanto possível no Brasil de Bolsonaro.


JORNALISTA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.