Em nome da liberdade

O sadopopulismo só pode funcionar se os cidadãos ficarem inertes e se prostrarem diante de quem deseja matar a política.

Heronides Moura, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2022 | 03h00

Não é comum que possamos ler e meditar sobre o trabalho de um historiador que fala, ao mesmo tempo, do passado e do presente. Mais raro ainda é que essa passagem do passado para o presente não seja apresentada como injunção, e sim como incitação à vigilância e à consciência de cada indivíduo. A História não é feita apenas pelos grandes heróis, mas por uma rede intrincada de ações individuais.

Tal incitação à liberdade individual é, talvez, o principal interesse do livro Em defesa da liberdade, de Timothy Snyder (Editora da UFSC, 2022). A obra é uma coletânea de palestras reunidas e traduzidas por Fábio Lopes da Silva e André Cechinel.

Duas tradições nas ciências humanas bloqueiam a passagem da história para a ação presente. A primeira é uma visão determinista, a que define um roteiro em grandes linhas sobre como o tempo histórico se desenrola. Esse é o caso da tradição marxista. Não importa o que façamos no campo individual, os motores da História estão sempre ligados e conduzirão a conflitos que se situam muito acima da alçada dos indivíduos.

A segunda tradição é justamente a oposta. Nela, as grandes narrativas históricas são postas em questão, e o que se apresenta ao estudioso é uma série de descontinuidades. Quase nada podemos aprender do passado, porque os eventos históricos são construções sociais únicas e irrepetíveis. Eis a lição do pós-modernismo, muito popular no Brasil.

Timothy Snyder confronta essas duas tradições e faz afirmações simples e diretas, como: “mudar o cotidiano é a única forma de fazer história” (página 118). A História não é algo distante e inelutável, mas uma realidade que pode ser transformada cotidianamente.

Certamente, Snyder não se dispõe a prever o futuro com base no passado. No prefácio escrito especialmente para o livro, ele observa que o que se pode aprender com o passado é a capacidade de identificar os riscos contidos no presente. Nas palavras dele: “Um historiador não é alguém que sabe tudo o que aconteceu, mas alguém que sabe o que não aconteceu” (página 10). Uma lição clara do século 20 para o presente é que não há possibilidade de instituições nacionais destruídas defenderem os cidadãos de um país, preservando a vida e a liberdade.

Os três primeiros capítulos do livro abordam, justamente, uma situação histórica na qual Estados nacionais foram destruídos numa região específica do leste europeu, tanto pelos bolcheviques quanto pelos nazistas. Foi ali, sem a proteção do Estado de Direito, que ocorreu o Holocausto.

A ideologia nazista, mostra o autor, sempre pretendeu esfacelar as instituições que encontrava pelo caminho. Essa era a maneira de deixar a violência explodir, numa guerra sem fim por recursos e territórios. Não era nem preciso que os nazistas se dessem ao trabalho de organizar os assassinatos em série contra judeus. As populações do leste europeu, sem os Estados que antes as abrigavam e protegiam, passaram a cometer os crimes propugnados pelos nazistas.

É curioso ver um historiador contemporâneo defender com tanto ardor (e com base em fatos!) as instituições. As duas tradições que citei anteriormente sempre atacaram violentamente os Estados modernos. Na tradição marxista, as instituições burguesas são apenas expressão da dominação econômica. Na perspectiva pós-modernista, as instituições emergem de práticas discursivas que, em nome da razão e do progresso, excluem e discriminam.

Para Snyder, ao contrário, as instituições, mesmo que imperfeitas, formam uma barreira contra a tirania. E, com base nisso, ele nos incita à defesa da liberdade, o que nos tempos atuais significa se opor a líderes como Vladimir Putin, Donald Trump e Jair Bolsonaro.

Snyder não analisa diretamente o caso de Bolsonaro, mas Fábio Lopes da Silva faz isso, com pertinência, em seu livro Sadopulismo: de Putin a Bolsonaro. A ideia é que os líderes populistas de direita tentam minar as instituições e, concomitantemente, negam-se a promover políticas públicas voltadas para os mais pobres.

Tal inércia, tal culto do não-governar, parece um contrassenso. Camadas populares votaram em Trump e Bolsonaro, e, no entanto, estes nada fazem para atender aos interesses de seus eleitores. Para explicar essa contradição, Snyder propôs o conceito de sadopopulismo. Sadopopulistas são líderes como os já mencionados, que se recusam a atender às demandas populares. Nesse sentido, eles não são como os populistas clássicos do século 20. Tudo o que Trump et caterva têm a oferecer é a gestão da dor e do sofrimento alheios, com a destruição de qualquer esperança. Para Snyder, o sadopopulismo abole o futuro em favor da repetição cíclica dos traumas e sonhos do passado.

Obviamente, tal sistema de poder só pode funcionar se os cidadãos ficarem inertes e se prostrarem diante de quem deseja, no fundo, matar a política. Nada melhor do que ler Snyder para entender os riscos desta política da inação e do caos.

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ESCRITOR E LINGUISTA, PROFESSOR DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA (UFSC), É PESQUISADOR DA CENTRAL QUEENSLAND UNIVERSITY, NA AUSTRÁLIA

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