‘Embromavírus', uma endemia nacional

Sem derrotar esse vírus o País permanecerá na armadilha da renda média

Roberto Macedo, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2020 | 03h00

Pandemia é doença de alcance generalizado, como a do novo coronavírus, de impacto mundial. Uma endemia é mais duradoura e tem alcance geográfico menor, como a malária na Região Amazônica. “Embromavírus” é metáfora para um mal que acomete seriamente o Brasil, o adiamento ou procrastinação de soluções para graves problemas que o País enfrenta há décadas, ou mesmo séculos. 

O resultado é sintetizado por sua queda na armadilha da renda média. O crescimento econômico do País desde o início do século passado, revelado por seu produto interno bruto (PIB), foi bastante acelerado até a década de 1970, levando-o, em termos per capita, a deixar o grupo dos países de renda baixa e a integrar o de renda média. 

Mas ficou por aí, pois desde a década de 1980 o PIB passou a uma fase de estagnação, definida como a de um crescimento bem abaixo do potencial do País, que dura até hoje. Nestas quatro décadas houve períodos em que o PIB cresceu a taxas maiores, mas foram como voos de galinha, de pouca altura e duração. Mas na década passada, a dos anos 2010, aconteceu o pior. A partir de 2015 uma depressão econômica levou a galinha a cair num buraco e a queda foi forte, perto de 6% do PIB, no biênio 2015-2016. No triênio 2017-2019, ela procurou voltar à superfície, mas só chegou ao meio do caminho, com taxas perto de 1% ao ano. E, pior ainda, a partir de março último a pandemia da covid-19 ficou evidente e agora, três meses depois, o Brasil lidera a contagem mundial de novas mortes por dia. 

A saúde da economia também foi seriamente afetada e previsões apontam para uma queda do PIB acima de 6% neste ano. Somada à queda anterior, ainda não superada, levaria o buraco a profundidade perto de 10% do PIB. A pandemia seria mais suportável se a nossa economia não estivesse tão fragilizada pelo fraco desempenho nas quatro décadas passadas. O PIB é que gera recursos para ampliar o bem-estar de uma sociedade.

Na raiz dos problemas da economia está o “embromavirus”. No famoso livro Os 7 hábitos das pessoas altamente eficazes, de Stephen Covey, que por longo tempo liderou listas de mais vendidos nos Estados Unidos, há lição importante para o êxito gerencial. Gestores devem buscar a solução de problemas importantes e urgentes, mas não podem, como se faz aqui no setor público, descuidar dos importantes, mas não tão urgentes, pois essa procrastinação pode agravar tais problemas, e dificultar ainda mais a sua solução.

O “embromavírus” chegou ao Brasil desde os seus primórdios. Quem aqui mandava criou problemas e procrastinou sua solução, como ao permitir escravos, adiar a sua libertação e, depois que esta veio, descuidar do sustento deles e da sua educação.

Hoje, com seus mandões atacados fortemente por esse vírus, entre outros casos a má qualidade da educação pública infantil e básica permanece como sério problema. A Previdência Social teve sua reforma adiada por décadas e a de 2019 ainda deixou questões por resolver. Há a aversão a reformas, a lenta burocracia, os supersalários, um Executivo também lento, os privilégios de um Judiciário igualmente marcado pela lentidão e os de um Legislativo aético ao não se pautar pelo bem comum, salvo exceções cada vez mais excepcionais. Os parlamentares prezam principalmente seus privilégios e a reeleição de seus membros, outorgando-se as tais emendas parlamentares e uma profusão de assessores, o que é indiretamente um financiamento público de campanhas eleitorais para incumbentes, em prejuízo dos demais candidatos. O sistema eleitoral proporcional, para escolha de deputados e vereadores, facilita a eleição de bancadas voltadas para interesses de grupos organizados e que se opõem a reformas que contrariem esses interesses.

O que tem isso que ver com o crescimento econômico? Sucumbindo a pressões políticas, o governo passou a um custoso distributivismo de recursos, que levou a um forte aumento da carga tributária. Essa carga retira recursos de empresas e cidadãos, que, da sua renda, poupam e investem uma proporção maior que a do governo, de sua arrecadação e do que toma de empréstimos, o que prejudica o investimento em capital produtivo, um motor muito importante do crescimento. Também ao financiar seus déficits o governo toma poupança do setor privado, e em larga medida a “despoupa” ao não investi-la. No setor financeiro, os altos spreads bancários continuam a inibir quem busca financiar-se para investir produtivamente. Sem investimentos, como em educação, saúde, infraestrutura, incluído saneamento, inovação, competitividade, e outros postergados pelo “embromavírus”, o Brasil não vai aumentar sensivelmente seu PIB per capita, o que equivaleria a tornar seus cidadãos bem mais produtivos por unidade de tempo e precisa ser incutido na cabeça de todos.

Ou o País acorda para derrotar o “embromavirus”, ou continuará na estagnação em que se encontra, agravada pela enorme depressão ora em andamento e agravamento. 

ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), PROFESSOR SÊNIOR DA USP. É CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR

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