Ensinar e aprender com ‘distância social’

Distanciamento na educação tem posto em relevo as desigualdades sociais e culturais

Ana Teberosky, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2020 | 03h00

A pandemia de covid-19 tem levado à adoção de medidas de “distanciamento social” para evitar a propagação do vírus – “distanciamento” tanto físico quanto “social”. No campo da educação, as aulas presenciais foram substituídas por ferramentas que pretendem promover “aprendizagem virtual”, decisão que afetou muitas pessoas em diferentes fases de formação. Aqui nos concentraremos nos impactos dessas decisões para as crianças das séries iniciais do ensino fundamental. 

Pôr à disposição recursos digitais como solução alternativa evidenciou quase imediatamente dois problemas: o primeiro é a “exclusão digital” que existe entre os alunos, por falta de infraestrutura tecnológica; o segundo se refere às instituições que estão tendo de promover “aprendizagem virtual” sem suficiente preparação pedagógica.

A “exclusão digital” remete aos grupos sociais que carecem de infraestrutura material. No entanto, essa defasagem não é só digital, pois também cria uma desigualdade quando nos enfrentamos com a “defasagem em relação à língua”. Há uma grande diferença, tanto quantitativa quanto qualitativa, entre ter um conhecimento básico da linguagem (entender e responder), que garante a comunicação, e ter um domínio rico da linguagem, que permite compreender e produzir. Por exemplo, em estudo realizado por Hart e Risley (1995) foi identificada uma defasagem de 30 milhões de palavras entre crianças estadunidenses de 4 anos com mais e menos recursos econômicos. Ao analisar detalhadamente as interações ao longo da criação, observou-se que os pais de famílias menos favorecidas conversam entre si, mas não se dirigem às crianças. Esse tipo de conversa é difícil de compreender porque está fora do contexto das atividades em que as crianças estão incluídas. Em compensação, quando o discurso é dirigido intencionalmente a elas, é contextualizado, requer atenção compartilhada, em geral vem acompanhado de gestos, sinais e olhares, é de “ida e volta”, assim se cria um contexto em que pode receber respostas, correções e comentários. 

Falamos em intenção quando os adultos atuam sobre a conduta da criança de maneira intencional, não incidental. Qualificamos de intencional a ação do adulto que estabelece uma interação repetida, que leva em consideração as respostas da criança e as julga como “corretas ou incorretas”. Trata-se de um processo que tem a intenção de que o aprendiz responda cada vez melhor e contempla um elemento normativo ao avaliar suas respostas.

Destacamos a “defasagem em relação à língua” porque seu uso é essencial na comunicação que sustenta o processo educacional. Mas sabemos que todo sistema de comunicação fabrica seus próprios excluídos (Lévy, 2007). Assim, no contexto atual estão excluídos não só os que carecem de infraestrutura tecnológica, mas também os que se encaixam na “defasagem em relação à língua”. Além do mais, como as tarefas propostas no ensino remoto exigem o uso da linguagem escrita se acresce mais uma camada de exclusão: “defasagem de leitura, escrita e cultura escrita”. Para poder usar de maneira produtiva os recursos digitais é preciso “navegar” nesse meio, buscar e selecionar informação; e, ao mesmo tempo “interagir” com uma diversidade textual e com diferentes sistemas semióticos. Ou seja, ler e escrever a partir da hipertextualidade e multimodalidade. 

É verdade que os recursos digitais vêm sendo incorporados ao âmbito educacional, mas sempre de forma associada à ação presencial da professora. A novidade está na substituição do ensino presencial, o que nos obriga a refletir sobre o que se pode aprender por meio de tarefas virtuais e o que exige outras condições. Por exemplo, é possível adquirir habilidades pela imitação, observando o que os outros fazem. Em certas condições culturais, também somos capazes de adquirir informação diretamente dos livros, da televisão, da internet, etc.

No entanto, há outro conjunto de aprendizagens que exigem um tipo de relação, de proximidade social com alguém que ensine. Aprendizagens que não podem ser adquiridas imitando as ações dos outros porque são “cognitivamente opacas” à observação direta. Como é o caso da matemática, das ciências, da linguagem, da leitura e da escrita. Os conteúdos cognitivamente opacos implicam procedimentos simbólicos, demandam novas relações entre meios e fins, requerem domínio dos processos, e não só dos resultados.

Ou seja, certas aprendizagens necessitam de interação direta e intencionalidade compartilhada.

A exigência de “distanciamento social” no campo da educação tem posto em relevo as desigualdades sociais e culturais existentes. Para enfrentá-las é preciso assumir que as condições para a aprendizagem das crianças não são homogêneas: os pequenos não têm as bases para aprender a partir de textos virtuais e nem todas as crianças maiores dominam a cultura escrita exigida para a navegação digital.

CATEDRÁTICA DE PSICOLOGIA NA UNIVERSIDADE DE BARCELONA, ATUALMENTE APOSENTADA, É, NO BRASIL, COLABORADORA DA ONG LABORATÓRIO DE EDUCAÇÃO. ESTE ARTIGO CONTOU COM A COLABORAÇÃO DE BEATRIZ  CARDOSO E ANGÉLICA SEPULVEDA

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