Ensino médico‘sob medida’

Precisamos bem adequá-lo à realidade do País e ao progresso da biotecnologia

Silvano Raia*, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2019 | 03h00

A História nos mostra que a formação dos médicos sempre se adaptou ao tipo de tratamento disponível na época e ao perfil dos pacientes a que se destinava.

Há 6 mil anos, a escola de Ayurveda, diante da falta total de conhecimentos, preparava seus alunos em mosteiros visando a neles induzir hábitos capazes de lhes conferir uma aura superior que facilitasse sua atuação. De fato, deviam apenas preparar os pacientes para aceitarem com resignação as doenças e os sofrimentos que o destino lhes impunha.

A seguir, sucessivamente, os médicos foram ensinados a diagnosticar as doenças, a tratá-las, a evitá-las por vacinas ou por cuidados ambientais, impedir sua transmissão por hereditariedade e, finalmente, a curá-las. Agora tentam retardar o envelhecimento e, quem sabe, evitar a morte.

No Brasil nos defrontamos com um problema de difícil solução para bem adequar o ensino médico à nossa realidade. Decorre, principalmente, de três fatos: grande diversidade social com predomínio dos socialmente desassistidos, rápido desenvolvimento tecnológico nas últimas décadas e, não menos importante, aumento geométrico do número de faculdades de medicina.

Diante dessa realidade devemos desenvolver um programa de ensino médico “sob medida” compatibilizando-o àquelas três variáveis, o que não é fácil, uma vez que sob certos aspectos são antagônicas entre si.

De fato, a população menos favorecida depende de uma série de medidas que, no conjunto, constituem a assim chamada assistência básica. Apoia-se em áreas de conhecimento já sedimentadas, diferentes das criadas pelo progresso recente. Leia-se informática, engenharia eletrônica, robótica, inteligência artificial, etc. A aproximação desses dois mundos tão díspares é necessária. Entretanto, cria muitos problemas cuja solução individual é impossível de ser ensinada num curso de graduação. O que se propõe, então, é estimular nos alunos o raciocínio ativo, que permite resolver problemas em geral. Em vez de lhes oferecer apenas soluções já prontas, propõe-se ensiná-los a como criá-las.

Capacitados para essa atividade, os alunos estarão preparados para solucionar as dificuldades que aparecerem ao longo do seu percurso profissional, muitos delas imprevisíveis. Para atingir esses objetivos, o programa de ensino deve obedecer a algumas premissas.

l Valorizar a assistência básica integrando o aluno no atendimento prestado pelo SUS às comunidades menos assistidas. Por ele tomará conhecimento das variáveis sobre as quais exercerá a maior parte de sua profissão. Essa inserção é coerente com o conceito moderno que define o trabalho como um espaço produtor de saber.

l Apresentar os recentes métodos de diagnóstico e tratamento salientando as novas perspectivas para o melhor atendimento aos pacientes, desassistidos ou não. Para isso, incluir no programa cursos teórico-práticos sobre biotecnologia moderna, como engenharia eletrônica, robótica e informática, entre outras.

l Estimular os alunos a elaborar projetos-ponte entre ensino e prática médica nas circunstâncias do nosso país, valorizando os aplicativos com intervenção na realidade. Assim fazendo deslocamos o estudante de uma posição passiva de receber e reproduzir informações para outra, mais ativa, procurando soluções para os nossos problemas atuais de saúde.

Em síntese, devemos promover trajetórias de formação médica que permitam a construção de uma identidade profissional articulada às necessidades da sociedade brasileira e ao mesmo tempo consciente do progresso tecnológico atual. A aplicação dessas premissas pressupõe a valorização de algumas linhas mestras nos programas de ensino.

l A conduta do médico moderno deve-se balizar pelos princípios éticos com um cuidado maior que o de todas as gerações que nos precederam. Por exemplo, o progresso atual da engenharia genética cria possibilidades que, apesar de atraentes para o paciente como indivíduo, podem, no futuro, afetar a dignidade da espécie humana como um todo (eugenia).

l O único raciocínio criativo é o horizontal, que associa uma ideia A à uma ideia B, daí resultando uma ideia nova C. Contrapõe-se ao raciocínio vertical, pelo qual a mesma ideia é sucessivamente aperfeiçoada, originando versões A1, A2, A3, etc., cada vez com maior detalhe, não estimulando novas ideias. Saliente-se que o raciocínio horizontal é tão mais eficiente quanto mais fundamentado em evidências, não considerando interpretações subjetivas, mesmo se já consagradas pelo tempo.

l A solução de problemas complexos, como a compatibilização no Brasil da assistência básica com o progresso recente, depende do trabalho em equipe. A diversidade dos novos campos de conhecimento torna inviável o trabalho solitário.

l Mas o trabalho em equipe depende de um tipo de chefia emergencial que se contrapõe ao antigo magister dixit. No primeiro, cada setor é liderado pelo membro da equipe que melhor domina uma determinada área de conhecimento, conferindo ao chefe a função de acompanhar o trabalho de todos e orientar o grupo em direção às metas programadas.

l Nunca como agora se torna importante o exemplo dado pelos professores. Recentemente neurocirurgiões italianos descreveram um núcleo morfofuncional no cérebro – núcleo espelho – responsável pela exata repetição dos movimentos e sensações observados pela primeira vez. Mais cedo ou mais tarde, os alunos adotarão os princípios e repetirão as atitudes dos seus professores.

Visando essas metas e obedecendo a esses princípios formaremos médicos que, de um lado, serão capazes de atender às necessidades do nosso país e, de outro, farão por merecer a posição que o médico deve ocupar na sociedade moderna.

*PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE MEDICINA DA USP, É MEMBRO DO CONSELHOCONSULTIVO DO CENTROUNIVERSITÁRIO MAX PLANCK

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