Entre a estagflação e outros palavrões

Enquanto o presidente ignora suas funções e junta seus interesses aos do Centrão, a economia desmorona e a pobreza aumenta

Rolf Kuntz, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2021 | 03h00

Palavrões são quase inevitáveis quando se fala de economia brasileira. Estagflação e desancoragem são exemplos notáveis, embora muitos outros, mais enfáticos e menos publicáveis, também descrevam a obra do presidente Bolsonaro. Estagflação foi o termo usado pelos economistas Claudio Considera e Isabella Kelly, da Fundação Getúlio Vargas, para resumir o pesadelo econômico nacional – inflação de dois dígitos, crescimento miserável e um dos maiores desempregos do mundo. O palavrão desancoragem surgiu recentemente, quando a expectativa de maior inflação se estendeu a 2023 e 2024. Reapareceu na quarta-feira, quando foi anunciada a alta dos juros básicos de 7,75% para 9,25% ao ano. Ancorar de novo as expectativas, informou o Banco Central (BC), será um dos objetivos do aperto monetário mais severo. O objetivo básico, obviamente, é conduzir a inflação à meta.

Levar comida para casa é hoje um dos maiores desafios para as famílias brasileiras. Não há escassez, mas os preços da alimentação, impulsionados pelas cotações internacionais, pela alta do dólar e por efeitos localizados do mau tempo, subiram 7,04% no ano e 8,90% em 12 meses. Comprar feijão e arroz, no entanto, é só o problema inicial. É preciso cozinhá-los, e os combustíveis domésticos, incluído o gás, encareceram 36,86% nos 12 meses até novembro. Eletricidade também se tornou um luxo, porque a tarifa, nesse período, aumentou 31,87%.

Preços em alta corroem os ganhos já muito modestos da maioria dos trabalhadores. Os desempregados eram 13,5 milhões, 12,6% da força de trabalho, no trimestre até setembro. Os informais, 40,6% da população com trabalho, eram 38 milhões de pessoas. O rendimento médio habitual dos ocupados, descontada a inflação, foi 4% menor que o do trimestre de abril a junho e 11% inferior ao de um ano antes.

Não há sinais de grande melhora a partir daí. Combinadas com a inflação, as péssimas condições do mercado de trabalho realimentam a crise econômica. Em outubro, as vendas do varejo foram 0,1% menores que as de setembro. Foi a terceira queda mensal consecutiva e a sexta nos dez meses de janeiro a outubro. Com o mercado interno muito fraco, a indústria mal se arrasta. A produção industrial diminuiu 0,6% de setembro para outubro, na quinta queda seguida, e ficou 4,1% abaixo do patamar pré-pandemia, de fevereiro de 2020.

Inflação é hoje um problema global, argumenta o ministro da Economia, Paulo Guedes. É verdade, mas ele se abstém de explicar por que a alta dos preços é muito maior no Brasil do que na maior parte do mundo. Nos Estados Unidos, um dos países com maior desarranjo inflacionário, o aumento chegou a 6,2% nos 12 meses até outubro. No Grupo dos 20 (G-20) a variação foi de 5,3%. No Brasil, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 10,67% no mesmo intervalo e 10,74% no período até novembro.

A enorme distância entre a inflação brasileira e a da maior parte do mundo é explicável principalmente pela diferença entre governo e desgoverno. No Brasil, o poder central demorou a reconhecer os problemas decorrentes da escassez de chuvas. Alertas surgiram no fim do ano passado. Autoridades federais poderiam ter coordenado campanhas de adaptação do consumo. Poderiam, além disso, ter administrado com maior eficiência as diferentes fontes de energia, como disseram especialistas, mas foram omissas e imprevidentes – e os problemas se agravaram.

A inflação alimentada em Brasília é associada também ao desarranjo cambial, isto é, ao dólar supervalorizado. O Brasil é superavitário no comércio exterior e há razoável segurança nas contas externas. O País tem mantido reservas em torno de US$ 350 bilhões. O déficit em transações correntes tem sido financiado regularmente, há anos, por investimentos diretos. No entanto, o dólar é instável e tem oscilado, com frequência, na faixa de R$ 5,40 a R$ 5,60. A contaminação dos preços é inevitável. O efeito sobre o custo dos combustíveis é especialmente danoso, num país com excessiva dependência do transporte rodoviário. Também isso diferencia o caso brasileiro.

Dadas as condições do balanço de pagamentos, o dólar poderia estar mais próximo de R$ 5,00, talvez abaixo disso, mas seu valor tem sido inflado pela insegurança no setor financeiro. Há inquietação quanto ao futuro das contas federais e especialmente da dívida pública. A principal fonte de incerteza é o presidente, distante das funções de governo, concentrado em objetivos pessoais e familiares e dependente, cada vez mais, do custoso apoio do Centrão.

Esse apoio é especialmente importante na busca da reeleição. A combinação dos objetivos de Bolsonaro e de seus apoiadores tem sido devastadora para as finanças públicas. A farra das emendas, o orçamento secreto, o ataque ao teto de gastos, o calote dos precatórios e o abandono, enfim, das normas básicas da responsabilidade fiscal são alguns efeitos notáveis. A contrapartida é o desastre econômico e social, com a pobreza crescente e o ressurgimento da fome num país onde sobra comida e falta governo.

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