Equívocos na análise do emprego

Fala-se muito de vagas e de postos de trabalho, mas não há dados a esse respeito

Roberto Macedo, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2020 | 03h00

Abordarei alguns equívocos conceituais e analíticos às vezes cometidos por jornalistas. Assim, por muito tempo ouvi o âncora do Jornal Nacional afirmar que o produto interno bruto (PIB) é a soma das riquezas do País. Na verdade, o PIB é o valor da produção de bens e serviços de um país num determinado período de tempo, em geral um ano ou um trimestre. O PIB mede o valor do fluxo dessa produção num desses períodos. Já as riquezas de um país são o que foi acumulado ao longo da História. É como um estoque, que até se deprecia.

Explico: olhando atentamente pela janela do prédio onde moro, vejo muitos prédios construídos no passado que fazem parte dessa riqueza do País. Mas só um em construção, que faz parte do PIB do ano corrente, e como sua obra começou em anos anteriores, também integrou o PIB desses anos, nas partes construídas em cada um deles.

Passo aos dados de emprego, objeto de equívocos analíticos que continuam. Especificamente, dos dados mensalmente divulgados pelo governo federal e oriundos do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), que cobre o emprego formal, e dos trimestrais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que abrangem também o mercado informal. Quanto ao Caged, seus dados eram obtidos por meio de um formulário preenchido mensalmente pelas instituições empregadoras. Recentemente surgiu o que a fonte chama de “novo Caged”, ou seja “a geração das estatísticas do emprego formal por meio de informações captadas dos sistemas eSocial, Caged e Empregador Web”. Seus números são limitados aos de empregados admitidos e aos desligamentos – neste caso, sem distinguir os demitidos dos que pediram demissão –, bem como ao saldo mensal ou à diferença entre o primeiro e o segundo número.

Há anos jornalistas vêm extrapolando conceitualmente na sua análise e passaram a falar também de vagas e postos de trabalho, não cobertos por esses dados. São comuns manchetes e textos que incluem frases como esta: no período foram criados tantos postos de trabalho, ou vagas, quando o referido saldo é positivo; ou destruídos ou eliminados em caso contrário. 

Como se pode falar de vagas destruídas, se o que existia eram empregos, que cessaram, e não vagas? Ademais, no caso dos desligamentos, como a rotatividade de mão de obra é muito alta no Brasil, muitos teriam pedido demissão, caso em que suas vagas, a critério do empregador, podem ter permanecido e, assim, não foram eliminadas. E mais: de modo geral, empregadores podem ter até aberto e reaberto vagas para em seguida contratarem substitutos para todos ou parte dos que foram desligados. Ou para novos empregos. Mas não se pode falar sobre vagas, pois não há dados sobre elas.

Postos de trabalho tampouco significam o mesmo que empregos. O que são postos de trabalho? Já visitei fábricas, e me lembro também das atribulações de Charlie Chaplin no filme Tempos Modernos. Numa linha de montagem de automóveis, por exemplo, há, nos seus postos, vários responsáveis pela colocação de autopeças à medida que o corpo do carro vai andando nessa linha. Por exemplo, já vi um empregado que encaixava os pneus nas roscas em que seriam parafusados, e outro que colocava e apertava as porcas nessas roscas. Ora, na presente crise a produção caiu, mas não a zero. Com isso a velocidade da linha de montagem foi reduzida, empregados foram dispensados, mas seus postos não foram fechados, pois os trabalhadores que restaram podem desempenhar o trabalho exigido por mais de um posto. No mesmo exemplo, um só colocando as rodas e as parafusando. Portanto, como no caso das vagas, os postos de trabalho não podem ser usados como sinônimo de empregos.

Isso não se limita a plantas industriais. Sei de um bar em São Paulo em que havia vários atendentes em seus postos de trabalho: um no caixa, outro cuidando de sucos, bebidas e vitaminas, outro fazendo sanduíches, esfihas e outros assados, mais um lavando pratos, talheres e demais utensílios e dois ou três atendentes de balcão. Com a crise, soube que alguns saíram, mas os restantes estenderam seu trabalho aos postos dos que partiram. Não houve fechamento de vagas, pois não existiam, nem extinção de postos de trabalho.

Note-se, também, que a condição de empregado, ou não, é um atributo do trabalhador, enquanto vagas e postos de trabalhos são atributos do processo produtivo. Seria até interessante analisar estes últimos atributos, como ao tomar o número de vagas como indicador antecedente das variações do emprego, mas não há dados a esse respeito.

Os dados do IBGE medem diversas variáveis, como o número de empregados e o de desempregados, neste caso também sem distinguir quem foi demitido e quem pediu demissão, e tampouco há qualquer referência a vagas e postos de trabalho.

Em síntese, fala-se muito do número de vagas e de postos de trabalho, mas nos dois casos sem fundamento em dados.

ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), PROFESSOR SÊNIOR DA USP. É CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR

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