Era dos extremos

Só o investimento em ciência pode conter o impacto do clima na produção de alimentos

Ruy Altenfelder e Claudia Calais, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2021 | 03h00

No mês de julho as Regiões Sul e Sudeste foram castigadas por uma intensa frente fria. Geadas se formaram em locais inusitados, como Minas Gerais e até em porções do Centro-Oeste, que não costumam registrar temperaturas tão baixas. Mais ao sul, especialmente na Serra Gaúcha, chegou a nevar em muitos municípios. Uma rápida passada pelo noticiário mostra que esse tipo de evento climático não é exclusividade do Brasil. Para ficar apenas em casos recentes, assistimos a enchentes sem precedentes na Alemanha, a ondas de calor em países do Hemisfério Norte, a grandes incêndios florestais, resultado de secas prolongadas, nos EUA, na Europa e na Ásia, incluindo regiões insuspeitas, como a Sibéria.

O relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da ONU, divulgado este mês mostra que não se trata de coincidência, mas de reflexo da devastação do meio ambiente. Os extremos do clima devem se acentuar nos próximos anos, com invernos e verões cada vez mais intensos e eventos atípicos, como os que vemos no Brasil, cada vez mais frequentes. Se isso é em parte natural, resultado dos ciclos milenares de aumento e diminuição da temperatura média da Terra, não há dúvida de que a ação do homem tem acelerado o fenômeno de maneira perigosa.

Desde a revolução industrial, em meados do século 18, a humanidade adquiriu ferramentas poderosas para explorar recursos naturais. Passamos a extrair minérios, derrubar florestas, queimar combustíveis, poluir rios e produzir lixo em escala bem acima da taxa de recuperação dos ecossistemas. A consequência desse desenvolvimento voraz, alheio à noção de sustentabilidade, foi percebida há décadas, quando cientistas começaram a alertar para o risco do aquecimento global.

As projeções tornaram-se realidade e hoje estamos numa encruzilhada: ou alteramos nossa relação com o meio ambiente ou nossa sobrevivência ficará ameaçada. Não se trata, pois, de simplesmente proteger a natureza – que, em sua infinita sabedoria, sempre encontrará maneiras de resistir e prosseguir. O equilíbrio ambiental do planeta precisa ser mantido para que a espécie humana esteja protegida.

As mudanças climáticas ameaçam nossa segurança alimentar. Dependemos do clima para produzir comida e mudanças radicais na temperatura podem tornar inviáveis a lavoura e a pecuária, intensificar pragas agrícolas e derrubar a produtividade do campo.

O relatório do IPCC aponta que até 80 milhões de pessoas podem passar fome como resultado do aquecimento global na primeira metade do século. Esse dado corrobora outros estudos, realizados até mesmo pelo Banco Mundial, que alertam para a possibilidade de alta generalizada nos preços dos alimentos nas próximas décadas em razão da queda na oferta, o que ampliará o número de famílias em insegurança alimentar, particularmente nos países mais pobres.

O Brasil tem hoje uma amostra desses problemas. As geadas de julho prejudicaram plantações de milho, cana-de-açúcar e café, queimaram hortaliças e atrapalharam a colheita de frutas. Mesmo as plantas que sobreviveram terão o crescimento retardado. Os produtores rurais anteveem aumento de preços, com impactos diretos no índice de inflação do País.

O prejuízo para a produção de alimentos é só uma das facetas da atual crise ambiental. Sabemos, por exemplo, que a destruição das florestas também aumenta a possibilidade do surgimento de novas doenças, já que expõe seres humanos a microrganismos exóticos, presentes em animais silvestres, contra os quais não temos defesas imunológicas. O próprio vírus Sars-Cov-2, causador da pandemia de covid-19, proliferou, ao que tudo indica, a partir de um contato desse tipo. Mantido o atual ritmo de degradação do meio ambiente, podemos contar com novas pandemias nos próximos anos.

O quadro é grave e requer o engajamento de todos os atores sociais, do governo à iniciativa privada. As mudanças climáticas, alerta a ONU, já são, em alguma medida, irreversíveis. Logo, é preciso olhar para o futuro, preparando a sociedade para o impacto desses fenômenos e impedindo seu aprofundamento. Sem mudança de hábitos, investimento em ciência e adoção de políticas sustentáveis profundas, não conseguiremos vencer esses desafios.

A crença na ciência é um dos fatores que nos motivam a realizar o Prêmio Fundação Bunge, que este ano homenageará profissionais relacionados aos impactos das mudanças climáticas na produção de alimentos e prevenção de doenças infecciosas.

Reafirmamos, assim, a importância central da pesquisa científica na promoção do progresso social. Diante dos grandes desafios impostos pelas mudanças climáticas, a valorização da tecnologia e da inovação é nossa melhor chance de construir um País mais justo, desenvolvido e sustentável. E o Brasil precisa assumir seu protagonismo nessa mudança. Temos grandes áreas de floresta, uma das maiores reservas de água doce do planeta, nossa agricultura é desenvolvida e temos grandes pesquisadores e cientistas. Porém carecemos de políticas públicas comprometidas conosco e com as gerações futuras.


RESPECTIVAMENTE, PRESIDENTE DO CONSELHO SUPERIOR DE ESTUDOS AVANÇADOS (CONSEA) E DA ACADEMIA DE LETRAS JURÍDICAS, É CURADOR DOS PRÊMIOS FUNDAÇÃO BUNGE; E DIRETORA EXECUTIVA DA FUNDAÇÃO BUNGE

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