Escatológico, mesmo, é o despreparo do presidente

Xixigate é irrelevante. Grave é o presidente mostrar ignorância das funções de seu cargo

ROLF KUNTZ*, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2019 | 03h00

Há dois meses na Presidência, o capitão Jair Bolsonaro ainda parece desconhecer as funções de presidente da República e até a dignidade do cargo. O descompasso entre sua posição como chefe de governo e suas preocupações é o dado mais assustador do episódio do golden shower, também conhecido como xixigate, e de muitos outros, como a promessa de controlar as questões do Enem e um comentário sobre lombadas eletrônicas. Seus críticos foram até generosos, no caso do xixigate, porque deixaram de lado a questão mais importante, conhecida nas empresas como descrição de função. Acusaram-no de falta de decoro, de grosseria, de má educação e de uso irresponsável de uma rede social. Houve até quem o censurasse por má escolha de prioridades. Todas essas críticas podem ser merecidas, mas o dado central e realmente preocupante é outro.

Ao repassar o tal vídeo escatológico e pornográfico, ele se ocupou de uma questão muito distante das atribuições presidenciais. Tratou de um pequeno incidente de carnaval, pouco importante, por seus efeitos, mesmo para quem faz policiamento de rua. Mais que isso: num país com 12% de desempregados, mal saído de uma recessão, com crescimento acumulado de apenas 2,2% em dois anos, uma enorme dívida pública e uma complicada pauta de reformas, por que diabos o presidente da República se preocupa com um vídeo besta e se dispõe a repassá-lo com um comentário? Não é só uma questão de prioridade. Até surgir uma explicação melhor, despreparo para a função será a resposta mais convincente.

As suspeitas de absoluto despreparo para a Presidência foram novamente reforçadas, na quinta-feira, quando ele falou sobre suas missões como governante. Uma delas é aproximar o Brasil de países com “ideologia semelhante à nossa”, amantes “da democracia e da liberdade”. Qual o sentido prático dessa aproximação? Usar um boné de campanha eleitoral do presidente Donald Trump e discursar, numa festa nos Estados Unidos, em favor da construção de um muro na fronteira com o México? O autor das duas façanhas foi o deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente e patrocinador dos ministros das Relações Exteriores e da Educação.

E como ficará a relação com países governados com ideologia diferente? Ainda candidato, o capitão Jair Bolsonaro criou problemas com a China, o maior mercado importador de produtos brasileiros, e com países muçulmanos, grandes compradores de frangos do Brasil. Se o presidente Trump briga com muçulmanos e chineses, deve o Brasil também brigar?

Não será função do presidente da República preocupar-se também com o comércio exterior, com a geração de receita cambial, com a criação de empregos vinculados à atividade comercial e com os demais benefícios derivados do relacionamento com parceiros de fora? O vice-presidente Hamilton Mourão deve ir à China para tentar refazer o entendimento entre os dois países. Depois do vice, Bolsonaro anunciou também a intenção de visitar Pequim. Além disso, afirmou o propósito, nem sempre lembrado e às vezes quase negado, de aproximação com países de todo o mundo. Sem tanto falatório, Mourão tem procurado evitar um desastre maior na diplomacia, como ficou claro em sua participação na recente reunião do Grupo de Lima sobre a crise na Venezuela.

Sem dar sinal de entender o significado e a importância do comércio exterior, o presidente continua agindo, nessa área, como o mais tosco dos amadores. Ao anunciar a intenção de barrar a importação de bananas do Equador, mostrou mais uma vez seu despreparo e sua vulnerabilidade a pressões setoriais e também de pessoas próximas. O presidente declarou-se incapaz de entender como uma banana sai do Equador, viaja “cerca de 10 mil quilômetros” e chega a preço competitivo ao Ceagesp, quando há o produto do Vale do Ribeira. Mas o frango brasileiro, ele deveria saber, também chega ao Oriente Médio a preço competitivo, embora haja fornecedores mais próximos. O presidente insiste em mexer em assuntos fora de sua capacidade, sem perceber as implicações de qualquer decisão sobre comércio exterior.

Ele revela a mesma pobreza de entendimento ao insistir em palpites sobre questões do Enem e ao admitir a ideia abstrusa – para usar uma palavra muito delicada – de uma Lava Jato da Educação. O ministro da área já provou suas limitações quando apresentou às escolas uma mensagem com lema da eleição e propôs a filmagem de alunos cantando o Hino Nacional. Diante do escândalo, o ministro recuou e seu chefe aceitou esse desastre. Nenhuma surpresa: o presidente já se havia mostrado incapaz de entender as falhas da educação brasileira e suas consequências econômicas e sociais.

Se tivesse alguma noção desses fatos, teria escolhido para o ministério algum nome competente. Vários foram sugeridos e todos foram rejeitados, até por pressão de aliados evangélicos. Também isso corrobora a explicação, até agora inabalada, de absoluto despreparo para a função presidencial.

A precedência dada a seus filhos como conselheiros, com poder até para interferir na relação com ministros (caso Bebianno, por exemplo), reforça aquela avaliação. O candidato Bolsonaro teria sido reprovado, quase certamente, se a eleição envolvesse um teste sobre governança pública e sobre o papel de um chefe de Executivo.

O presidente da República tem sido criticado por seu pouco empenho na defesa da reforma da Previdência e por sua forma de comunicação, uma cópia do modelo Trump. Mas a comunicação sem critério e cheia de tropeços é apenas sintoma de algo muito mais grave. Desinformado e com um pobre currículo parlamentar, Bolsonaro parece entender a Presidência apenas como posição de mando, como oportunidade para impor seus valores e preferências, ignorando a gestão e as funções governamentais. Quem votou nele esperando eleger um presidente enganou-se. Presidente, até agora, é só um título formal.

*JORNALISTA

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