Estamos secando os continentes

Precisamos ter um consumo mais econômico de água, sem dúvida, mas isso não será suficiente.

Everton de Oliveira e Bruna Soldera, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2021 | 03h00

Recentemente uma pesquisa publicada pelo Mapbiomas (2021) que causou grande surpresa e alarme mostrou que a superfície hídrica do Brasil reduziu-se em 15,7% nos últimos 36 anos (correspondente ao tamanho do Estado de Alagoas). Entretanto, o planeta como um todo vem silenciosamente transferindo água dos continentes para os oceanos há séculos: de 15% a 25% da elevação do nível dos oceanos deve-se à água que é extraída por poços dos aquíferos, indo para os cursos d’água superficiais e, eventualmente, chegando aos oceanos.

O ciclo natural da água (chuva, infiltração, fluxo, evaporação, chuva, de forma simplificada) tem sido alterado pela ação humana de maneira consistente e perigosa para o futuro das próximas gerações. A catástrofe apresentada pelo estudo mencionado mostra apenas o que é visível, sendo que os reservatórios naturais de água dos continentes, os aquíferos, que armazenam 98% de toda a água doce líquida disponível, não aparecem na foto.

A água que atualmente se infiltra das chuvas não é suficiente para compensar a quantidade de água que é retirada desses reservatórios, muito longe disso. Num editorial recente para a conceituada revista Groundwater, Warren Wood e John Cherry (2021) alertam para a dimensão deste problema para a segurança alimentar do mundo, pois os dados de utilização da água dos aquíferos para irrigação pela agricultura são muito subestimados.

De acordo com as Nações Unidas, aproximadamente 40% da irrigação global é de água de poços e o restante (60%) é de água superficial. Segundo eles, estes dados ignoram uma informação hidrológica fundamental: aproximadamente metade da água superficial é proveniente de água subterrânea como fluxo de base. Portanto, o uso total da água subterrânea para a irrigação global é de 70% do total (40% de poços e metade dos 60% classificados como água superficial). Não por acaso, o tema das Nações Unidas para água em 2022 será Tornando o invisível visível, para chamar a atenção para este grande problema. A crise climática é a crise da água.

O Brasil não está sozinho, isso ocorre em maior ou menor escala em todos os continentes onde há agricultura ou concentração populacional. A título de ilustração apenas, cito três exemplos, entre infindáveis deles. A Índia é o país que tem a maior utilização de água de poços do mundo. Sozinha, ela extrai do subsolo um terço de toda a água que é extraída no mundo. O resultado são rios secando, poços secando. O problema social ali chegou a níveis incomparáveis: a cada 30 minutos um fazendeiro comete suicídio porque seus poços secaram, por isso não há água para manter sua lavoura e não podem cumprir com suas dívidas.

Nos Estados Unidos, a água do Aquífero Ogallala, que se localiza na região dos Altos Planos, está desaparecendo e em alguns lugares já não há mais água. A região fornece ao menos um quinto do total da colheita agrícola anual dos Estados Unidos e, se o aquífero secar, mais de US$ 20 bilhões em alimentos e fibras desaparecerão dos mercados mundiais.

Na Líbia, a sua capital, Trípoli, é abastecida pelo maior projeto de abastecimento por poços que se conhece, o chamando Great Man-made River (grande rio feito pelo homem), que é, na verdade, um aqueduto com 2 metros de diâmetro que transporta água por mais de 2.500 km. Trata-se de água fóssil, uma água que foi armazenada por chuva e infiltração no aquífero há mais de 10 mil anos.

Em resumo, a nossa cultura promove, aparentemente de forma despreocupada, pois longe dos olhos, o uso não sustentável de um recurso imprescindível à vida. Saliento que nem sequer mencionei a poluição das águas, a outra face do problema, que não é menos importante, mas que deverá ser assunto de um outro artigo.

Estamos maltratando nossos continentes. Precisamos ter um consumo mais econômico de água, sem dúvida, mas isso não será suficiente. Apesar de todas as formas de economia de água serem muito bem-vindas e necessárias, as estimativas mostram que até 2050 a população mundial deverá estar próxima de 10 bilhões de pessoas, um aumento de 25%. A esperada melhoria de vida das pessoas, algo desejável e motivo pelo qual todos devemos lutar, vai aumentar muito o consumo de água total do planeta. Em resumo, não vamos e não podemos parar de usar água.

A água que bebemos hoje é a mesma que um dia os dinossauros já beberam, o nosso planeta tem a mesma quantidade de água desde sua origem, há mais de 4 bilhões de anos, o que muda são a sua distribuição/localização e a sua qualidade. Precisamos passar a ter uma economia circular do ciclo da água para que possamos armazenar água suficiente nos reservatórios naturais, mantendo assim a qualidade da vida e da ecologia. Há tecnologia e conhecimento disponíveis para essa mudança cultural necessária e despercebida pela maioria das pessoas. Uma fotografia apresentada pelo Mapbiomas talvez consiga chamar a atenção para a personagem principal que ficou faltando: a água que se encontra sob nossos pés, invisível, nos aquíferos.

Por uma economia circular do ciclo da água, porque o mundo precisa de água!

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RESPECTIVAMENTE, SÓCIO DA HIDROPLAN, DIRETOR DO INSTITUTO ÁGUA SUSTENTÁVEL E DO GROUNDWATER PROJECT E DIRETORA DO INSTITUTO ÁGUA SUSTENTÁVEL

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