Estratégia

A de Bolsonaro não leva em conta o provérbio ‘quem semeia ventos colhe tempestades’

Celso Lafer*, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2019 | 03h00

A palavra estratégia vem do grego strategós, chefe de um exército, donde o verbo strateguein, comandar um exército. Sua origem é, portanto, de natureza militar. Mas o seu uso se alargou para outros campos do conhecimento e aplicação, como a política e a economia, na medida em que o fim, o caminho e a vontade são elementos não estritamente militares da estratégia. 

Assim, estratégia, estrategista, estratagema tornaram-se termos de uso geral, que têm em comum conferir uma dimensão calculada, e não improvisada, às decisões que almejam fazer prevalecer uma política, na acepção de “policy”. É assim que a qualifica o general André Beaufre (1902-1973), importante estudioso da matéria. A estratégia é uma praxeologia voltada para ação, que associa a pluridisciplinaridade e a experiência. A estratégia, para ser bem-sucedida, além de ser bem concebida, requer sucesso tático. Tática, como também diz Beaufre, em formulação que tem alcance não exclusivamente militar, “é a arte de utilizar as armas em combate, tirando delas o maior rendimento possível”.

A superação ou a redução dos múltiplos obstáculos que a realidade opõe aos objetivos almejados pela praxeologia da ação estão no cerne da estratégia, como realça Thierry de Montbrial, grande estudioso do tema. Daí a construção, mais ou menos elaborada, de cenários que exploram alternativas viabilizadoras da ação estratégica. 

Um bom técnico de futebol elabora a estratégia da vitória num campeonato alinhando os talentos táticos dos seus jogadores e levando em conta a força dos adversários. Uma empresa elabora a estratégia de sua conduta – o seu caminho – avaliando, por exemplo, as possíveis mudanças de mercados e concorrentes, a continuidade ou não do interesse dos consumidores por seus produtos e serviços, o alcance da inovação tecnológica, para assegurar um fim, o seu bom e lucrativo desempenho econômico.

Os estudiosos das relações internacionais, na análise e escolha de estratégias diplomáticas, estão atentos, mais do que em outros campos do conhecimento, à estratégia militar, pois o sistema internacional opera sob a sombra da situação-limite paz/guerra.

No mundo contemporâneo são consideráveis os desafios da reflexão estratégico-militar, dadas tanto a pluralidade das armas quanto a letalidade das de destruição em massa, que a inovação científica e tecnológica multiplica, acentuando os generalizados riscos da violência e da guerra. É o que torna a guerra, nas suas múltiplas facetas, um camaleão que vai assumindo novas e imprevisíveis formas, como observa Raymond Aron. É o que delimita a racionalidade da guerra como estratégia diplomática e problematiza a definição de Clausewitz de que a guerra é a continuação da política por outros meios, pois estes podem destruir o fim, o caminho e a vontade.

Estas considerações mais amplas são a moldura analítica de uma avaliação sobre o que se pode dizer da estratégia do presidente Bolsonaro e do seu governo. Parto da consideração de que estratégia eleitoral e estratégia de governo não são a mesma coisa, pois seus objetivos são distintos: num caso, a vitória e a derrota dos adversários; no outro, a governança de um país como o Brasil, complexo e de escala continental, com uma grande gama de problemas pendentes. Entre eles, a pobreza e as fraturas sociais.

Shimon Peres, refletindo sobre as muitas décadas de sua experiência governamental, registra que consagrou a maior parte do seu tempo operando a estratégia da gestão dos conflitos.

A estratégia eleitoral do candidato Bolsonaro foi bem-sucedida. Alinhou aspirações em torno de algo “novo”, valeu-se das oportunidades oferecidas pelo cenário nacional, soube recorrer ao alcance das mídias sociais. Conduziu, nesse contexto, uma campanha de combate político e de confrontos, mobilizadora de emoções, incluído o sentimento anti-PT. Logrou derrotar o amplo espectro de seus adversários, esvaziando a força dos partidos políticos que os respaldavam.

É adequada a transposição da estratégia eleitoral para uma estratégia de governo? A ascensão aos extremos da disposição para confrontos, que redundou na vitória eleitoral, é uma boa estratégia de governo?

Exacerbar conflitos, com o ânimo da militância de cruzados, desconsiderando ideologicamente a distinção entre fatos e ficção para identificar inimigos e conspirações no Brasil e no mundo, contribui para a gestão de conflitos?

A distinção entre bom e mau governo é um dos temas clássicos da teoria política. Do ponto de vista geral, o ideal de bom governo identifica-se com o governo regido pelas leis e voltado para o bem comum. Contrapõe-se ao mau governo do arbítrio, voltado para o bem de uma da parte, de uma facção. É por essa razão que a desagregação do bom governo tem como um de seus ingredientes a prevalência da formação de facções e o estímulo à discórdia, como lembra Bobbio. É o que aponta Hobbes ao analisar os riscos da multiplicação de facções dentro do Estado e da sociedade para a boa governança.

O espírito de facção da relação amigo/inimigo inspira o cerne ideológico do governo. Está alinhado com o temperamento do presidente e motiva a sua maneira de se dirigir ao País. Nela manifesta mais a vontade de afirmar que é um comandante do que ser considerado um servidor do Brasil como um todo, portador de uma visão integrada, apta a descortinar rumos e esperanças. O forte faccionismo da estratégia do governo nestes dez meses de gestão, no seu trato com a sociedade, os integrantes da sua equipe e seus aliados, corrói a abrangência do seu capital político. Fragmenta a nitidez dos seus caminhos. Não contribui para a reconstituição dos laços de confiança entre o governo e o todo dos governados. 

Em síntese, trata-se de uma estratégia que não leva em conta a advertência do provérbio: “Quem semeia ventos colhe tempestades”.

* PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE DIREITO DA USP, FOI MINISTRO DE RELAÇÕES EXTERIORES (1992 E 2001-2002)

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