Eugenia de Hitler na era Bolsonaro

Isolamento vertical é jovem contagiar-se na rua e contaminar velhos em casa

José Nêumanne, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2020 | 03h00

Eliane Cantanhêde narrou neste jornal que em reunião com outros ministros e o chefe, Jair Bolsonaro, o titular da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, lembrou que mil mortos na pandemia da covid-19 equivalem à queda de quatro Boeings. “Estamos preparados para o pior cenário, com caminhões do Exército transportando corpos pelas ruas com transmissão ao vivo pela internet?”, perguntou. Os animais racionais presentes acharam que o choque faria o chefão do “gabinete do ódio” recuar da decisão de sacrificar vidas para salvar empregos.

Vã ilusão. Ele está pouco interessado em ter razão e na razão. No dia seguinte, “em desafio a Mandetta” – que, ao que parece, é indemissível, mas nem assim tem como reduzir efeitos colaterais malignos da atitude do chefe –, passeou nas ruas “para ouvir o povo”, dando uma de Harum Al-Rashid do cerrado. Fê-lo porque se diz um atleta e, como revelou, “todos morremos um dia”. Ainda bem que Alexander Fleming, ignorando isso, inventou a penicilina para salvar vidas. Nem o destino inexorável evitou que Albert Sabin pesquisasse a vacina contra a poliomielite, que abrevia a sentença bolsonarista de milhões de bebês mundo afora e em nosso desafortunado Brasil.

O chefe do Executivo, cujo herói de guerra não é Winston Churchill, que deteve o nazismo, nem Luís Alves de Lima e Silva, o pacificador, mas o coronel Brilhante Ustra, que torturava patrícios indefesos até a morte por desafiarem a ditadura militar, tem devotos que o seguem cegamente. Ele nunca fez profissão de fé terraplanista nem rejeitou publicamente avanços da civilização promovidos por sábios como Galileu Galilei, Nicolau Copérnico, Charles Darwin e Isaac Newton, que revolucionou a física mostrando por que tudo o que sobe cai.

Ninguém deve imaginar que o faz por ideologia do moto-perpétuo para cima ou profissão de fé fundamentalista. Trata-se apenas de um frio e cruel cálculo eleitoral. Mortos não votam. Talvez não tenha ocorrido ao ministro Mandetta lembrar-lhe que cadáveres não podem ser eleitos. O psiquiatra Jorge Alberto Costa e Silva, ex-chefe do setor de epidemias da Organização Mundial da Saúde, em entrevista a Felipe Moura Brasil, do site O Antagonista, avisou que os participantes da impatriótica guerra pelo pódio republicano em 2022, entre os quais ele próprio e o potencial contendor João Doria, podem não chegar à campanha. Pois, contrariando a higidez aparente, não bastará para evitar o contágio, já que, como ele mesmo disse, ninguém é imortal. Aliás, ao desafiar o ministro que nomeou para combater epidemias, ele propõe uma astuciosa versão contemporânea da eugenia, com que o austríaco Adolf Hitler tentou eliminar idosos e doentes crônicos para depurar uma invencível raça ariana. O pintor de paredes de ofício não tinha a educação formal de um ex-aluno de Academia Militar das Agulhas Negras. O isolamento vertical deste é a eugenia sofisticada a ser praticada por mãos limpas, com o uso recomendado de detergente. O raciocínio é claro como água: o jovem sadio sairá à rua, contrairá o coronavírus e o transmitirá ao velho e/ou debilitado doméstico. Como costumava dizer o pistoleiro Luquinha, o Ustra do sertão da Paraíba: “Nunca matei ninguém, atirei no infeliz. Só quem mata é Deus”. A vítima morrerá de diabetes, cardiopatia ou moléstias respiratórias. O responsável não será o nazismo, mas um parente próximo, que, mesmo jovem e são, é passível de sucumbir à covid-19 propriamente dita.

O idealizador da eugenia pelo parente na sala ao lado baterá Hitler, Ustra e Luquinha em astúcia. Isso, contudo, não o tornará o herói predestinado de 2022. A opção preferencial pelo trabalho contagioso ceifaria muitas vidas, mas Bolsonaro já tem a explicação na ponta dos dedos de todos os seus seguidores: a Saúde de Mandetta fracassou, mas a Economia de Guedes nos salvará. Ele não aprendeu com Tancredo Neves que “a esperteza quando é demais engole o dono”. O fato é que lorde Keynes e Franklin Delano Roosevelt não salvaram a economia mundial do colapso da Bolsa de Nova York em 1929. Imaginemos que eles ressuscitassem e aceitassem participar da equipe de Paulo Guedes, que disse: “Eu, como economista, gostaria que pudéssemos retomar a produção. Eu, como cidadão, ao contrário, aí já quero ficar em casa”. Nem o excessivo uso do pronome pessoal na primeira pessoa e a experiência do New Deal evitariam a bancarrota do país menos preparado do mundo para sobreviver depois da peste vinda da China. Esta profecia será facilmente cumprida: o mundo interligado, que se defende do novo coronavírus da forma mais eficiente, que é o isolamento social total, deixaria o Brasil, do mais alto grupo de risco entre todos, morrer sem o oxigênio que outros países guardaram para usar depois da crise.

O que de fato poderia criar empregos seria usar o poder de guerra que o Congresso lhe dá para eliminar os privilégios absurdos de que a casta dirigente abusa para se manter no luxo, enquanto os pobres morrem à míngua.

Quem tem dicionário sabe que “mito” significa lenda, mentira.

JORNALISTA, POETA E ESCRITOR

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