‘Fale-me sobre o Brasil’

Lideranças ligadas à sustentabilidade emergem como as preferidas nos EUA

Paulo Sotero, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2021 | 03h00

Essa frase do título deste artigo seria sem importância, não fosse Joe Biden o seu autor. Ouvi-a dele um quarto de século atrás, num encontro fortuito durante a convenção nacional republicana em San Diego, que elevou o senador Bob Dole a candidato do partido na eleição presidencial de 1996. Biden estava lá como representante democrata na convenção do partido adversário – um estranho no ninho conservador dando sopa na ala dos jornalistas internacionais que cobriam o evento. Apresentei-me, ele abriu um largo sorriso e estendeu-me a mão.

Os bons políticos não perdem oportunidade para aprender. Biden fora candidato presidencial nas primárias democratas de 1988, mas sua pretensão terminaria em fiasco com a revelação de que ele plagiara um discurso de um líder trabalhista inglês num evento da campanha. Presidente da Comissão de Justiça do Senado, ele já era um nome nacional, mas pouco sabia sobre o Brasil. Daí sua curiosidade.

Falei-lhe sobre o panorama promissor da estabilização econômica trazida pelo Plano Real e a eleição para presidente de seu arquiteto – um ex-professor perseguido que via o mundo sem temor e buscava ampliar o engajamento internacional de um Brasil que abria a economia e iniciava as reformas estruturais impostas pela realidade.

Quando assumiu a Casa Branca, em janeiro deste ano, Joe Biden era, de longe, o presidente americano mais informado sobre o Brasil nos temas de interesse para seu país, especialmente sustentabilidade, clima e democracia, que ele colocou no topo da agenda de seu governo. Antes mesmo de tomar posse, deixou evidente sua antipatia pelas políticas destrutivas de Jair Bolsonaro na Amazônia. Mas não fechou portas nem hostilizou o País. Cercou-se de um afiado time de assessores familiarizados com o Brasil, na maioria oriundos do governo Barack Obama, do qual foi vice-presidente, e convidou o presidente Jair Bolsonaro para a cúpula virtual global que organizou no primeiro semestre para sublinhar a centralidade da questão climática em sua estratégia de reafirmação da liderança dos Estados Unidos no mundo após o desastre trumpista.

Paralelamente, seus assessores puseram-se em campo para mapear os caminhos de um diálogo bilateral, que sempre foi promissor, mas raramente produziu resultados. Líderes da sociedade civil, como os envolvidos na Concertação pela Amazônia, foram identificados como interlocutores preferenciais para construir pontes com o Executivo e o Legislativo dos Estados Unidos.

A realidade, porém, é que a administração Biden pouco ou nada espera do governo Bolsonaro. Ou de eventuais sucessores, como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que lidera as sondagens sobre as eleições do ano que vem. A administração reconhece a capacidade de articulação política do ex-presidente e de seu partido, e os méritos potenciais de uma estratégia econômica e social progressista no Brasil. Teme, porém, que a busca de reafirmação da liderança brasileira leve a desencontros. Isso pode acontecer em temas candentes como Cuba, onde a oposição ao regime castrista ganha força nas ruas, ou Oriente Médio, onde uma fracassada tentativa de Lula de mediar um acordo nuclear entre o Irã e a comunidade internacional, em 2010, levou a um apagão nas relações bilaterais e deixou, dos dois lados, ressentimentos ainda não superados. Isso, para não falar na confrontação sino-americana, que coloca o Brasil diante de escolhas impossíveis.

Acrescente-se a instabilidade política que os Estados Unidos enfrentam em casa, fator novo introduzido pela recusa do ex-presidente Donald Trump e seus aliados no Partido Republicano a aceitar a eleição de Biden como legítima e, em vez disso, estressar os limites da democracia. Exemplos são as centenas de propostas de mudanças nas regras eleitorais nos Estados comandados por republicanos para cercear o direito ao voto das minorias raciais e prolongar o poder dos americanos brancos. Demograficamente fadados a perder influência política, eles se sentem ameaçados e são vulneráveis à manipulação de demagogos como Trump. Se essa estratégia for bem-sucedida e devolver o controle do Congresso aos conservadores nas eleições legislativas do ano que vem, o que é plausível, poderemos assistir ao começo do fim da democracia americana como um regime de liberdade e expansão dos direitos civis consagrados na Constituição do país.

O dilema americano foi ilustrado pela recente decisão do colunista Nicholas Kristof, um dos especialistas em temas internacionais do jornal The New York Times, de voltar sua energia e seu talento para o exame da complexa realidade doméstica do país, vista por ele, um respeitado internacionalista, como mais importante e urgente do que as questões que animaram seu trabalho de analista em décadas recentes.

Ante esse quadro, que já tira o sono de estudiosos, o Brasil é visto como um ator medíocre e cada vez menos relevante, na medida em que seus líderes políticos e intelectuais se mostram incapazes, com raras exceções, de identificar e organizar os formidáveis ativos da Nação numa visão consequente do interesse nacional.


JORNALISTA, É PESQUISADOR SÊNIOR DO BRAZIL INSTITUTE NO WILSON CENTER, EM WASHINGTON

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