Família, baita solução

A ausência de princípios éticos no âmbito da educação familiar deixa marcas profundas

Carlos Alberto Di Franco, O Estado de S. Paulo

10 de fevereiro de 2020 | 03h00

Estudos mostram que crianças criadas fora do casamento estão mais propensas a abandonar a escola, usar drogas e se envolver em violência. O Child Trends, um instituto de pesquisa norte-americano, resumiu: “Filhos em famílias com um só dos pais, filhos nascidos de mães solteiras e filhos criados na nova família de um dos pais ou em relações de coabitação enfrentam riscos maiores de ficar pobres”. Família não é problema. Funciona. Resolve. É uma baita solução. Contra fatos não há argumentos.

Não sou juiz de ninguém. Mas minha experiência profissional indica a presença de um elo que dá unidade às manifestações antissociais de inúmeros adolescentes: o esgarçamento das relações familiares. Há exceções, é claro. Desequilíbrios e patologias independem da boa vontade dos pais. A regra, no entanto, indica que a criminalidade infantojuvenil costuma ser o corolário de um silogismo que se fundamenta em premissas bem concretas. A desestruturação da família está, de fato, na raiz de inúmeros problemas.

Os conflitos familiares são, por exemplo, a principal causa que leva os jovens para o mundo das drogas. Embora exista uma série de fatores que podem fazer os jovens experimentar as drogas e se viciar (predisposição genética, fatores de personalidade, pressão do narcotráfico), a estruturação familiar é decisiva.

Sobre a importância social da família há volumes alentados, análises e estudos muito ponderáveis. Eu desejaria hoje, concretamente, frisar apenas uma das razões que, a meu ver, evidenciam o nexo de causalidade existente entre família sadia e sociedade civilizada e democrática.

Refiro-me ao fato de que, na sociedade, não há nenhum âmbito de crescimento humano e ético, nenhum ambiente educativo, nenhum “coletivo” tão propício e eficaz para o cultivo das virtudes como a família bem estruturada. E isso é de suma importância, levando em consideração que, no mundo atual, cada vez aparece mais evidente que a sociedade precisa do oxigênio vital das virtudes. Decadência social e ignorância ou desprezo pelas virtudes são a mesma coisa.

A valorização do sucesso sem limites éticos e a consagração da impunidade têm colaborado para o aparecimento do crime precoce. A sociedade atual, com suas mazelas, com os preocupantes desvios de comportamento (basta pensar na escalada da violência, na epidemia da corrupção e no inferno das drogas) é de molde a reacender uma autêntica “saudade das virtudes”.

Remontemos à sabedoria dos gregos. Qualquer estudioso da Antiguidade clássica sabe que entre os poetas e filósofos gregos – e, posteriormente, entre seus discípulos latinos – a grandeza do ser humano estava indissociavelmente vinculada à aretê, conceito de rico conteúdo cuja tradução mais aproximada, na linguagem moderna, é precisamente “virtude”. O homem vulgar – recorda Werner Jaeger na sua famosa Paideia – não tem aretê. E, nas pegadas de Sócrates, Platão reiterará que a virtude, a aretê, é o que torna a alma bela, nobre e bem formada, a que abrange e eleva o “humano” em sua totalidade e irradia depois como glória na vida da comunidade.

Pois bem, perante isso, parece preciso perguntar-nos: onde é que a juventude aprende a aretê, a virtude, que deve ser, acima de tudo, um valor reconhecido pela criança, pelo adolescente e pelo jovem, uma convicção enraizada, uma prática exercitada com empenho, da qual depende o bem da pessoa e da sociedade?

A família, sim, a família já foi e deveria ser agora o caldo de cultura mais propício para a descoberta, a valorização, o aprendizado e a prática das virtudes. Mas em que pé está a família entre nós? Será que há algum empenho real dos Poderes do Estado em fortalecê-la como estrutura vital e ética indispensável para a construção do bem da sociedade? Creio que não está longe da verdade afirmar que, aparentemente – a julgar por alguns projetos de lei que rebrotam com frequência aqui e ali –, nota-se mais empenho da parte das cúpulas do poder em desestruturar a família.

Não terá chegado o momento em que os responsáveis pelos destinos do Brasil, sobretudo os parlamentares e alguns integrantes do Supremo Tribunal, em vez de se dedicarem a lançar lenha na fogueira onde se incineram os valores familiares, voltem a sua atenção para a família, conscientes de que está – em boa parte por culpa deles mesmos – frágil e doente? Eu não duvido de que é na família, na autêntica família, mais que em qualquer outro quadro de convivência, o “lugar” onde podem ser cultivados os valores, as virtudes e as sábias “tradições”, que constituem o melhor fundamento da educação para cidadania. Só assim, não duvidemos, construiremos uma sociedade justa e democrática.

A crise ética que castiga amplos segmentos da vida pública brasileira, fenômeno impressionante e desanimador, tem seu nascedouro na crise da família. É preciso pôr o dedo na chaga e dar nome aos bois. A ausência de valores e princípios éticos no âmbito da educação familiar deixa marcas profundas. Os homens públicos não são fruto do acaso, mas de sua história. A virada ética, consistente e verdadeira, começa na família.

*JORNALISTA. E-MAIL: DIFRANCO@ISE.ORG.BR

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