Fatos versus militância

Governo e imprensa não podem ter relação promíscua. Mas precisam conversar

Carlos Alberto Di Franco*, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2020 | 03h00

O presidente Jair Bolsonaro e os jornalistas vivem em clima de guerra. Os embates, tóxicos e intransigentes, não têm a cara do Brasil. A perspectiva de quase dois anos de governo permite ensaiar um balanço de perdas e ganhos de um conflito desagradável e nada produtivo.

As últimas pesquisas mostram que o presidente da República, armado de seu estilo agressivo e tom de conversa de mesa de bar, está levando vantagem nas bolas divididas e fazendo mais gols. Bolsonaro ataca muito. Mas também apanha para valer. A percepção da sociedade refletida nas pesquisas é de que Bolsonaro, mesmo com o desgaste da rachadinha, está mais para vítima que para vilão.

O grande equívoco da imprensa é deixar de lado a informação e assumir certa postura de militância. Os eventuais desvios do governo não se combatem com o enviesamento das coberturas, mas com a força objetiva dos fatos e de uma apuração bem conduzida. 

Vamos a alguns exemplos. Eles ajudam a iluminar a argumentação deste artigo. 

Não faz muito tempo, uma apresentadora de televisão afirmou no ar, ao noticiar um evento do governo chamado “Vencendo a covid-19”, que “nem Bolsonaro nem as autoridades presentes prestaram solidariedade às vítimas”. Mas o distinto público pôde ver e ouvir que a médica Raissa Oliveira Azevedo de Melo Soares, uma das participantes da cerimônia, pediu um minuto de silêncio em homenagem aos 115 mil mortos na epidemia – e que todos os presentes atenderam ao seu apelo. Negar um fato comprovado com o som e a imagem é um tiro no pé, um absurdo.

Reproduzo recente manchete de jornal: Bolsonaro monta roteiro para entregar obras de Lula e Dilma. Pois bem, amigo leitor, a descontinuidade das obras de infraestrutura dos antecessores, com imensas consequências econômicas e perda de eficiência, tem sido objeto de recorrente crítica da imprensa e da sociedade. As inaugurações de Bolsonaro, independentemente do eventual ganho eleitoral, deveriam ser evitadas? É óbvio que não. Na verdade, o presidente está fazendo o que nós sempre cobramos: dar continuidade às obras de administrações anteriores.

O erro da imprensa, que a afasta das suas audiências, está em atribuir ao presidente coisas que ele não fez. É óbvio que nós, jornalistas, temos o dever ético de iluminar o lado escuro do governo. Mas denúncias, necessárias e pertinentes, precisam estar apoiadas na objetividade dos fatos e no verdadeiro interesse público. 

Governo e imprensa não podem ter uma relação promíscua. É salutar certa tensão entre as instituições. Mas precisam conversar. São peças essenciais da estrutura democrática. Aguardo – já o disse outras vezes – que Bolsonaro desça do palanque e assuma o papel de presidente de todos os brasileiros. Espero também que nós, jornalistas, deponhamos as armas do engajamento e façamos jornalismo. 

Jornalismo é a busca do essencial, sem adereços, adjetivos ou adornos. O jornalismo transformador é substantivo. Sua força não está na ideologia, mas no vigor persuasivo da verdade factual e na integridade da sua opinião.

Ao longo deste ano, alguns jornalistas da grande mídia, na cobertura de política e do governo, em nome de suposta independência, têm enveredado pelo que eu chamaria de jornalismo militante. E isso não é legal. Não fortalece a credibilidade e incomoda crescentemente seus próprios leitores. Consumidores de jornais mostram cansaço com o excesso de negativismo de nossas pautas. Trata-se de um fato percebido nas redes sociais. 

Na verdade, à semelhança do que aconteceu no segundo semestre de 2018, há um crescente distanciamento entre o que veem e reportam e o que se consolida paulatinamente como fatos e/ou percepções de suas próprias audiências, posto que a estas foi dado o poder de fazer suas próprias reflexões e até apurações, facilitadas e potencializadas pela internet. 

Ao agirem dessa forma correm o risco de comprometer a viabilidade de seus próprios veículos, pois somarão às já conhecidas perdas de verbas publicitárias dos últimos muitos anos uma diminuição das audiências. Não se trata, por óbvio, de ficarmos reféns do leitorado. Os jornais têm o dever ético de dizer coisas que podem não agradar aos seus leitores. Mas é preciso não perder conexão com as percepções do público e com a realidade.

É necessário reconhecer, para o bem e para o mal, que perdemos a hegemonia da informação. Impõe-se, por óbvio, um jornalismo menos anti e mais propositivo. O que não significa, nem de longe, perder a necessária independência e o senso crítico. A fiscalização dos governos e das instituições é parte essencial da atividade jornalística. A democracia se fortalece com uma imprensa crítica, mas isenta.

O jornalismo de registro, pobre e simplificador, repercute o Brasil oficial, mas oculta a verdadeira dimensão do País real. Sobra fofoca e falta notícia. No entanto, muitas pautas estão quicando na nossa frente. Precisamos fugir da espuma política e fazer a opção pela informação que realmente conta. É preciso investir em matérias profundas e capazes de despertar um debate consistente.

Chegou a hora do jornalismo propositivo.

* CARLOS ALBERTO DI FRANCO É JORNALISTA. E-MAIL: DIFRANCO@ISE.ORG.BR

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