Fé na política

Por mais áspera que ela seja, recompensa os que a preferem à demagogia

Marcos Guterman, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2020 | 03h00

A vitória de Joe Biden na disputa pela Presidência dos EUA é, entre muitos outros aspectos, a reafirmação da fé na política – que, com todas as suas imperfeições, é o único mecanismo, numa democracia, para encontrar soluções legítimas e duradouras para os muitos problemas da sociedade.

É a recuperação do valor de todos e de cada um dos cidadãos como protagonistas da vida pública, em contraste com a ideia, tão bem simbolizada pelo presidente Donald Trump e seus discípulos, de que a maioria, encarnada no vencedor da eleição, detém o poder absoluto, cabendo à minoria calar-se e aceitar a sua insignificância.

Pode ser que o governo de Joe Biden acabe por frustrar as expectativas que se criaram em torno dele, mas isso é do jogo, e a democracia tem seus mecanismos para dispensar governantes incapazes de entregar o que prometeram. O importante a salientar é que não há saída fora da política e temos de aceitar seus muitos defeitos, especialmente porque a alternativa é a oclocracia messiânica de Trump e companhia, em que o líder atropela leis e instituições em nome da massa, movido por uma suposta missão de purificação nacional.

A derrota do aventureiro Trump e a vitória de um político calejado nos EUA mandam uma mensagem particularmente relevante para o Brasil, que ainda tem dois anos pela frente em seu experimento de negação da política, deflagrado nas eleições de 2018. Esse experimento, a exemplo do que aconteceu nos EUA e em outras partes do mundo sob inspiração de Trump, explora justamente a aflição dos cidadãos com o caráter contingente da vida democrática. O bolsonarismo, bem como o trumpismo, oferece a seus clientes eleitorais a perspectiva de controle total sobre a história, isto é, a supressão do acidental: tudo já está escrito e será revelado pelo líder.

Joe Biden, por sua vez, representa a incerteza da história ainda por ser escrita e que, portanto, clama pela participação de todos em sua elaboração, por meio de suas organizações sociais e partidárias, dentro das regras da democracia. E antes que alguém argumente que isso não é possível no Brasil, intoxicado pela descrença na política, deve-se lembrar do exemplo recente do governo de Michel Temer.

Em sua curta duração, o governo de Temer privilegiou o diálogo político – e não somente porque era a única forma de superar o tumulto legado por sua antecessora, Dilma Rousseff, mas porque era a tradução da convicção genuína do então presidente no poder da democracia.

“Nós temos que governar o país e governar por meio do diálogo. Diálogo entre quem? Entre o Executivo e o Legislativo, porque quando você despreza o Legislativo o ato de governar torna-se muito mais difícil”, conta Temer no livro A Escolha, coletânea de entrevistas do então presidente ao professor de Filosofia Denis Lerrer Rosenfield.

Sabe-se que o governo de Temer foi muito impopular, mas não propriamente por seus atos, e sim pelo que representava numa sociedade polarizada: para uns, era “golpista”, malgrado ter assumido a Presidência num processo plenamente constitucional; para outros, era representante da “velha política”, identificada por extremistas como visceralmente corrupta.

Em meio a esse ambiente tumultuado, Temer enfrentou a crise com as armas que tinha na mão: sua larga experiência como parlamentar, seu bom trânsito entre os agentes políticos mais relevantes e seu conhecimento do funcionamento das instituições e dos limites da Constituição. Sobretudo, investiu na política – e foi relativamente bem-sucedido na resolução de parte da imensa instabilidade herdada de Dilma.

“As pessoas imaginam que essa história de derrubar a inflação e os juros é algo que cai do céu, uma espécie de ato da natureza, como se esta, por mecanismos próprios, fosse capaz de resolver essas questões. Não! É um ato político, de governo”, declara Temer, descrevendo assim a “escolha” de que trata o livro.

Pode-se olhar o legado de Temer pelos números, favoráveis em sua maior parte, ou pelas reformas aprovadas a despeito das muitas dificuldades. Mas a maior herança do governo Temer é o contraste entre um presidente com o senso do dever, que fez o que precisava ser feito mesmo à custa de sua popularidade, e a presidente que o antecedeu, com sua irresponsabilidade fiscal e sua visão retrógrada de país, e também o presidente que lhe sucedeu, afeito mais a “caneladas” do que ao diálogo e que não sabe o que fazer com o poder que recebeu das urnas. Temer mostrou, em seu curto mandato, que a política tradicional era, sim, capaz de oferecer uma alternativa racional e viável tanto à demagogia estatólatra do PT como ao reacionarismo primitivo do bolsonarismo.

Ou seja, não é preciso buscar alhures exemplos de como a política, por mais áspera que seja, recompensa os que a preferem à demagogia. Decerto Joe Biden merece servir como referência dessa possível retomada dos bons modos políticos; mas, por aqui, esse exemplo já existe – e se a política é a arte do possível, Temer é político por excelência, capaz, em suas próprias palavras no livro, de “trabalhar com aquilo que tem”.


JORNALISTA E HISTORIADOR

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